Arquivo da tag: Antonioni

Radical Chic

Por Pedro Neves

Ao glamour da violência revolucionária,
ao anseio secreto que ela evoca na mais dócil das almas…

Don DeLillo, Players

“A beleza está na rua”, diziam os cartazes e muros pichados de Paris em maio de 1968. As revoltas e greves ocorridas naquele mês na capital da França entraram para a história e para a mitologia pop como o ponto máximo de uma revolução que mudou o mundo. Os eventos de maio são em geral considerados um fracasso político, com a violência evaporando rapidamente, os operários voltando para o trabalho e o Partido de De Gaulle liderando com força redobrada as eleições seguintes. Mas os ideais libertários da juventude, maturados durante toda década e ecoados em diversas partes do mundo, tomaram o centro do palco e derrubaram – pelo menos em teoria – as tradições conservadoras da velha guarda.

O que torna o maio de 68 tão icônico é justamente a participação dos jovens nas revoltas. As imagens mais reproduzidas desse mítico mês são de estudantes na rua, fazendo barricadas, jogando coquetéis molotov, lutando contra a polícia. E essas imagens são reproduzidas principalmente pelo cinema. O cinema apropriou-se do maio, porque de alguma forma ele foi parcialmente responsável por sua eclosão. Reza a lenda que as revoltas começaram com a tentativa de demissão de Henri Langlois, co-fundador e diretor da Cinemateca Francesa, por iniciativa de André Malraux, Ministro da Cultura. Talvez mais importante seja notar que os anseios e insatisfações da juventude e seus novos valores estavam intimamente ligados à Nouvelle Vague, o movimento que abalou o cinema clássico francês.

Jovens, irreverentes e iconoclastas, os diretores da Nova Onda reivindicavam outra forma de fazer cinema, mais livre das convenções clássicas, das fórmulas do bom gosto, da caretice. Aproveitando o recente desenvolvimento de câmeras menores e mais leves, tiraram o cinema da segurança do estúdio e Continuar lendo

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Entre suspenses: Uma aproximação de Antonioni à obra de Hitchcock



Por Fernando Mendonça

O suspense é, há muito, considerado um dos mais acabados gêneros cinematográficos, pois para ter uma narrativa funcional utiliza o jogo de câmeras, o ‘visto’ e o ‘não visto’, além de toda uma gama de técnicas e possibilidades, existentes somente na forma artística em questão. Desenvolvido, aperfeiçoado e popularizado por Alfred Hitchcock (1899-1980), homem que soube associar sua imagem e nome à sua arte e gênero, o suspense é, igualmente, o tema e abordagem principais de uma obra do cineasta Michelangelo Antonioni (1912-2007): “Blow Up” (UK / Itália / EUA, 1966). O que se pretende aqui é justamente um delineamento dos principais paralelos entre esses notórios realizadores, no caso, a obra geral do primeiro e o filme citado do segundo. Apesar de toda a filmografia de Antonioni ser profundamente dotada de aspectos filosóficos, aspectos esses que se multiplicam em “Blow Up“, o foco de análise percorrido nesse texto será a existência do suspense; o que o motiva, o que o gera, o que provêm dele, como é alcançado em “Blow Up“? Estudar seu suspense tendo por base o melhor suspense que o cinema teve é, sem dúvida, a mais eficiente maneira de se alcançar uma resposta.

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Sem rodeios, “Blow Up” traz em sua trama um personagem (Thomas) que se vê envolvido em um assassinato. Fotógrafo profissional, Thomas certo dia se encontra a trabalhar em um idílico campo e tem sua atenção atraída por Continuar lendo