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A Imagem e a Vida: A Onipresença do Acaso (Parte 1)

Por Fernando Mendonça

Uma festa. Um jovem. Insatisfeito com o ambiente retira-se sem ser percebido. Na rua, caminha. Entra em um bonde. É madrugada. Trabalhadores cansados. Pessoas solitárias. Uma jovem distraída numa parte vazia do veículo. Um flerte. Aproximação de olhares. Quase sorriso. Ele não resiste. Mas tenta. Aproxima-se enquanto ela parece adormecer. A possibilidade do toque. Carinho. Um recuo inesperado. Fuga. Salta do bonde. Pelo vidro embaçado um último desejo. Distância. Vê o bonde partir. Nunca mais. Percebe o erro. Arrependimento. Angustiada corrida. Gritos. Tarde demais?

5 minutos. O tempo necessário para em O Bonde / Tramwaj (1966), o jovem Krzysztof Kieslowski (1941-1996), polonês ainda estudante de cinema, experimentar e criar sua primeira obra, plenamente digna do aposto ‘prima’. Minutos de transbordante poeticidade já contaminados pela tônica formal e temática que permearia toda a carreira do cineasta mesmo quando em sua maturidade. Como explicá-los? Como racionalizar a necessidade da pureza poética na estréia de um artista que dedicaria às duas décadas posteriores, filmes com foco no registro do documental? Pois ainda que o olhar sensível seja inerente ao seu estilo de ‘filmagem realista’, somente nos anos 80 ele voltaria a experimentar o eminentemente poético Continuar lendo

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A Imagem e a Vida: Imitação e Realidade (Parte 2)



Por Fernando Mendonça

“Ao homem é natural imitar desde a infância – e nisso difere ele dos outros seres, por ser capaz da imitação e por aprender, por meio da imitação, os primeiros conhecimentos -; e todos os homens sentem prazer em imitar.”

ARISTÓTELES

Imitamos.

Aprendemos.

Gozamos.

Isso nos faz humanos?

***

Tenho imaginado por aqui as dificuldades de um artista para iniciar sua obra, seja ela um objeto específico ou um conceito de carreira. Afinal, foi dentro da última hipótese que discutimos num primeiro momento a realização dos dois primeiros curtas de Krzysztof Kieslowski (1941-1996). Mas se é interessante imaginar a coragem de um autor para começar Continuar lendo