Arquivo mensal: junho 2012

Level five (1997), de Chris Marker

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Neste sábado (9), às 14h, o Cineclube Dissenso propõe uma sessão que dialoga com o projeto Política da Arte, da Fundação Joaquim Nabuco. Enquanto a Galeria Vicente do Rego Monteiro exibe (a partir desta quarta, dia 6), a série “O legado da coruja” (1989), de Chris Marker, o Dissenso projeta “Level five”, longa de 1997 de Marker – nome frequente no cineclube, que já exibiu dele “Um dia na vida de Andrei Arsenevitch” (2000) e “Le tombeau d’Alexandre” (1992).

“Level five” traz Catherine Belkhodja no papel de Laura, a programadora de computador que precisa finalizar um jogo de estratégia iniciado por seu falecido ex-amante. Suas dificuldades se concentram no nível cinco do jogo, a histórica Batalha de Okinawa. Esta foi uma das mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial: após o combate com as tropas americanas, sem alimentos e abandonados pelo governo, o Exército Imperial japonês induziu a população local ao suicídio coletivo como alternativa à rendição.

Já foi dito que “Level five” é, em determinada medida, a refilmagem de “Hiroshima mon amour” na era do computador. O casal de amantes foi substituído por um casal singular: o computador e uma mulher que, por meio dele, dialoga com o amante desaparecido. Marker traz à tona a memória da Segunda Guerra através das possibilidades da imagem virtual e digital, não para dar uma explicação definitiva e fechada aos fatos ocorridos no passado, mas para fazer o que Marker faz melhor: instaurar a crise, voltar incessantemente a uma imagem, congela-la para enxergar nela algum detalhe essencial que passou despercebido e afirmar a heterogeneidade irredutível das visibilidades e temporalidades do mundo.

Após o filme, debate na mesma sala da sessão, a João Cardoso Ayres.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Level five (França, 1997) de Chris Marker
Sábado,9 de junho de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609
O espectador pode, depois da discussão, descer um lance de escadas e continuar mergulhando no trabalho de Marker assistindo a “O legado da coruja”, cuja curadoria é de Moacir Dos Anjos:

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO

GALERIA VICENTE DO REGO MONTEIRO

 O LEGADO DA CORUJA

CHRIS MARKER

 [6 DE JUNHO A 2 DE SETEMBRO DE 2012]

O Legado da Coruja  (L’Héritage de la Chouette) é um dos mais instigantes e dos menos conhecidos dos muitos projetos realizados pelo cineasta francês Chris Marker ao longo de uma trajetória de trabalho que já conta seis décadas. É sua mais ambiosa intervenção no meio televisivo e foi exibido originalmente nas televisões francesa e inglesa, em 1989, como uma série de 13 episódios. Depois disso, foi mostrado apenas algumas poucas vezes em festivais internacionais de cinema, sendo inédito no Brasil. Filmado em cinco cidades em um período de dois anos e contando com 59 convidados, tem como foco conceitos ou questões surgido s na Grécia Antiga que persistem importando como elementos organizadores do pensamento corrente no mundo ocidental. A coruja, animal que simboliza a busca por conhecimento, aparece como guia nessa jornada.

Os temas dos 13 episódios são: Simpósio, Olimpíadas, Democracia, Nostalgia, História, Matemática, Logomarca, Música, Cosmogonia, Mitologia, Misoginia, Tragédia e Filosofia. Ao longo de 5 horas e 30 minutos, o espectador é confrontado com a origem dessas palavras na Grécia Antiga e com a sua relevância para a criação e persistência das noções de Ocidente e de Europa.

Cada episódio é conduzido pela fala de reconhecidos pensadores e artistas, permeadas por imagens que Chris Marker filma ou seleciona das mais variadas fontes e edita de modo original. O que emerge desse extenso painel não é, contudo, um panorama homogêneo e pacificado sobre aquele legado, mas um campo de disputa de posições e de conceitos onde há lugar para o contraditório.

Se a relevância de O Legado da Coruja na trajetória de Chris Marker e seu ineditismo no Brasil já justificam sua apresentação – sendo exemplo, ademais, do potencial reflexivo que o meio televisivo já teve e que hoje parece não possuir mais –, exibi-lo em um momento de grave crise financeira, social e política na Europa o reveste de interesse particular. E é justamente na busca por articular o trabalho do artista feito em 1989 e a situação corrente do mundo que ele buscava entender a partir do legado cultural grego que se ancora a presente exposição.

Apontada pelo Banco Central Europeu e pela União Europeia como uma das maiores responsáveis pela progressiva fragilização do padrão monetário europeu, a Grécia tem sido constantemente ameaçada de ser excluída da Zona do Euro, sendo obrigada, para evitar esse desfecho traumático para todos, a penalizar gravemente a sua população mais desprotegida, garantindo assim os ganhos dos bancos que financiaram o endividamento do país e que muito lucraram com isso.

