Arquivo mensal: novembro 2012

Cícero Filho: Ai Que Vida (Brasil, 2007) e Flor de Abril (Brasil, 2012)

Integrando mais uma vez a programação da V Janela Internacional de Cinema do Recife, o Cineclube Dissenso exibe no sábado, 17 de novembro e domingo, 18 de novembro, os filmes Ai Que Vida (2007) e Flor de Abril (2012), do cineasta Cícero Filho.

Nascido em Poção de Pedras, interior do estado do Maranhão, e mantendo um diálogo com Teresina, Filho começou a fazer filmes aos 12 anos, firmando-se como um dos representantes de um cinema de baixíssimo orçamento, que apesar de não ser festejado em festivais, conseguiu estabelecer uma relação sólida com o público de diversas regiões. O jovem estourou com “Ai que vida” (2007), comédia que virou febre em vários estados, especialmente no interior, através da distribuição informal de DVDs piratas. Durante o ano de 2012, vem apresentando seu mais novo filme, “Flor de Abril”, um melodrama de cunho mais uma vez regionalista, e que reafirma a capacidade do cineasta de criar narrativas através do manejo e deslocamento de gêneros historicamente populares. Novamente participando da programação da Janela Internacional de Cinema do Recife, o Cineclube Dissenso organiza duas sessões com filmes do maranhense.

SERVIÇO

Sessão 1 – 17/11 – Cinema da Fundação, 14h
Ai que Vida (Brasil, 2007) – 100 minutos
Roteiro: Cícero Filho
Direção: Cícero Filho
Produção: TVM Filmes
Elenco: Irisceli Queiroz, Rômulo Augusto
Sinopse: Espécie de Chanchada contemporânea, o filme acompanha o impasse amoroso de Charlene, dançarina de forró, que mesmo prestes a se casar com o bom partido Jerod, termina se apaixonando pelo boêmio Valdir. A trama se desenrola na interiorana Poço Fundo, que vive as disputas políticas entre o desonesto prefeito, Zé Leitão, e a dona de uma funerária local, Cleunice da Cruz Piedade, disposta a acabar com a corrupção na cidade.

Sessão 2 – 18/11 – Cinema da Fundação, 14h
Flor de Abril (Brasil, 2012) – 110 minutos
Direção: Cícero Filho
Roteiro: Cícero Filho
Produção: TVM Filmes
Elenco: Dayse Bernardo, Vinicius Fiamini, Eric Gaigher e Diego Soares
Sinopse: Declaradamente influenciado pelo estilo das novelas globais e arquitetado como um melodrama regionalista, o filme mostra a trajetória de Teresa ao longo de três diferentes relacionamentos. A jovem do campo, ingênua e romântica, precisa enfrentar uma série de circunstâncias extremas, enquanto tenta melancolicamente se distanciar cada vez mais de seu passado.

Ambas as sessões são gratuitas.

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Miguel Gomes: Tabu (Portugal/Alemanha/Brasil/França, 2012)

Imagem

Integrando mais uma vez a programação da V Janela Internacional de Cinema do Recife, o Cineclube Dissenso exibe no sábado, 10 de novembro, Tabu, o novo longa-metragem do diretor português Miguel Gomes. O filme mobiliza as mais diferentes formas – do romance colonial ao gênero epistolar, do melodrama ao relato de aventuras – para dar corpo à história de dois amantes, Aurora (Laura Soveral/Ana Moreira) e Gian Carlo (Henrique Espírito Santo/Carloto Cotta). Tal profusão de referências se arma em torno de uma percepção que é, não obstante, profundamente comprometida com a imagem. É, afinal, a história do cinema aquela que nos concede um modelo privilegiado, uma estética para figurar o passado. Não por acaso, é acima de tudo do cinema clássico e mudo que o filme vai se alimentar – sendo Murnau a referência mais óbvia, mas não, claro, a única. Tais formas acumuladas no tempo engendram uma imaginação cinematográfica que, marcada por um caráter apaixonado e saudosista, mas também inventivamente combinatório, vem dotar de qualidade expressiva o fio de uma história.

Gomes retoma e amplifica aqui o seu procedimento de hiperfabulação, concedendo especial centralidade à voz que narra, detendo-se em suas minúcias, desvios e afetações. Nesse sentido, trata-se de um filme talvez mais próximo de A cara que mereces – seu primeiro longa-metragem, também exibido pelo Cineclube Dissenso –, na medida em que temos mais uma vez a elaboração de um registro que, organizando-se em torno de uma narração, percorre vários níveis e deriva em diferentes vozes. Tal eleição não implica jamais, no entanto, uma subordinação do olhar à fala. O procedimento da narração é, pelo contrário, uma máquina que produz imagens, sejam estas as que o filme nos concede ou, ainda, as que permanecem apenas sugeridas – note-se especialmente o longo plano em que Aurora conta a Pilar (Teresa Madruga), e a todos nós, um sonho.

Volta também aqui o apreço pela música descaradamente romântica – tão importante para seus filmes anteriores – como chave para articular um sentimento em todo o seu excesso. Uma dessas canções, em particular, quando repetida cria um espelhamento que nos faz interrogar o que vemos, ou melhor, que nos convida a tomar parte nessa imaginação cinematográfica, a movermo-nos entre os diferentes níveis do registro para brincar com a pergunta: de quem é, afinal, a história de amor que se conta? Pontuando o modo de organização do filme parece prevalecer também um interesse pela persistência com que aquilo que nos aparece como outro e distanciado, temporal ou geograficamente, assume ares de fantasia, de aventura exótica ou de mito. Seguindo esse viés, até mesmo os delírios eurocêntricos de grandeza e suas paranoias podem empalidecer diante de uma megalomania muito mais aguda: a dos amantes, para quem até mesmo a História, as revoluções, a vida e a morte não são mais do que os desdobramentos de seus gestos impetuosos.

Serviço
Cineclube Dissenso
Tabu (Portugal/Alemanha/Brasil/França, 2012), de Miguel Gomes
Sábado, 10 de novembro de 2012, às 14h
Cinema São Luiz, Rua da Aurora, 175 Boa Vista
Entrada: R$4/R$2