Arquivo mensal: dezembro 2007

Editorial – Dissenso



Por Rodrigo Almeida

Tentarei ser o mais breve possível: é difícil explicar as pretensões de qualquer novo projeto sem cair num conjunto de palavras repetidas ou explicações óbvias que, se usadas equivocadamente aqui, podem vir a criar certo impasse ou um paradoxo diante dessa idéia de ‘novo’. De fato, preciso dizer que nem tudo começa agora, afinal não sou presunçoso o suficiente para descartar todo legado crítico anterior em favor dos modismos discursivos. Entretanto, sempre acreditei ser mais interessante esperarmos que cada um tire suas próprias conclusões sobre um objeto a ser refletido, para que, então, pudéssemos confrontar uma série de idéias, opiniões e repertórios. De qualquer forma, essas palavras previamente escritas não vão retirar o livre-arbítrio de ninguém, nem menosprezar a proposta em si: a reflexão pela reflexão se estabelece desde já e não só pelo recorrente tom de provocação. Essa página pretende se firmar como um espaço de debate sincero entre cinéfilos, constituindo uma espécie de amizade intelectual entre eles, a partir da publicação de escritos sobre cinema não determinados ou delimitados pelo gênero da crítica ou do ensaio, mas que possam flertar com crônicas, ficções, com a linguagem da internet e outros desvios, desde que compartilhem de um estilo literário individual e de uma capacidade reflexiva e imaginativa densa. Estamos aqui para pensar na possibilidade do escritor – e não sei se deveria usar jornalista nesse caso – assumir um estilo particular ao escrever, provocando seu leitor através de pequenos chistes ou jogos de palavras, mas sempre fugindo dos desvios repressivos, sem se Continuar lendo

Coexistência e Transmutação: Resnais, Tarkovski.



Por Rodrigo Almeida

Não há dúvida de que poderia escrever (e não só eu) um ensaio inteiro, apenas sobre os travellings paralelos em O Ano Passado em Marienbad (França / Itália, 1961), de Alain Resnais (e Alain-Robbe Grillet?), onde o movimento corta o movimento, onde a câmera percorre um espaço imutável, isolado (que pode ser em Marienbad, Baden-Salsa, Frederiksbad), entre corredores, salões, portas e corredores, capturando a coexistência de diferentes tempos, sonhos, memórias, projeções e delírios. Mas, sinceramente, depois do ensaio anterior, falar simplesmente sobre travellings se tornaria um tanto repetitivo. Ainda que aqui exista um diferencial muito claro: a câmera se move não apenas de um cômodo para outro, mas o faz, num mesmo plano-sequência, a partir do espaço-momento suspenso de onde o narrador X descreve o ambiente, ações, gestos e encontros diretamente para suas lembranças (ou lembranças-falsas); para seus sonhos (ou sonhos-inventados); para estados mentais ou desejos encobertos e revelados. E durante esse movimento vagaroso, esse mesmo narrador se encontra enquanto personagem X (ou enquanto narrador) dentro de sua própria história, direcionando suas palavras de maneira persuasiva para sua ouvinte/amante A (ela nega, confirma, hesita), reflexiva para si mesmo e assertiva para o espectador. Quando não inverte e mistura todas essas enunciações – o que torna tudo deliciosamente mais ambíguo.

Há uma síntese – numa descontinuidade aparentemente ilógica – onde todas essas formas de contar um encontro passado (ou um encontro passado fictício, projetado) se unem sob a efígie de uma única realidade. E claro que falar em realidade (a maioria falaria numa não-realidade) pode parecer uma contradição diante da experiência da obra Continuar lendo

00 ou 10? 20 ou 30? 40 ou 50? 60 ou 70? 80? 90 ou 00?

Por Rodrigo Almeida

I

Não há inutilidade mais divertida do que os pequenos jogos espontâneos, mesmo os esquizofrênicos acordados entre as pessoas e o destino: ‘volto para casa se aquele carro branco dobrar à esquerda, vou ao cinema se um cisne cair em cima dele’. Alguns esperam pacientemente pelas penas brancas, outros, menos preocupados, participam de brincadeiras mais refinadas. Trata-se quase de uma aposta criativa (e, felizmente, nem tudo se torna irrelevante). Há uns cinco/seis anos propus uma dessas brincadeiras espontâneas a mim mesmo, quando decidi entrar em contato constante com alguns filmes, todos pegos numa locadora perto da universidade (Edit: só pra nomear, Fox Vídeo). Não à toa: havia promoções e pacotes para VHS – 5 fitas, 5 dias, 5 reais, pois o dono do estabelecimento tinha de fazer aqueles produtos renderem o máximo antes de vendê-los, por conta da iminente consolidação do mercado de DVD (mídia que nessa época já deixava de lado o furor de novidade, sendo largamente popularizada no Brasil em 2002/2003). Assisti muitos filmes em VHS durante toda essa época de transição: nenhum lançamento (os lançamentos deixava pra pegar em DVD caso já não tivesse visto no cinema). Foi então que iniciei o maldito jogo adolescente: a partir de filmes aleatórios do qual nada sabia, tinha de descobrir a década e se possível o ano de cada produção. Não valia ler sinopse, críticas, nada – tinha de decifrar apenas pela obra em si e alugá-la simplesmente pela capa. Para facilitar geralmente pegava 5 filmes que estavam dispostos sequencialmente na Continuar lendo