Arquivo da tag: Sofia Coppola

Veneno com açúcar

Por André Antônio

O início de As virgens suicidas (EUA, 1999) é dividido em algumas seqüências. Antes destas, porém, temos um plano – o primeiro do filme – onde Lux, a personagem de Kirsten Dunst, aparece terminando de comer um picolé, de maneira até um pouco agressiva. Esse “choque” visual que temos nos insere de imediato no universo diegético pop-anos 70 que o filme vai explorar. A primeira seqüência é uma montagem de planos abertos mostrando a tranqüila e modorrenta vizinhança onde o enredo se desenrolará: pessoas passeando com seus cachorros, vizinhos regando o jardim, o sol penetrando suavemente pelas folhas das árvores (algumas destas recebendo aviso de corte por causa de fungos), crianças jogando basquete… Somos embalados, com efeito, pelo som “chapado” do Air. Um corte brusco e seco nos leva à segunda seqüência: a música pára (é substituída por um som distante de sirene), saímos dos exteriores e vamos a um interior: o banheiro da casa da família Lisbon. Ouvimos a voz do narrador que nos conduzirá pelo resto do filme: “Cecilia was the first to go”. Teremos aqui novamente uma montagem de planos sem diálogo: vemos a referida garota com olhos abertos dentro de uma banheira com água misturada a sangue, seu resgate (ela ainda não está morta…), a ambulância partindo, o rosto preocupado e apreensivo da mãe (Kathleen Turner, ótima) e dos vizinhos cuja tranqüilidade cotidiana foi perturbada. Continuar lendo

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As escolhas de Sofia

Por André Antônio

O cineasta e crítico pernambucano de cinema Kleber Mendonça Filho, em seu texto sobre o filme Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006), fala sobre as vaias que o terceiro longa de Sofia Coppola levou quando veio a público pela primeira vez no Festival de Cannes e diz que é quase impossível achar uma crítica sobre o filme, que não mencione esse fato. Este texto não é exceção. A menção aqui, contudo, é para lançar as hipóteses de que nem mesmo o público de um dos mais prestigiados festivais de cinema no mundo está preparado para certas surpresas e de que a crítica cinematográfica atual é mais “influenciável” do que imagina.

Com relação à crítica, cito dois jornalistas aqui de Pernambuco cujas opiniões são consideradas relevantes quando o assunto é cinema. O primeiro é o próprio Kleber. Ele fez dois textos sobre o filme: um *, logo após tê-lo assistido presencialmente em Cannes, abominando-o; outro *, passado o “calor” do festival, como ele mesmo admite, mais ameno, admitindo as qualidades técnicas do filme, dizendo que ele de fato falava de algumas coisas importantes, mas que tinha “um sabor específico: veja se é o seu”. O segundo jornalista é Rodrigo Carrero, cujo sucesso de seu site de críticas pode ser constatado pelos comentários entusiastas em seu blog. Carrero analisa a estética do filme, quase o elogiando, para no final, vir com Continuar lendo