Acelerado



Por Marília Amorim

Um balé surreal de imagens. E o que mais você espera que possa ser dito sobre algo assim definido?

O movimento da cidade, o movimento do homem, o movimento da cidade no homem, do homem na cidade. Cada um em seu tempo. Cada um, seu mais interligado gesto. De quantas formas você poderia olhar cada um desses passos? Você conseguiria acompanhar essa seqüência de movimentos?

Bom, um barquinho de papel consegue acompanhar toda essa tempestade de idéias, embora, com dificuldades de equilíbrio. Em contrapartida, dança como uma água-viva ao mar, uma graciosa bailarina, ou melhor, um bailarino barbudo. (Ou não. Os dois em um só. Enfim, não importa qual o sexo. Importa é como ele consegue ser leve no meio de tanta euforia). Aqui já não há dificuldades de equilíbrio, mas uma grande beleza vista de baixo para cima.

E o que é real nesse balé? Que sentido tem nisso tudo? A busca pela explicação, talvez, seja a outra grande crítica desse filme de René Clair. O manifesto é ser ilógico, absurdo, irônico para “denunciar” a grande aceleração do mundo, o ritmo sem freios dos acontecimentos. Questionar a importância da narrativa que precisa de personagens, ordem, linearidade.

Um balão dança na água, você tentar acertar-lo, ele te ilude com vários reflexos, sombras de si. Você tenta e tenta, até que finalmente consegue e liberta o pássaro preso no balão, faz nascer sua própria liberdade. E esse crime você terá que pagar com sua própria vida.

E todos dançaram, ora pretos, ora brancos atrás de seu caixão. Mas… Você insiste em se libertar. Até da tua própria morte foges.

Correm atrás de ti.

É nesse momento que mais consegues ver tua cidade. Fugindo da morte percorres todos os caminhos de tua lembrança e da tua esperança.

Correm, ainda, atrás de ti.

Acabamos sempre entrando na montanha russa do nosso destino. Nosso maior labirinto giratório. Nosso limite de horas.

Ainda, correm atrás de ti.

Não cansamos de tanta velocidade. Invertam a ordem, mas só não mudem esse ritmo que não chega ao ápice. E que sempre deseja ser mais veloz e sem-fim.

Correm atrás de ti, ainda.

Já não enxergamos mais nada, além de milhares de pontos. “Reduzidos às manchas disformes”. Nossa rotina, nossa vida, nossa morte, nosso progresso e desenvolvimento são tão intensos e rápidos que só enxergamos pontos e imagens perdidas num tempo mais acelerado que o nosso.

Até que você percebe que não adianta mais fugir, então, você cai e se liberta.

E essa é nossa grande mágica. As coisas aparecem e desaparecem em alguns instantes. Inclusive, você.

No final de nossa apresentação, talvez, seja a música quem dite tudo. Quem componha tudo. O movimento da cidade, o movimento do homem, o movimento da cidade no homem, do homem na cidade. Cada um em seu tempo. Cada um, seu mais interligado gesto.

Ela seja o sentido. Os atos e os “entre atos” de nossa dança.

*Esse texto foi publicado originalmente no blog da autora.

Abaixo o curta Entreato , de René Clair:

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Uma ideia sobre “Acelerado

  1. Rodrigo Almeida Autor do post

    Marília,

    acho primordial a entonação poética dentro da qual você estrutura seu texto, sem deixar de expor, à sua maneira, uma série de impressões e idéias. Para mim, esse seu percurso casa de maneira bem íntima com o seu objeto de reflexão, quase como se o próprio objeto pedisse esse tipo de percurso. Gosto da crítica que fundamenta sua metodologia – e sendo assim eternamente variável – a partir do objeto ao qual se debruça e não que coloca o objeto numa roda de estruturas e argumentos previamente escolhidos (como o faria a semiologia, por exemplo). O crítico não impõe à obra, mas o contrário: a obra impõe ao crítico. Acho que o seu texto é um maravilhoso exemplo disso. ‘Super louco’ como comentamos, de fato, mas de que outra maneira poderíamos tratar um curta-metragem como ‘Entreato’ – uma espécie de manifesto anti-coerência (ou dadaísta como diriam alguns autores)?! A presença de Duchamp não passa despercebida por René Clair e preciso chamar a atenção para dois balés da obra: o da bailarina em contra-plongé e o do cortejo em câmera lenta. Acelerado, sem dúvida.

    Quando li o seu texto, estava (e ainda estou, na verdade) lendo um livro de Foucault, chamado ‘A Arqueologia do Saber’. Como é de praxe, terminei fazendo uma ligação entre ambas as leituras, sem perder de vista o próprio filme. É preciso dizer (ou me justificar caso fale besteira) que Foucault é um autor altamente ambíguo, que causa discordâncias entre seus leitores. Desse modo, esta é uma leitura minha: não percamos isso de vista. Enfim… Foucault faz uma grande crítica a maneira como a ciência histórica é estudada tradicionalmente, se fundando na analogia da ‘linha’, onde todos os fatos pertencem a uma única superfície sem profundidade. Além disso, poucos pontos de ruptura – pontos que separam as ‘eras’ – são marcados nessa linha (como se estes existissem por si só, grandiosamente e autônomos). Daí ele sugere a história, como estratos que se sobrepõem e se interferem, sem exagerados altos e baixos, deixando de lado a analogia da linha ou mesmo da rede, constituindo uma idéia de emaranhado de situações. Além da não-linha, também a não-rede. Isso porque a rede supõe ainda uma lógica bem definida: sabemos de onde os pontos partem e aonde eles chegam. No caso do emaranhado, os fios são tantos que começamos a perder a noção individual de todos eles, pois informações passam a ocultar outras informações. Óbvio que isso tudo se finca de maneira bem abstrata, mas ‘Entreato‘ me parece um emaranhado em essência.

    Eu ia escrever um texto sobre filmes históricos, anacronismo, excesso de representações da ‘história oficial’, dos ‘personagens oficiais’ no cinema, discutindo alguns conceitos postos neste livro de Foucault. Não sei se terei fôlego para tanto. Por outro lado, trouxe essa referência para cá, porque, para mim (e que fique bem claro, para mim) Foucault usa do exemplo da história para criticar as coerências forçadas que se estabelecem na metodologia científica e consequentemente, em outras áreas, como a crítica de arte. Temos o costume de pensar, que toda ciência que se preza tende a se fundamentar em coerências-pilastras, quando na verdade existem pontos que só são compreendidos (ou mesmo observados) pelo paradoxo, pela incoerência que lhes envolve. Algumas metodologias estão cegas para essa possibilidade. A física quântica já aprendeu muito bem isso: o conceito de emaranhado no sentido que usei, por sinal, provêm de lá. Acho que é nesse momento que aproximo ‘A Arqueologia do Saber’ com ‘Entreato’: ambos criticam a idéia ou até posso dizer ‘ideal’ linear, em busca de caminhos oblíquos, incertos, confusos (porque há de serem confusos). E aqui volta a questão do método, pois Foucault representa uma quebra na metodologia extremamente rígida, que não se desloca quando o próprio objeto pede um deslocamento. Acho ótimo que ele promove, através destes argumentos, uma autocrítica imensa. Chega a usar seus trabalhos anteriores, pesquisas rigidamente estruturalistas, como exemplos equivocados de uma metodologia que não soube se adequar completamente ao seu objeto (e terminou caindo em equívocos percebidos posteriormente).

    Acho que você conseguiu, Marília, seguir o caminho que a obra de René clair pede. Confuso? Louco? Poético? E teria como ser de outra maneira?

    Resposta

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