Arquivo mensal: maio 2008

Joca entrou no buraco

Por Luís Fernando Moura

Em comentário para o site Cinema Escrito, Carlos Reichenbach apontou a compreensão de uma divisão narrativa em Amigos de Risco. Seriam dois momentos de enfoques distintos, tratando dos espaços e dos personagens sob a complexidade de diferentes dimensões. Num primeiro instante, o tom, o ritmo e a profundidade de uma “crônica urbana” imprimiriam as marcas de um espaço “ultra local”, a fim de referenciar cada personagem em um ambiente geográfico (o Recife, a urbe, a periferia), social (classe média baixa), afetivo (a amizade, o companheirismo, a história individual). A progressão dos diálogos e a apresentação destes conflitos “crônicos” revelam uma imersão psicológica – e também sociológica – na busca de palpabilidade para os três personagens: Joca (Irandhir Santos), Nelsão (Paulo Dias) e Benito (Rodrigo Riszla). O apego que se funda a partir de tal construção narrativa é responsável pelo resgate de um universo reconhecível de referências: a periferia das grandes cidades, a violência, a criminalidade e também a relação orgânica entre os companheiros que, a partir de um embate profícuo, infiltram-senas sucessivas crises do roteiro.

Tomo para meu texto, por necessidade, a alusão que Reichenbach faz ao pensamento de Montaigne: “não se consegue o universal senão através do ultra local”. Longe de identificar estereotipismos em Amigos de Risco, revisito esta idéia para pensar em paradoxos formativos, em última instância responsáveis pela sempre iminente competência que Continuar lendo