Arquivo da categoria: ARQUIVO

Por um desejo de conhecer



(Por Fernando Mendonça).

A utilização do gênero policial como um instrumento de reflexão capaz de problematizações de ordem metafísica existe em vários autores considerados canônicos dentro da arte cinematográfica. Antonioni, Godard, Hitchcock, Lang, Bresson, e tantos outros, marcaram sua obra com criações que flertavam indireta ou explicitamente com a estrutura das intrigas policiais, sempre visando horizontes maiores de indagação e questionamento do humano. Atualmente, o nome do cineasta americano David Fincher, pode ser colocado sem hesitação ao lado desses criadores no sentido de valer-se no gênero não apenas com ousadias que chamam atenção dentro da linguagem audiovisual, mas com uma postura de pensamento que faz desse tipo narrativo um meio para algo maior, como veremos aqui, pertencente ao nível do conhecimento.

Para Hegel, em sua Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817), há uma contradição intrínseca ao conhecimento, pois ele é sempre inacabado e se nega a si mesmo a cada vez que o saber é ampliado. Ao perceber que o conhecimento que se tinha de um objeto era insuficiente e imperfeito, atinge-se um novo saber. Conhecer o erro é atingir uma nova verdade. Assim, o que agora é conhecido aparece como negação do saber anterior. A verdade torna-se um processo que, sem cessar, nega a si próprio; o saber se ultrapassa constantemente. E, quando uma negação nega a si mesma, ela se torna uma nova afirmação. Todas estas afirmativas de cunho hegeliano nos conduzem ao cinema em seu gênero policial. Um filme pertencente a tal gênero tem por Continuar lendo

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Joca entrou no buraco

Por Luís Fernando Moura

Em comentário para o site Cinema Escrito, Carlos Reichenbach apontou a compreensão de uma divisão narrativa em Amigos de Risco. Seriam dois momentos de enfoques distintos, tratando dos espaços e dos personagens sob a complexidade de diferentes dimensões. Num primeiro instante, o tom, o ritmo e a profundidade de uma “crônica urbana” imprimiriam as marcas de um espaço “ultra local”, a fim de referenciar cada personagem em um ambiente geográfico (o Recife, a urbe, a periferia), social (classe média baixa), afetivo (a amizade, o companheirismo, a história individual). A progressão dos diálogos e a apresentação destes conflitos “crônicos” revelam uma imersão psicológica – e também sociológica – na busca de palpabilidade para os três personagens: Joca (Irandhir Santos), Nelsão (Paulo Dias) e Benito (Rodrigo Riszla). O apego que se funda a partir de tal construção narrativa é responsável pelo resgate de um universo reconhecível de referências: a periferia das grandes cidades, a violência, a criminalidade e também a relação orgânica entre os companheiros que, a partir de um embate profícuo, infiltram-senas sucessivas crises do roteiro.

Tomo para meu texto, por necessidade, a alusão que Reichenbach faz ao pensamento de Montaigne: “não se consegue o universal senão através do ultra local”. Longe de identificar estereotipismos em Amigos de Risco, revisito esta idéia para pensar em paradoxos formativos, em última instância responsáveis pela sempre iminente competência que Continuar lendo

Os dois lados da moeda humana em Cronenberg

Por Fernando Mendonça)

“Um dos fenômenos que atraía especialmente minha atenção era a estrutura do corpo humano e, também, de qualquer ser dotado de vida. Muitas vezes perguntava a mim mesmo se o princípio vital não teria a sobrevivência em estado latente. Pergunta arrojada, sem dúvida, que sempre foi considerada um mistério”.

Mary Shelley. FRANKENSTEIN

Não é segredo que a genialidade do canadense David Cronenberg tem se revelado num ápice incansável há um bom número de anos. Incontestável autor cinematográfico, sua carreira tem sido construída numa obra de tão profunda coerência temática e estética que poucos ousam duvidar da ousadia de suas criações, ainda que não alcancem lugar-comum as inúmeras reações e interpretações alçadas ao redor de sua filmografia. Muito já foi discutido a respeito dos ideais pós-modernos presentes em sua arte e não são poucos os teóricos que o elevam a estatura de pensador contemporâneo, principalmente por trabalhar com insistência questões delicadas que envolvem as tecnologias (virtualidades) em relação ao corpo humano e àquilo que diz respeito a suaexistência. Também tem sido erguido, no decorrer da década corrente, um debate sobre as intenções que Cronenberg vem assumindo em suas mais recentes imersões fílmicas. Afinal, está muito evidente em seus últimos filmes, uma postura clássica de narrar, que mesmo assim, não tem inibido a força de suas provocações. É com base nestes, e principalmente Continuar lendo

V Concurso de Roteiros Rucker Vieira

Por Rodrigo Almeida – com informações do edital

Vou começar no esqueminha lead mesmo: a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), através de sua produtora, a Massangana Multimídia Produções da Diretoria de Cultura, em parceria com a TV Brasil, lançará oficialmente durante o Cine-PE, entre 28 de abril e 04 de maio, a chamada para o V Concurso de Roteiros Rucker Vieira. Essa iniciativa irá premiar dois projetos para Documentário de Curta-Metragem Digital, ou seja, para realização de produtos audiovisuais cuja duração encontra-se estimada entre 15 e 26 minutos, sendo impressos e apresentados em formato Mini DV. O Concurso é de âmbito nacional (para pessoas físicas e jurídicas) e, nessa edição, aparece vinculado ao tema “Representação do Nordeste na Produção Artística Contemporânea“. Segundo o Edital, as propostas inscritas devem ser desenvolvidas “mostrando um ou vários exemplos de como artistas e/ou intelectuais brasileiros vêm apresentando o Nordeste em suas obras. O foco dessa representação do Nordeste, necessariamente, deve abordar visões diferenciadas da Região, que escapem dos estereótipos de Nordeste agropastoril e unicamente rural. Buscar-se-á, assim, estimular o mapeamento de visões múltiplas sobre a Região e discutir a emergência de novas “idéias de Nordeste”. Ufa.

