Arquivo mensal: novembro 2011

Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (Espanha, 1980), de Pedro Almodóvar

Por Mariana Lins

A experiência cinematográfica ganha novos nuances nas mãos de Pedro Almodóvar, um diretor que prima pela ousadia e consegue levar à grande tela os desejos mais reprimidos e, ao mesmo tempo, corriqueiros do homem moderno. Em seu segundo longa, Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (1980) que o Cineclube Dissenso exibe no próximo sábado (26/11), às 14h, no Cinema da Fundação, o espanhol reúne no roteiro todos os elementos que o envolviam e influenciavam na época.

Recém-saída da ditadura franquista, a Espanha vivia o ápice da efervescência cultural no que ficou marcado como a movida madrileña. Naquele momento, artistas de todas as vertentes exprimiam, por meio de suas obras, a liberdade surrupiada pelos longos anos de totalitarismo. Almodóvar estava exatamente no olho do furacão, realizando curtas e um longa em Super 8 e criando histórias mirabolantes, influenciado pelos quadrinhos e por toda a cultura pop que, aos poucos, penetrava o mundo underground da capital espanhola.

Encorajado pela atriz Carmen Maura, amiga e principal entusiasta de seu trabalho, que viria a ser musa de seus próximos filmes, ele abandona o Super 8 e filma Pepi, Luci, Bom… em 16 mm. O orçamento mais do que limitado faz com que a película leve um ano e meio para ficar pronta, já que as câmeras emprestadas só eram liberadas à noite e nos finais de semana. Mesmo com os percalços, o longa foi o passaporte que Almodóvar precisava para conquistar espaço no meio cinematográfico espanhol.

O filme se passa no subúrbio de Madri, mais precisamente em um conjunto residencial popular onde vivem as jovens Pepi (Carmen Maura), Luci (Eva Silva) e Bom (Alaska). Pepi vive sozinha, bancada pelos pais, criando artimanhas para descolar uma grana aqui e ali. Certo dia, o vizinho policial resolve fazer diligências na casa dela e acaba encontrando uma plantação de maconha em pequenos vasos. A moça seduz o investigador, para aliviar sua barra com a polícia, mas avisa que o sexo só poderá ser anal, já que estava negociando sua virgindade por dinheiro.

Pepi é violentada pelo policial e passa tê-lo como inimigo número um, o que faz com que ela e a amiga Bom passem a maior parte do tempo planejando como se vingar do homem. Coincidentemente, elas ficam amigas de Luci, esposa pudica e sadomasoquista do policial, com quem vivem o período mais maluco de suas vidas. Juntas, elas se drogam, frequentam festas, inferninhos e experimentam de tudo no submundo madrileño.

Almodóvar já delineia, a partir deste filme de início de carreira, traços que o acompanharão pelo resto de sua filmografia, como as cores fortes, as personagens pitorescas e o forte papel da trilha sonora na película. Três décadas depois, Pepi, Luci, Bom é considerado o item mais cult (e raro) da filmografia do diretor espanhol.

Após a sessão, debate na sala Edmundo Moraes.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Pepi Luci Bom e outras garotas de montão (Espanha, 1980), de Pedro Almodóvar
Sábado, 26 de novembro de 2011
Cinema da Fundação, às 14h
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

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Lições da Escuridão (França/Reino Unido/Alemanha, 1992), de Werner Herzog

Por Ranieri Brandão

“Aonde se inscrevem estas imagens?” Em 1992, a câmera de Werner Herzog sobrevoava as planícies desérticas do Kuwait pós-Guerra do Golfo, queimadas pelo fogo, banhadas pelo petróleo, e por muito tempo mantidas por uma hipnotizante ausência de figuras humanas. No primeiro momento de exposição, temos que nos perguntar exatamente sobre qual a natureza dessas imagens e se aquilo que a voz off conta por sobre elas corresponde a uma ficção científica improvável (mas possível, possibilitada pelos contornos fantásticos e selvagens das matérias captadas) ou à documentação de algo que, de tão absurdo, só poderia se dar à câmera e ao cinema como objeto ficcional. O que Lições da Escuridão – que o Cineclube Dissenso exibe nesse sábado (19/11) no Cinema da Fundação, excepcionalmente às 15h –  parece tocar é a estrutura fundamental do cinema de Herzog em particular e do cinema como um todo: o dar às imagens na tela uma outra vida que, paralela àquilo que tais imagens representam por serem fruto da captura de coisas perfeitamente filmáveis, é então revista de forma alienígena, ressignificada, re(pro)posta e reapresentada.

Quando a câmera de Herzog plana sobre o cenário devastado, aparentemente abandonado e morto, sua visão e a consequente voz off impõem àquele mundo a linguagem espetacular que o faz ser representado como parte de um planeta desconhecido, como um passo da humanidade em direção à colonização espacial (e não faltam imagens de homens trabalhando, imagens que parecem atestar esse domínio, esse trabalho da loucura em espaços desconhecidos). É preciso, então, proceder à nomeação, à criação da História e cultura desse mundo, seu início (os primeiros contatos que se estabelecem com os “seres” que habitam tal mundo) e seu fim (a história de uma guerra, os restos de ferramentas e estruturas arquitetônicas). “Dar histórias”, esse procedimento infantil, muitas vezes é renomear coisas e espaços como crianças renomeiam e dão novas funções a seus brinquedos, é percorrer o mesmo caminho a partir de um outro olhar. O que a Guerra do Golfo proporcionou, o trauma e a profunda cicatriz naquele espaço irreconhecível que se desligou da geologia terrestre para ser um planeta particular dentro do nosso, para Herzog não foi outra coisa senão a impossibilidade de encontrar um ponto de vista definitivo para se posicionar e tratar aquelas imagens. Daí, a transitoriedade entre o documentário como ficção, e a ficção como um modo de enxergar e mediar a verdade daquilo que se documenta e se retém.

E daí também os efeitos fatais da experiência: como se aquele mundo estivesse encurralado por dois espelhos, pode-se ter uma ideia dos discursos originais provenientes das imagens originais sem a voz off que as transtornam (mas que as mantém “sãs”, contando ainda as mesmas histórias de tragédia e de inferno), porque Herzog costura verdades documentais (uma mulher que “tinha alguma coisa para nos dizer [mesmo tendo perdido a voz]”; a mulher que teve o filho pequeno agredido por soldados e que também perdeu a voz – a fala, esse fator tão importante neste cinema) com as verdades daquilo que ele insiste em transformar em ficção e em planície de outro planeta.

Afinal, a “lição” de Lições da Escuridão parece ser a do disfarce, o infinito jogo de uma verdade que perpassa aquele espaço e que não morre, pois a verdade “de ficção” que Herzog deposita sobre esse lugar isolado pelo fogo e o desespero coloca em xeque todo o sistema de representação, o que parece ser algo extremamente de acordo com aquilo que o espaço filmado se tornou. Porque afinal parece ser muito difícil estabelecer se é mesmo o óleo que se disfarça de água, ou se a água é quem é disfarçada, pela voz do narrador, de óleo que se disfarça de água. Problemas da ficção e do Real.

A sessão contará com a presença de Ranieri Brandão, crítico de cinema e editor do site Filmologia, que participará de um debate com o público, após o filme, na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Lições da Escuridão (França/Reino Unido/Alemanha, 1992), de Werner Herzog
Sábado, 19 de novembro de 2011
Cinema da Fundação, 15h (em horário excepcional)
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita