Arquivo mensal: agosto 2012

Su Friedrich: Os Laços que Unem (EUA, 1985), Afunde ou Nade (EUA, 1990), Regras da Estrada (EUA, 1993)

Neste sábado, dia 25 de agosto, o Cineclube Dissenso exibe dois médias e um curta-metragem da diretora americana Su Friedrich, numa parceria com o Fórum LGBT de Pernambuco, em ocasião do Dia da Visibilidade Lésbica.

Localizada dentro do que se convencionou chamar Cinema Lésbico Independente Americano, Friedrich, junto com nomes como Barbara Hammer, Jan Oxenberg e Sadie Benning, investigou, ao longo dos anos 70, 80 e 90, novas formas de representação, em busca de uma alternativa aos modelos patriarcais que interditavam a possibilidade de identificação e agência aos personagens femininos, tornando-os meramente objetos do desejo voyeurístico para o olhar dos personagens/espectadores masculinos, conforme descrito por Laura Mulvey.

Os três filmes de Friedrich que exibimos filiam-se à corrente de documentários de auto-ficção. São relatos memorialistas, pessoais, onde a narração confessional é o fio condutor das tramas. O primeiro, “Os Laços que Unem”, dá voz às memórias da mãe da diretora, alemã que viveu toda a ascensão nazista que culminou na Segunda Guerra Mundial, antes de fugir para os EUA. É na tensão entre a consciência da luta que, de alguma forma, empreendeu contra o regime e a culpa por fazer parte da nação que gerou-o que o filme equilibra-se.

O segundo, “Afunde ou Nade”, centra-se na relação conflituosa entre a diretora e seu pai. Utiliza-se de um relato que mistura lembranças, mitos e fantasias de sua infância e adolescência para dar corpo aos sentimentos contraditórios e mapear as marcas e cicatrizes que o vínculo entre eles foi deixando ao longo do tempo.

Por fim, “Regras da Estrada” foca seu relato no automóvel que entra na vida da diretora e de sua parceira em determinado momento. Mudando rotinas e propondo a revisão de conceitos e valores, o automóvel-narrador, símbolo de um modo de vida burguês, irá catalisar e refletir as várias fases do relacionamento delas, materializando as memórias e experiências “da mesma forma que os assentos de tecido marrom impregnaram-se com o cheiro de fumaça de todos os cigarros que fumamos.”

A atenção dada a narração em off, nos três filmes, parece subordinar as imagens à voz, num descentramento da percepção primordial para a lógica patriarcal – a visão – conforme defende Donna Haraway, em seus estudos sobre o desenvolvimento das artes visuais e da geografia. Ainda assim, as imagens dos filmes – uma mistura de home movies da família, imagens documentais e referências à cultura visual ocidental – adquirem certa autonomia ao não somente ilustrarem as palavras. Elas criam, na verdade, uma variedade de relações: acentuando ou removendo o peso do que é dito, propondo novos sentidos, denunciando as intenções ocultas ou inconscientes por trás da narração e até entrando em confronto direto com ela, numa rica trama de imagens e vozes.

SERVIÇO

Su Friedrich:
– Os Laços que Unem (EUA, 1985)
– Afunde ou Nade (EUA, 1990)
– Regras da Estrada (EUA, 1993)
Sábado, 25 de agosto de 2012, às 13h45, com debate após a sessão
Cinema da Fundação
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609

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A Fortaleza Infernal (Michael Mann, Inglaterra, 1983)

Por Osvaldo Neto

Na sessão deste próximo sábado, 11 de agosto, às 14:30h, o Cineclube Dissenso exibirá A FORTALEZA INFERNAL (The Keep, 1983). Vagamente adaptado do best seller de F. Paul Wilson, o segundo longa de Michael Mann para as telas de cinema foi a única incursão do diretor no universo dos gêneros fantásticos. Trata-se de um daqueles títulos que foram um fracasso de público e crítica na ocasião de seu lançamento e que agora desfrutam de uma melhor compreensão graças ao valor que fãs e estudiosos deram a ele com o passar dos anos.

O livro de Wilson é uma história gótica de horror ambientada na Romênia de 1941, durante a 2a. Guerra Mundial. Mann queria mais do que apenas contar uma história de horror, ele também tentou fazer de A FORTALEZA INFERNAL um conto de fadas para adultos e não poupou o seu filme de sequências surrealistas. Ele vinha de um longa completamente urbano chamado PROFISSÃO LADRÃO (Thief, 1981), uma obra-prima que não apenas traria todos os elementos a serem trabalhados pelo diretor em seus futuros filmes policiais, mas também o seu forte apuro visual e o interesse em buscar a humanidade de seus personagens. De certa forma, apesar da completa diferença de gêneros e cenário, A FORTALEZA INFERNAL progride com o interesse do diretor no comportamento destes personagens, agora em sua maioria, um grupo de nazistas que acidentalmente libera uma maligna entidade sobrenatural da Fortaleza do título.
Outros achados do longa são o elenco, composto não por “nomes”, mas por excelentes atores como Scott Glenn, Jürgen Prochnow, Gabriel Byrne, Ian McKellen e Robert Prosky; o forte visual da produção, carregada de expressionismo e claro, a inesquecível trilha sonora do grupo alemão Tangerine Dream. O grande porém é que a Paramount – estúdio por trás do filme – não teve interesse em investir mais dinheiro para a finalização do projeto. Eles rejeitaram o primeiro corte de Mann com três horas de duração, que depois seriam reduzidas para pouco mais de 90 minutos incluindo os créditos. Sem falar dos problemas com efeitos visuais que deveriam ser resolvidos pela equipe sem a ajuda do supervisor Wally Veevers, uma lenda do ofício que faleceria duas semanas após o início da pós-produção. Por isso não é nenhuma surpresa que o próprio Michael Mann hoje renegue esse trabalho e o resultado final seja um tanto bagunçado, mas as visíveis falhas não diminuem o impacto e o fascínio que este esquecido filme poderá despertar no espectador do cineclube. São experiências cinematográficas como A FORTALEZA INFERNAL que fazem este seu modesto escriba pensar que o Cinema seria um belo amigo da imperfeição.
SERVIÇO
Cineclube Dissenso
A Fortaleza Infernal (Michael Mann, Inglaterra, 1983)
Sábado, 11 de agosto de 2012, às 14h30, com debate após a sessão
Cinema da Fundação
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609