Agora começando a intervir diretamente com algumas opiniões: acho Continuar lendo

“Você pediu um ano… O tempo não consta…”



Por Marília Amorim

Minha primeira impressão ao assistir o filme, O Ano Passado em Marienbad”, foi a de estar diante de um livro de contos do realismo-fantástico, ou de uma leitura repleta de jogos de linguagem, de vários paradoxos e antíteses, onde o leitor só encontra um ponto final, quando não se perde nesse labirinto de letras, ou quando encontra a si mesmo em qualquer parte desse labirinto.

Num segundo momento, pensei estar diante de um sonho, do qual reajo estática ao despertar, permanecendo assim por alguns segundos até perceber que estou, de fato, acordada. Recordo algumas imagens e esqueço outras. Depois elas voltam e assim me lanço a esse jogo durante todo o dia. Sem saber sua cronologia, implicação, verdade e lógica. E tudo se perde na minha memória. Até que em um doce momento me encontro com essas imagens perdidas numa esquina, então, me espanto, pois já não sei seelas realmente aconteceram ou se habitam o meu mundo devaneador.

Marienbad” é o limite da lembrança: é a dúvida da realidade, a busca da memória e o labirinto do ser… Ser enquanto submerso no tempo. Tempo enquanto medida para realidade. Ser enquanto habitante do espaço silencioso de suas próprias sensações. Espaço enquanto plano externo das íntimas representações.

O filme foi lançado no ano de 1961, França/Itália, e é uma das Continuar lendo

“… e o resto pode sacudir as jóias”



(Por Rodrigo Almeida)

Mick Jagger queria que Shine a Light fosse gravado durante o show dos Stones em Copacabana. Scorsese achou melhor que não. Caso a sugestão do músico fosse acatada pelo cineasta, a mudança do cenário não seria uma mera troca de última hora, mas um elemento de influência permanente sobre todos os outros elementos, da produção aos traços estéticos. Outro show, outro espírito, outro filme. Essa mudança viria acompanhada de um risco maior, com conseqüências maiores para o bem ou mal do resultado final. Tudo podia dar errado, de fato. Na verdade, nem seria muito complicado que tudo desse errado. É bem simples colocar uma pré-produção monstruosa por água abaixo, quando se tem como objeto uma apresentação para um público ainda mais monstruoso. Em especial no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. Poderíamos ter algo próximo ao show no Hyde Park (1969), todo paz e amor, ou até um novo Gimme Shelter (1970) com mortes e tudo – o que seria uma besteira. Provavelmente Scorsese quis buscar sua própria intimidade com aquela banda e não repetir a visualidade do mega-concerto já tão banalizada nos Stones, apesar de sua obra se focar quase que estritamente naapresentação ao vivo em si. E faz algum sentido: no final da década de 60, pouco antes do show em homenagem ao Brian Jones, Mick Jagger declarou numa entrevista que os Beatles eram realmente bons na realização de discos de estúdio, mas que não se comparavam aos Stones no palco. E não se comparavam mesmo. O ritual é bem diferente e Scorsese não deixa passar os detalhes. Acho engraçado que Shine a Light, enquanto show e não enquanto filme – e há uma grande diferença nisso – compartilha de semelhanças com o Bridges to Babylon (1998). A grande oposição se funda no fato de que há dez anos Continuar lendo

Cinema e experiência: reflexões pessoais a partir de “The pervert’s guide to cinema”



(Por André Antônio)

Há uma cena em A estrada perdida de David Lynch em que, depois de o protagonista inicial, Fred (Bill Pulman), se transformar sem nenhuma explicação no jovem de 24 anos Peter (Balthazar Getty), Patrícia Arquette, a antes morena esposa de Fred, Renee, aparece ao jovem loira, desta vez como Alice, a amante de um perigoso gangster. Ela sai de dentro do Cadillac preto dele na oficina em que Peter trabalha. Uma guitarra intensa é ouvida. Intensa e ao mesmo tempo triste. Ela anda em câmera lenta, os cabelos lindamente balançando. Ela olha pra Peter. O rosto dele é visto em um close muito fechado.

Quando vi A estrada perdida pela primeira vez, a cena (e o filme como um todo, certamente) teve um tremendo impacto sobre mim. O mistério aberto a milhares de interpretações que estrutura o filme inteiro, o clima perturbador, a atmosfera assustadora fizeram com que eu ficasse com as imagens na cabeça durante semanas, baixasse a trilha sonora e a ouvisse compulsivamente. A cena em questão é, em minha opinião, o ápice do filme. É mágica. Na época, o fato de eu não conseguir explicar por que a tornava mais fascinante.

Várias leituras e o interesse pela crítica de cinema – principalmente aquela mais acadêmica – fizeram com que Continuar lendo