“… e o resto pode sacudir as jóias”



(Por Rodrigo Almeida)

Mick Jagger queria que Shine a Light fosse gravado durante o show dos Stones em Copacabana. Scorsese achou melhor que não. Caso a sugestão do músico fosse acatada pelo cineasta, a mudança do cenário não seria uma mera troca de última hora, mas um elemento de influência permanente sobre todos os outros elementos, da produção aos traços estéticos. Outro show, outro espírito, outro filme. Essa mudança viria acompanhada de um risco maior, com conseqüências maiores para o bem ou mal do resultado final. Tudo podia dar errado, de fato. Na verdade, nem seria muito complicado que tudo desse errado. É bem simples colocar uma pré-produção monstruosa por água abaixo, quando se tem como objeto uma apresentação para um público ainda mais monstruoso. Em especial no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. Poderíamos ter algo próximo ao show no Hyde Park (1969), todo paz e amor, ou até um novo Gimme Shelter (1970) com mortes e tudo – o que seria uma besteira. Provavelmente Scorsese quis buscar sua própria intimidade com aquela banda e não repetir a visualidade do mega-concerto já tão banalizada nos Stones, apesar de sua obra se focar quase que estritamente naapresentação ao vivo em si. E faz algum sentido: no final da década de 60, pouco antes do show em homenagem ao Brian Jones, Mick Jagger declarou numa entrevista que os Beatles eram realmente bons na realização de discos de estúdio, mas que não se comparavam aos Stones no palco. E não se comparavam mesmo. O ritual é bem diferente e Scorsese não deixa passar os detalhes. Acho engraçado que Shine a Light, enquanto show e não enquanto filme – e há uma grande diferença nisso – compartilha de semelhanças com o Bridges to Babylon (1998). A grande oposição se funda no fato de que há dez anos os Rolling Stones pareciam bem mais velhos.

De qualquer forma Copacabana ficou martelando a minha cuca. Talvez por ter estado lá e visto tudo bem de perto. Como disse, era um risco maior com conseqüências maiores: coloquei minha mochila nas costas, arrumei reservas de última hora, consegui uma promoção limpeza da varig pré-falência, me hospedei num albergue barato e lotado de gringos pirados em Botafogo e passei uma das melhores semanas da minha vida na cidade maravilhosa. Ainda vi o show de perto: valeu a pena chegar dez horas antes do início e ficar torrando no sol, conhecendo pessoas bizarras e bebendo cervejas até de noite. Rock and Roll way of life. Devia ter colocado aqui It’s only Rock’n Roll but I Like It só para não fugir do clichê-mor dos textos sobre os Stones. Voltando para não me perder de vez, não posso deixar de mencionar o comentário geral dos meus amigos: “você podia ter morrido, Rodrigo!”. Super podia mesmo. A minha mãe deve ter tido certeza da minha morte… e olha só, nem morri e foi incrível. A vida passa e as películas ficam e se repetem. Tive a impressão, depois de Copacabana, que é mais fácil (e necessário) estabelecermos uma vida, ou melhor, momentos de vida puramente instintivos. Com filmes, essa lógica nem sempre se mostra possível, afinal existe toda uma estrutura por trás do produto cultural, que o joga numa lógica de acertos pré-programados (e lá vou eu fincar minha baneira aqui e defender a força da inspiração improvisada). Carlos Reichenbach falou sobre isso na sua última vinda ao Recife: falou da improvisação como recurso de superação das dificuldades de ordem financeira na produção de filmes nacionais. É isso. Cinema é uma arte caríssima, realizada apenas em grupo e assim sendo, um teatro em Nova York de médio porte (Beacon Theatre) com convidados educados, modelos cercando o palco, Bill Clinton, Hillary Clinton, Bruce Willis escondido e um ou outro fã de verdade é mil vezes mais comportado, manipulável e certo que um milhão de enlouquecidos de todas as partes do Brasil e da América Latina distribuídos ao longo de uma praia (não podemos esquecer, entretanto, que os documentários registros-de-grandes-festivais como Monterey Pop (1968 ) e Woodstock (1970) claramente também utilizam uma manipulação de imagens para exacerbar a idéia de ‘paz e amor’). Scorsese sabe bem disso e, acredito eu, por excesso de controle na direção não quis se arriscar. O que é uma pena (com todo respeito).

