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“Você pediu um ano… O tempo não consta…”



Por Marília Amorim

Minha primeira impressão ao assistir o filme, O Ano Passado em Marienbad”, foi a de estar diante de um livro de contos do realismo-fantástico, ou de uma leitura repleta de jogos de linguagem, de vários paradoxos e antíteses, onde o leitor só encontra um ponto final, quando não se perde nesse labirinto de letras, ou quando encontra a si mesmo em qualquer parte desse labirinto.

Num segundo momento, pensei estar diante de um sonho, do qual reajo estática ao despertar, permanecendo assim por alguns segundos até perceber que estou, de fato, acordada. Recordo algumas imagens e esqueço outras. Depois elas voltam e assim me lanço a esse jogo durante todo o dia. Sem saber sua cronologia, implicação, verdade e lógica. E tudo se perde na minha memória. Até que em um doce momento me encontro com essas imagens perdidas numa esquina, então, me espanto, pois já não sei seelas realmente aconteceram ou se habitam o meu mundo devaneador.

Marienbad” é o limite da lembrança: é a dúvida da realidade, a busca da memória e o labirinto do ser… Ser enquanto submerso no tempo. Tempo enquanto medida para realidade. Ser enquanto habitante do espaço silencioso de suas próprias sensações. Espaço enquanto plano externo das íntimas representações.

O filme foi lançado no ano de 1961, França/Itália, e é uma das Continuar lendo

Coexistência e Transmutação: Resnais, Tarkovski.



Por Rodrigo Almeida

Não há dúvida de que poderia escrever (e não só eu) um ensaio inteiro, apenas sobre os travellings paralelos em O Ano Passado em Marienbad (França / Itália, 1961), de Alain Resnais (e Alain-Robbe Grillet?), onde o movimento corta o movimento, onde a câmera percorre um espaço imutável, isolado (que pode ser em Marienbad, Baden-Salsa, Frederiksbad), entre corredores, salões, portas e corredores, capturando a coexistência de diferentes tempos, sonhos, memórias, projeções e delírios. Mas, sinceramente, depois do ensaio anterior, falar simplesmente sobre travellings se tornaria um tanto repetitivo. Ainda que aqui exista um diferencial muito claro: a câmera se move não apenas de um cômodo para outro, mas o faz, num mesmo plano-sequência, a partir do espaço-momento suspenso de onde o narrador X descreve o ambiente, ações, gestos e encontros diretamente para suas lembranças (ou lembranças-falsas); para seus sonhos (ou sonhos-inventados); para estados mentais ou desejos encobertos e revelados. E durante esse movimento vagaroso, esse mesmo narrador se encontra enquanto personagem X (ou enquanto narrador) dentro de sua própria história, direcionando suas palavras de maneira persuasiva para sua ouvinte/amante A (ela nega, confirma, hesita), reflexiva para si mesmo e assertiva para o espectador. Quando não inverte e mistura todas essas enunciações – o que torna tudo deliciosamente mais ambíguo.

Há uma síntese – numa descontinuidade aparentemente ilógica – onde todas essas formas de contar um encontro passado (ou um encontro passado fictício, projetado) se unem sob a efígie de uma única realidade. E claro que falar em realidade (a maioria falaria numa não-realidade) pode parecer uma contradição diante da experiência da obra Continuar lendo