Arquivo mensal: setembro 2011

Um Canto de Amor (França, 1950) + A Consequência (Alemanha, 1977), de Wolfgang Petersen

Por Rodrigo Almeida

Quando estamos inseridos no meio e presenciamos alguns cinéfilos defenderem a ferro e fogo suas paixões subterrâneas, nos vemos diante de um itinerário recorrente e notado pelo ex-Cahiers du Cinéma Antoine de Baecque, onde se ressaltam e valorizam artistas menosprezados ou absolutamente invisíveis, para então sermos apresentados ao mesmo nome uma dúzia de vezes, a cada encontro, até nos darmos conta de certo burburinho na crítica especializada. Logo as revistas se apoderam da criatura e suas crias, programações alternativas são montadas por debaixo dos panos em longínquos escaninhos até o próprio cineasta ser contactado ou reconhecido em um grande festival (leia-se Cannes) e ganhe o prêmio máximo e mais anacrônico do século: o de ser um grande e maravilhoso autor.

Foi pensando inicialmente nisso, buscando inclusive alfinetar seus próprios vícios curatoriais da busca do autor, que o Cineclube Dissenso montou uma sessão especial no próximo sábado, às 14h, no Cinema da Fundação com o curta Um Canto de Amor (França, 1950), única produção cinematográfica dirigida pelo escritor / dramaturgo Jean Genet, seguido do longa A Consequência (Alemanha, 1977), de Wolfgang Petersen. Se o primeiro poderia seguir tranquilamente o itinerário anterior, o de estarmos resgatando um emblema único e esquecido, o segunda artista é responsável por uma série de obras que certamente estão entre as proibidas nos campos elísios dos cinéfilos, tais quais Mar em Fúria, Tróia e Poseidon (a refilmagem). Portanto, aqui não cabe traçar uma trajetória ou juízo de valor seguindo uma lógica velha e tão precária.

No entanto, os filmes foram escolhidos também por se encararem nos olhos, com os reflexos inundados de desejo, por meio da impecável fotografia em preto e branco e, especialmente, pela dupla capacidade de romperem as fronteiras de uma prisão: as fantasias sexuais e as memórias do corpo são mobilizadas em instâncias de criação e transgressão. Há em ambas produções um espírito libertário que atravessa fendas nas paredes, fechaduras, transpõe guardas noturnas, cadeados, assume forma de fumaças passadas boca a boca, de falos eretos, peitos ossudos e suados, não tomando conhecimento das restrições da gaiola. Só que nas narrativas em questão, o perigo não ronda apenas a gaiola e as cicatrizes se acumulam num universo físico, material e mental fora dela.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Um Canto de Amor (França, 1950), de Jean Genet
A Consequência (Alemanha, 1977), de Wolfgang Petersen
Sábado, 17 de setembro de 2011
Cinema da Fundação, 14h
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

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Silvia Prieto (Argentina, 1999), de Martín Rejtman

Por Fábio Ramalho

Nos três longas-metragens que podem ser apontados como centrais para a filmografia do cineasta argentino Martín Rejtman – Rapado (1992), Silvia Prieto (1999) e Los guantes mágicos (2003) – há em comum o interesse por sensibilidades que se delineiam a partir de certos recortes geracionais: a adolescência, a crise iminente dos trinta anos, a proximidade dos quarenta. Dentre eles, Silvia Prieto, que o Cineclube Dissenso exibe no próximo sábado (10), às 14h, no Cinema da Fundação, é não apenas o filme que demarca com maior radicalidade o momento em que desponta um novo cinema argentino nos anos noventa, mas também aquele que, articulando humor nonsense e uma maneira de olhar as banalidades cotidianas e os espaços da cidade – aqui, notadamente, a capital argentina –, traça um caminho muito peculiar dentre as vertentes realistas predominantes no cinema latino-americano contemporâneo. Como disse Gonzalo Aguilar, o cinema de Rejtman é aquele que dá corpo ao sentimento que assola personagens que, com o advento de certa idade, descobrem que são sempre “menos do que pensavam que iriam ser”. Daí a resolução inicial de mudar de vida – movimento que desencadeia o relato – e daí também o crescente despojamento empreendido pela Silvia Prieto interpretada por Rosario Bléfari.

A mobilidade dos personagens, no que diz respeito às formas possíveis de estabelecer aproximações, sugere algo como uma capacidade de aderir ao entorno e vincular a esse contato circunstancial as suas determinações pessoais, profissionais e amorosas – sempre estabelecidas em curto prazo, inconsistentes, mesmo quando implicam projetos que se pretendem de absoluta transformação. A instituição de tais dinâmicas encontra reforço na circulação constante de valores e objetos que em inúmeros momentos se sobrepõe como elemento organizador da experiência, determinando a direção e o ritmo dos acontecimentos, orientando o registro. E não apenas objetos, mas também as pessoas circulam, são intercambiáveis: os casais, os empregados (e seus uniformes), os moradores que dividem um quarto, os presos. Constituem-se pequenas ordens instáveis, sempre desfeitas pela instauração de uma nova ordem provisória, contingente.