É irônico, senão paradoxal, que justamente o país cuja cultura mais contribuiu para a ideia de um mundo que se quer proteger do colapso esteja sendo culpabilizado pela crise que se abate sobre ele hoje. E que seja por meio da adoção de políticas que levam à redução do crescimento, ao desemprego e ao desmonte de políticas de amparo social que se busque preservar uma ideia de coesão econômica, social e política na Europa inteira.

Para marcar a atualidade do projeto de Chris Marker, a exposição é dividida em duas partes, cada uma delas ocupando uma sala da Galeria Vicente do Rego Monteiro. Em uma delas, são exibidos os 13 episódios de O Legado da Coruja, projetados em sequência, de modo que a cada dia da exposição a série é mostrada integralmente. Na segunda sala de exposição, foi criado um ambiente de pesquisa e debate, em que informações sobre o artista, sobre o seu projeto e sobre a crise atual na Europa são disponibilizados aos visitantes por meio de jornais, revistas, livros e outros vídeos. Além disso, profissionais de áreas diversas do conhecimento são convidados a refletir e a discutir, nesse ambiente e em outros da instituição, O Legado da Coruja e as circunstâncias de sua exibição aqui propostas.

A exposição possui, assim, duas camadas distintas que se articulam: o trabalho de Chris Marker e o contexto específico em que ele é aqui inscrito e oferecido ao público. Sem pretender criar uma ligação imediata e clara entre um e outro, o que a mostra quer é ativar a importância de (re)visitar O Legado da Coruja a partir do sentimento de urgência que a recente crise europeia desperta. O que se busca, portanto, é construir uma plataforma de debate e reflexão sobre fraturas do mundo atual a partir dessa singular produção do artista feita há mais de duas décadas.

NOTA BIOGRÁFICA

Chris Marker (Paris29 de Julho de 1921) é cineastafotógrafoescritor e artista multimídia francês. Entre seus seus filmes mais conhecidos e stão La Jetée (O Molhe, 1962), Le fond de l’air est rouge (O fundo do ar é vermelho , 1977) e Sans Soleil (Sem Sol, 1983), nos quais lida, de modo original, com questões da memória e da história e com as possibilidades e os limites de se ser protagonista no mundo.

Tendo estudado filosofia sob a tutela de Jean-Paul Sartre, Chris Marker se juntou ao movimento de resis tência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, começou a escrever e a fazer filmes. Les statues meurent aussi (As estátuas também morrem,1953), que co-realizou com Alain Resnais, é celebrado como um dos primeiros filmes anticolonialistas da história do cinema.

O trabalho de Chris Marker começou a ser reconhecido internacionalmente quando realizou La Jetée. Esse filme de ficção científica conta a história de uma experiência de viagem no tempo a partir de um futuro pós-nuclear, e é construído por meio de uma fotomontagem em preto-e-branco acompanhada de narração e efeitos sonoros. Em Le fond de l’air est rouge, articula imagens documentais de manifestações, conflitos e movimentos políticos ocorridos em partes diversas do mundo entre o final da década de 1960 e meados da seguinte, traçando um painel dos incertos rumos da história da humanidade no período.

Em Sans Soleil, Chris Marker de novo articula arquivos de filmes e fotografias, fazendo uma fusão entre imagens documentais e comentários filosóficos, compondo uma atmosfera de sonho e ficção científica. Depois de Sans Soleil, desenvolveu um profundo interesse na tecnologia d igital, que o levou a realizar o filme Level 5 (Nível 5, 1997) e o cd-rom interativo IMMEMORY (1998).

Chris Marker, aos 90 anos de idade, é considerado um dos mais influentes cineastas para os jovens criadores nos campos das artes visuais e do cinema, por seu pioneirismo na quebra das fronteiras entre ficção e documentário, no uso da tecnologia digital e por seu engajamento radical com o mundo onde vive.

 

A exposição O LEGADO DA CORUJA dá seguimento ao projeto Política da Arte, desenvolvido pela Coordenação de Artes Visuais da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (MECA) da Fundação Joaquim NabucoIniciado em 2009, o projeto compreende a realização de mostras e ações reflexivas, articulando dimensões distintas, mas igualmente importantes, das atividades da Fundação Joaquim Nabuco. O projeto Política da Arte tem como pressuposto a noção de que mais do que dar visibilidade a imagens, textos e ideias criados em outras partes, a arte é capaz de, a partir dela mesma, desafiar os consensos e acordo s que organizam e apaziguam a vida. Ao embaralhar os temas e as atitudes que a cada lugar e momento cabem no campo do possível, a arte aponta para a possibilidade do novo e tece a sua própria política.

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