Arquivo da tag: David Lynch

O showman e o autor

Por Chico Lacerda

O navio chegou a Fernando de Noronha. O mais gaiato dos passageiros-cinegrafistas exalta as belezas da ilha, as águas, as plantas, as rochas, o céu. “Até a areia é melhor que a de Boa Viagem, ela é comestível! Só não como agora porque não tô com fome”. Corta para um apresentador de terno saindo de trás de pesadas cortinas vermelhas, microfone em punho, para o centro de um palco. Não há som. Após alguns segundos dessa imagem, estamos de volta à praia, onde os passageiros do Pacific continuam a explorar a ilha.

A partir do fim do prólogo e título do filme e até o momento citado acima, Pacific (Brasil, 2009), de Marcelo Pedroso se organiza sob a estrutura rígida da narrativa clássica. Desde o embarque de um grupo de passageiros no aeroporto de Porto Alegre em direção ao Recife, as cenas sucediam-se cronologicamente, os espaços eram investigados de forma organizada, o que se ouvia correspondia ao que se via, ou pelo menos ao fora de campo adjacente.

Após 1 hora de filme, o plano do apresentador no palco é arremessado na tessitura narrativa, esgarçando-a: já tínhamos visto o mesmo plano em uma das noites de festa no navio, e sua repetição quebra o fluxo temporal; não só isso, pois a quebra espacial é igualmente violenta, da externa dia para a interna noite e de volta em alguns segundos; a falta de som acompanhando o plano e sua aparente falta de função narrativa aumentam o estranhamento, quase como se Continuar lendo

Cinema e experiência: reflexões pessoais a partir de “The pervert’s guide to cinema”



(Por André Antônio)

Há uma cena em A estrada perdida de David Lynch em que, depois de o protagonista inicial, Fred (Bill Pulman), se transformar sem nenhuma explicação no jovem de 24 anos Peter (Balthazar Getty), Patrícia Arquette, a antes morena esposa de Fred, Renee, aparece ao jovem loira, desta vez como Alice, a amante de um perigoso gangster. Ela sai de dentro do Cadillac preto dele na oficina em que Peter trabalha. Uma guitarra intensa é ouvida. Intensa e ao mesmo tempo triste. Ela anda em câmera lenta, os cabelos lindamente balançando. Ela olha pra Peter. O rosto dele é visto em um close muito fechado.

Quando vi A estrada perdida pela primeira vez, a cena (e o filme como um todo, certamente) teve um tremendo impacto sobre mim. O mistério aberto a milhares de interpretações que estrutura o filme inteiro, o clima perturbador, a atmosfera assustadora fizeram com que eu ficasse com as imagens na cabeça durante semanas, baixasse a trilha sonora e a ouvisse compulsivamente. A cena em questão é, em minha opinião, o ápice do filme. É mágica. Na época, o fato de eu não conseguir explicar por que a tornava mais fascinante.

Várias leituras e o interesse pela crítica de cinema – principalmente aquela mais acadêmica – fizeram com que Continuar lendo

A Sintaxe da Terra de Dentro



Por André Antônio

Li numa crítica sobre Coração selvagem (Wild at heart, 1990) que David Lynch, seu dietor, tinha “sensibilidade pós-moderna”. Depois de ver o filme, ponderei por algum tempo e concluí que a afirmação deve ser analisada com mais profundidade – pois ela pode querer dizer qualquer coisa, uma vez que o termo “pós-moderno” hoje em dia é usado de maneira muito vaga e despreocupada, atribuído a todo e qualquer fenômeno. Levemos em conta, no entanto, que “pós-modernista” é aquela cultura que se forma para legitimar o novo estágio de evolução do capitalismo (chamado de, dentre outros termos, “capitalismo tardio”), mais ou menos depois dos anos 60. Nessa época, a consciência aguda da institucionalização das vanguardas e o insucesso em fugir da “reciclagem” (transformação em mercadoria) feita pela indústria cultural de movimentos contrários ao “status quo” levam a uma diluição das barreiras entre arte erudita e cultura de massa (uma desistência da “luta estética” das vanguardas e a incorporação, à arte, de estratégias do que se considerava a produção cultural para o divertimento e controle das massas). O pós-modernismo tem como base uma lógica de pensamento que se concretizara com a teoria pós-estruturalista: uma descrença na história, na verdade e uma apologia ao descentramento.

Dentro desse campo de forças culturais, não há apenas uma possibilidade de movimentação para o artista. Por exemplo, a descrição que segue do pós-modernismo pode ser constatada em várias produções Continuar lendo