Arquivo mensal: abril 2010

Por um pouco de ausência

ENTREVISTA: PAULA GAITÁN

Por Luís Fernando Moura

No início do ano, a artista plástica e cineasta Paula Gaitán esteve no Recife para exibir Diário de Sintra, seu longa-metragem mais recente. Tive a oportunidade de conversar com ela por telefone, de onde saiu entrevista publicada no Jornal do Commercio. Aproveitando a sardinha – Paula é de uma simpatia elegante – fiz-lhe o convite para indicar um filme e exibir no Dissenso. Ela resolveu trazer dois – Vida (2007), seu longa anterior, e o curta Kogi (2009) –, mas foi embora no dia anterior à projeção. Uma pena, fui o culpado da sessão ser um fiasco inglês e atrasar horrores, sequer apareci.

Por conta do horário tardio, os amigos terminaram exibindo apenas Vida, que não foi lá exatamente um exemplo de boa recepção. Diário de Sintra, porém, volta à minha memória como um filme a ser redescoberto, de uma dedicação meticulosa à intimidade. O trabalho é uma joia estranha e irregular que gerou um livro de reflexões (edição da Confraria do Vento) organizado pelo crítico Rodrigo de Oliveira, onde há textos de Walter Salles, Cléber Eduardo, entre outros, além de uma longa entrevista com Paula.

Cinéfilos costumam procurar o filme pelo ensejo do cânone, já que ele resgata imagens de família feitas durante os últimos anos de vida de Glauber Rocha, então marido da cineasta. À época, 1981, Paula era uma estudante de artes visuais, os dois vivendo auto-exílio na cidade portuguesa de Sintra, dois filhos. Mais que homenagem em terceira pessoa, esperado lugar comum da viúva, Diário de Sintra é busca de Paula pelos silêncios de memória afetiva que parece se retroalimentar quando volta àquelas terras, já em 2007, e persegue a si mesma. Abaixo, nossa conversa resgatada do jornal, adaptada e sutilmente ampliada. Uma emersão, no mínimo, compensatória, em que Paula comenta o filme, revisão biográfica, e se mostra animada com cinemas que margeiam a indústria brasileira. Continuar lendo

Radical Chic

Por Pedro Neves

Ao glamour da violência revolucionária,
ao anseio secreto que ela evoca na mais dócil das almas…

Don DeLillo, Players

“A beleza está na rua”, diziam os cartazes e muros pichados de Paris em maio de 1968. As revoltas e greves ocorridas naquele mês na capital da França entraram para a história e para a mitologia pop como o ponto máximo de uma revolução que mudou o mundo. Os eventos de maio são em geral considerados um fracasso político, com a violência evaporando rapidamente, os operários voltando para o trabalho e o Partido de De Gaulle liderando com força redobrada as eleições seguintes. Mas os ideais libertários da juventude, maturados durante toda década e ecoados em diversas partes do mundo, tomaram o centro do palco e derrubaram – pelo menos em teoria – as tradições conservadoras da velha guarda.

O que torna o maio de 68 tão icônico é justamente a participação dos jovens nas revoltas. As imagens mais reproduzidas desse mítico mês são de estudantes na rua, fazendo barricadas, jogando coquetéis molotov, lutando contra a polícia. E essas imagens são reproduzidas principalmente pelo cinema. O cinema apropriou-se do maio, porque de alguma forma ele foi parcialmente responsável por sua eclosão. Reza a lenda que as revoltas começaram com a tentativa de demissão de Henri Langlois, co-fundador e diretor da Cinemateca Francesa, por iniciativa de André Malraux, Ministro da Cultura. Talvez mais importante seja notar que os anseios e insatisfações da juventude e seus novos valores estavam intimamente ligados à Nouvelle Vague, o movimento que abalou o cinema clássico francês.

Jovens, irreverentes e iconoclastas, os diretores da Nova Onda reivindicavam outra forma de fazer cinema, mais livre das convenções clássicas, das fórmulas do bom gosto, da caretice. Aproveitando o recente desenvolvimento de câmeras menores e mais leves, tiraram o cinema da segurança do estúdio e Continuar lendo

O showman e o autor

Por Chico Lacerda

O navio chegou a Fernando de Noronha. O mais gaiato dos passageiros-cinegrafistas exalta as belezas da ilha, as águas, as plantas, as rochas, o céu. “Até a areia é melhor que a de Boa Viagem, ela é comestível! Só não como agora porque não tô com fome”. Corta para um apresentador de terno saindo de trás de pesadas cortinas vermelhas, microfone em punho, para o centro de um palco. Não há som. Após alguns segundos dessa imagem, estamos de volta à praia, onde os passageiros do Pacific continuam a explorar a ilha.

A partir do fim do prólogo e título do filme e até o momento citado acima, Pacific (Brasil, 2009), de Marcelo Pedroso se organiza sob a estrutura rígida da narrativa clássica. Desde o embarque de um grupo de passageiros no aeroporto de Porto Alegre em direção ao Recife, as cenas sucediam-se cronologicamente, os espaços eram investigados de forma organizada, o que se ouvia correspondia ao que se via, ou pelo menos ao fora de campo adjacente.

Após 1 hora de filme, o plano do apresentador no palco é arremessado na tessitura narrativa, esgarçando-a: já tínhamos visto o mesmo plano em uma das noites de festa no navio, e sua repetição quebra o fluxo temporal; não só isso, pois a quebra espacial é igualmente violenta, da externa dia para a interna noite e de volta em alguns segundos; a falta de som acompanhando o plano e sua aparente falta de função narrativa aumentam o estranhamento, quase como se Continuar lendo

O Mundo Visível

Por Fernando Mendonça

[…] eu sei que para mim, para quem as flores fazem parte do desejo, há lágrimas à espera nas pétalas de uma rosa. Sempre me aconteceu a mesma coisa, desde a infância. Não há uma única cor escondida no cálice de uma flor, ou na curva de uma concha, à qual, por alguma sutil simpatia com a alma das coisas, a minha natureza não responda. Como Gautier, sempre fui um daqueles pour qui le monde visible existe”.

Para quem o mundo visível existe.

Recordar as palavras que Oscar Wilde dedicou ao amante enquanto estava preso e impossibilitado tanto de manter contato com sua família, sua arte e o mundo, é aproximar-se do espírito que Eugène Green captura em seu mundo particular e nos apresenta neste, O Mundo Vivente (França / Bélgica, 2003), um dos filmes mais fantásticos já feitos, onde o registro do fantástico, verdadeiramente extraordinário, adquire significados que ultrapassam o tom da fábula em privilégio primeiramente ao mecanismo cinematográfico, naturalmente dotado e voltado para a capacidade de instaurar a fantasia. Mecanismo que, aqui, revela-se em suas possibilidades mais profundas, ao mesmo tempo distintas e indiscerníveis ao Continuar lendo