A possibilidade de Copacabana, entretanto, só me martelou antes e depois de assistir ao filme, não durante. Shine a Light começa muito bem. Não há o riff inicial de ‘Satisfaction’, nem fãs histéricas na porta do backstage, nem entrevista com a platéia, mas a dinâmica da própria organização do show, das discordâncias, da maquinaria, dos ensaios, das definições. E não da maneira burocrática como faz o produtor da banda em Gimme Shelter. Há também a organização do documentário sobre o show. Scorsese – que já usou os Stones como trilha em várias de suas obras – revela como ele mesmo, enquanto cineasta, se estrutura diante daquele evento. Isso me conquistou na hora e Copacabana ficou para depois. Até porque Scorsese é um miúdo marrento muito foda: todas as intervenções que quebram com a filmagem do show em si são geniais. Todas. Essas rupturas são compostas basicamente de pequenos trechos de imagens de arquivo dos Stones: a longevidade é um dos temas principais – implícito ou explícito – e o próprio Keith Richards é um PHD vivo nesse assunto. Prefiro não contar cada intervenção, porque enquanto eu estava assistindo ao filme, após cada uma dessas entrevistas antigas eu já ficava esperando a próxima. Não que o show não me interessasse (sempre vai me interessar), mas admito que estava mais ansioso para ver (e talvez nem tanto ouvir) momentos de outras palavras que não as das músicas que conheço tão bem. Sem contar que simplesmente eu adoro ver e ouvir o Martin Scorsese falando e queria vê-lo interagindo com a banda. As primeiras cenas mostram ele puto da vida, porque – mesmo tendo tudo sobre o seu absoluto controle – há um detalhe que ele ainda não sabe: o setlist. E por culpa, exclusiva, de Mick Jagger.

O vocalista está indeciso, faz cera, brinca com o tempo. Scorsese se vira como pode: conta piadas, marca o lugar das câmeras, conversa com a equipe, fica ainda mais irritado. Em alguns momentos, cineasta e músicos trocam algumas palavras e brincadeiras e eu fiquei olhando com respeito para com aqueles homens com tantos anos dedicados às suas respectivas artes. Tantos anos e tanto prazer. Passam as horas e Scorsese continua sem saber o setlist: a cena onde ele explica a importância de conhecer qual seria a primeira música é sensacional, pois ele conta que poderia modificar o objeto / pessoa / gesto que seria filmado inicialmente e que isso teria uma grande relevância para o conjunto da obra (mesmo que com a quantidade de câmeras à sua disposição, imagino que nenhum ângulo tenha sido perdido). E então começa o show – apresentado por Bill Clinton que levou trinta convidados e comenta da quantidade de pessoas que ligaram pedindo convites. O que eu achei bem bizarro: não só a presença em si, mas a intimidade, a conversa, o Bill Clinton todo. Agradeço ao Keith Richards por usar de sua ironia pra montar um novo clima: “Hey Clinton, I’m ‘Bushed’ today!”. Os Stones abrem com Jumpin’ Jack Flash. Eu acertei sentado na minha cadeira: foi a mesma canção que abriram em Copacabana. Caindo no clichê que critiquei inicialmente, ouvir o riff dessa música é de tirar do sério. Não sei o que acontece, mas fico louco na hora, minhas pernas não conseguem ficar paradas – e sinceramente a platéia estava muito morna em Nova York. Esses americanos ricos são uns chatos. Acho que Mick devia ter parafraseado a famosa frase de John Lennon dita numa apresentação dos Beatles com presença da Rainha Mãe e outros nobres ingleses: “O pessoal das galerias dá o compasso batendo palmas e a turma das cadeiras caras pode sacudir as jóias”. Só que no caso dos Stones e da paráfrase, entretanto, não há galerias, ou melhor, a galeria no sentido original seríamos nós, espectadores: eu e minha amiga Sofia, uma família gorda ao lado esquerdo, um casal aos beijos ao direito, um fã e seus amigos não fãs na fileira de trás. E depois daquela última cena, a partir do momento do termino do show até o termino do filme (e aí é possível entender melhor a diferença que estabeleço no começo do texto), eu só podia bater palmas mesmo. E em parte, assumo sem problemas até porque não quero ser imparcial, que estas palmas saem das mãos de um fã fudido: um fã fudido por Scorsese e um fã fudido pelos Stones.

Ps.: Senti falta no filme de – esperando encontrá-las no DVD – Midnight Rambler, Paint It Black e Gimme Shelter, mas dou desconto por eles terem tocado As tears goes by – o que é raro e uma novidade dessa última turnê. E entendi totalmente quando o Mick comenta que tinha vergonha da letra desta música, porque eu também tinha vergonha de escutá-la (ou melhor, de dizer que a escutava). É tão breguinha e eu gosto tanto, meu Deus. No Rio também senti falta de Paint it Black e Gimme Shelter, mas pelo menos tocaram Midnight Rambler com tudo… uma das versões que mais gosto, por sinal. Putz, aquela gaita me mata. E se quiserem fazer alguma ‘burning question‘ à Mick Jagger e Keith Richards, ambos iniciaram um projeto chamado Living Legends, uma iniciativa do youtube no intuito de receberem perguntas de fãs, especialmente as quentes, ao redor do mundo.

* Esse texto é uma versão revisada e ampliada de um post publicado originalmente no meu blog pessoal.

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