O estabelecimento de tais circuitos atende, assim, a uma serialidade na qual, de um jeito ou de outro, todos os elementos do filme terminam por inserir-se. Tudo se desdobra, duplica-se e se multiplica em uma série de recorrências, retornos, reiterações que os personagens reforçam pela assimilação do cálculo e da quantificação como meios para organizar um mundo. Conta-se, no duplo sentido do termo – o da quantificação e o do relato – como se estes fossem sentidos indissociáveis e complementares. Há uma preocupação obsessiva com o cálculo como garantia de inteligibilidade – apego que alude, talvez, ao desejo de fixação de um sentido evanescente pela sua reordenação a partir de uma lógica muito própria; pelo requinte extravagante de eleger o detalhe como critério para apreensão da experiência.

Tais conexões e associações aleatórias expõem, também, o caráter convencionado que em maior ou menor grau sustenta todas as identidades. A exacerbação desse aspecto vem sobretudo pela questão do nome como um traço que é ao mesmo tempo marca pessoal e denominação arbitrária. De fato, se a afirmação de si pode se dar pelo nome como enunciação de um “eu sou…”, aqui ele perde o seu suposto traço distintivo pela constatação de que existem outras denominações idênticas. Aniquila-se, desse modo, a exclusividade que atestaria uma existência singular. O caráter ambivalente do nome se desdobra na reação de Silvia Prieto (Bléfari) à descoberta de que ela possui uma homônima (Mirtha Busnelli) vivendo em Buenos Aires. A reação a esse fato tem algo de despropositado, banal e irreverente, como todo o resto. Marca de um cinema que não se leva a sério: colocando em cena uma crise, presta-se ao cuidado de contornar qualquer tom de gravidade ou pretensão de transparência.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Silvia Prieto (Argentina, 1999), de Martín Rejtman
Sábado, 10 de setembro de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby
Entrada Gratuita

Fantasma (Argentina, 2006), de Lisandro Alonso

Por Fernando Mendonça

O esvaziar da tela, o apagar da luz, mecânicas de uma encenação cega, ofuscada pela ausência sofrida por um tempo que não mais deseja, mas lateja, uma fina teia de matéria. Fazer um filme, para Lisandro Alonso, é lapidar um espaço-dimensão, torná-lo concreto, ainda que de maneira agonizante ou moribunda. Da crueza que se concentra nos poucos títulos que o tornaram um expoente do jovem cinema argentino, seu filme Fantasma, a ser exibido este sábado (03/09) pelo Cineclube Dissenso, no Cinema da Fundação, é dos que mais terrivelmente atestam uma fragilidade particular ao ente cinematográfico, seja pelo exorcismo narrativo, como pelo perecível estado do que é físico e consequentemente filmável.

Da sinopse, temos um homem solitário que, numa sala de cinema, assiste a si próprio na tela. Este homem é Argentino Vargas, cidadão argentino, presença protagonista da película antecessora de Alonso: Os Mortos (2004). Mesmo filme exibido no cinema de Fantasma, exatamente na sala do Teatro San Martín, único lugar onde Os Mortos fora realmente projetado quando de seu lançamento em Buenos Aires.

Se as fraquezas do espaço finalmente se revelam no cinema de Alonso, isso acontece porque o espaço de seu interesse volta-se justamente para um lugar de lugares: a sala de cinema. Já não cabem os jogos de ficcionalização recorridos em seus filmes anteriores se agora é o próprio olhar ficcional o ser narrado, despido, abandonado pela ética do pseudo-documental. Fantasma é sim uma farsa, mas também é registro de fatos. Labirinto de corpos impossíveis e estranhos, perversidade do movimento. Nele, Alonso reintegra todos os elementos de sua trajetória (Misael Saavedra, protagonista de A Liberdade – 2001, também atravessa o cinema de Fantasma) concluindo não só o que ficou considerado uma trilogia particular, mas encerrando um posicionamento diante da imagem, de sua exibição, do tempo que decorre entre uma e outra, e que permanece.

Para registro, Fantasma se assume enquanto eco de outro filme-monumento sobre a sala cinematográfica: Adeus, Dragon Inn (Tsai Ming-Liang, 2003), também exibido pelo Cineclube. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Fantasma (Argentina, 2006), de Lisandro Alonso
Sábado, 03 de setembro de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby