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O Mundo Visível

Por Fernando Mendonça

[…] eu sei que para mim, para quem as flores fazem parte do desejo, há lágrimas à espera nas pétalas de uma rosa. Sempre me aconteceu a mesma coisa, desde a infância. Não há uma única cor escondida no cálice de uma flor, ou na curva de uma concha, à qual, por alguma sutil simpatia com a alma das coisas, a minha natureza não responda. Como Gautier, sempre fui um daqueles pour qui le monde visible existe”.

Para quem o mundo visível existe.

Recordar as palavras que Oscar Wilde dedicou ao amante enquanto estava preso e impossibilitado tanto de manter contato com sua família, sua arte e o mundo, é aproximar-se do espírito que Eugène Green captura em seu mundo particular e nos apresenta neste, O Mundo Vivente (França / Bélgica, 2003), um dos filmes mais fantásticos já feitos, onde o registro do fantástico, verdadeiramente extraordinário, adquire significados que ultrapassam o tom da fábula em privilégio primeiramente ao mecanismo cinematográfico, naturalmente dotado e voltado para a capacidade de instaurar a fantasia. Mecanismo que, aqui, revela-se em suas possibilidades mais profundas, ao mesmo tempo distintas e indiscerníveis ao Continuar lendo

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A Imagem e a Vida: Imitação e Realidade (Parte 2)



Por Fernando Mendonça

“Ao homem é natural imitar desde a infância – e nisso difere ele dos outros seres, por ser capaz da imitação e por aprender, por meio da imitação, os primeiros conhecimentos -; e todos os homens sentem prazer em imitar.”

ARISTÓTELES

Imitamos.

Aprendemos.

Gozamos.

Isso nos faz humanos?

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Tenho imaginado por aqui as dificuldades de um artista para iniciar sua obra, seja ela um objeto específico ou um conceito de carreira. Afinal, foi dentro da última hipótese que discutimos num primeiro momento a realização dos dois primeiros curtas de Krzysztof Kieslowski (1941-1996). Mas se é interessante imaginar a coragem de um autor para começar Continuar lendo

Por um desejo de conhecer



(Por Fernando Mendonça).

A utilização do gênero policial como um instrumento de reflexão capaz de problematizações de ordem metafísica existe em vários autores considerados canônicos dentro da arte cinematográfica. Antonioni, Godard, Hitchcock, Lang, Bresson, e tantos outros, marcaram sua obra com criações que flertavam indireta ou explicitamente com a estrutura das intrigas policiais, sempre visando horizontes maiores de indagação e questionamento do humano. Atualmente, o nome do cineasta americano David Fincher, pode ser colocado sem hesitação ao lado desses criadores no sentido de valer-se no gênero não apenas com ousadias que chamam atenção dentro da linguagem audiovisual, mas com uma postura de pensamento que faz desse tipo narrativo um meio para algo maior, como veremos aqui, pertencente ao nível do conhecimento.

Para Hegel, em sua Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817), há uma contradição intrínseca ao conhecimento, pois ele é sempre inacabado e se nega a si mesmo a cada vez que o saber é ampliado. Ao perceber que o conhecimento que se tinha de um objeto era insuficiente e imperfeito, atinge-se um novo saber. Conhecer o erro é atingir uma nova verdade. Assim, o que agora é conhecido aparece como negação do saber anterior. A verdade torna-se um processo que, sem cessar, nega a si próprio; o saber se ultrapassa constantemente. E, quando uma negação nega a si mesma, ela se torna uma nova afirmação. Todas estas afirmativas de cunho hegeliano nos conduzem ao cinema em seu gênero policial. Um filme pertencente a tal gênero tem por Continuar lendo

Os dois lados da moeda humana em Cronenberg

Por Fernando Mendonça)

“Um dos fenômenos que atraía especialmente minha atenção era a estrutura do corpo humano e, também, de qualquer ser dotado de vida. Muitas vezes perguntava a mim mesmo se o princípio vital não teria a sobrevivência em estado latente. Pergunta arrojada, sem dúvida, que sempre foi considerada um mistério”.

Mary Shelley. FRANKENSTEIN

Não é segredo que a genialidade do canadense David Cronenberg tem se revelado num ápice incansável há um bom número de anos. Incontestável autor cinematográfico, sua carreira tem sido construída numa obra de tão profunda coerência temática e estética que poucos ousam duvidar da ousadia de suas criações, ainda que não alcancem lugar-comum as inúmeras reações e interpretações alçadas ao redor de sua filmografia. Muito já foi discutido a respeito dos ideais pós-modernos presentes em sua arte e não são poucos os teóricos que o elevam a estatura de pensador contemporâneo, principalmente por trabalhar com insistência questões delicadas que envolvem as tecnologias (virtualidades) em relação ao corpo humano e àquilo que diz respeito a suaexistência. Também tem sido erguido, no decorrer da década corrente, um debate sobre as intenções que Cronenberg vem assumindo em suas mais recentes imersões fílmicas. Afinal, está muito evidente em seus últimos filmes, uma postura clássica de narrar, que mesmo assim, não tem inibido a força de suas provocações. É com base nestes, e principalmente Continuar lendo

O suspense entre a vida e a morte em Colateral



(Por Fernando Mendonça)

O processo da análise de um filme sempre tem por objetivo refletir os inúmeros aspectos nele existentes, enquanto obra artística que tem algo a revelar. Pode-se admitir que o cinema, assim como todas as formas de arte que se utilizam de recursos narrativos para contar algo, tem em seu produto duas facetas básicas a serem analisadas: o conteúdo e a forma. Ligado intimamente ao enredo de um filme, o ‘conteúdo’ evoca o desenvolvimento da própria narrativa, os princípios e elementos simbólicos nela existentes, preocupando-se quase exclusivamente com o que sua história tem a oferecer. Por outro lado, a ‘forma’ refere-se à como esse conteúdo foi exposto, de que maneira a história foi contada. Em um filme, a ‘forma’ diz respeito às técnicas utilizadas, a que meios cinematográficos se recorreu para alcançar determinado efeito ou sentido narrativo. É com essa compreensão que iremos observar o filme Colateral, do cineasta americano Michael Mann (2004). Sucesso de bilheteria, esse produto hollywoodiano está muito distante do mero espetáculo escapista, oferecendo inúmeros pontos de reflexão tanto moral como estilisticamente. Por isso, o que buscamos nessa análise é um equilíbrio entre os aspectos formais e de conteúdo extraídos do filme.

O SER VILÃO

Antes de qualquer consideração, convém apresentar uma rápida Continuar lendo

Entre suspenses: Uma aproximação de Antonioni à obra de Hitchcock



Por Fernando Mendonça

O suspense é, há muito, considerado um dos mais acabados gêneros cinematográficos, pois para ter uma narrativa funcional utiliza o jogo de câmeras, o ‘visto’ e o ‘não visto’, além de toda uma gama de técnicas e possibilidades, existentes somente na forma artística em questão. Desenvolvido, aperfeiçoado e popularizado por Alfred Hitchcock (1899-1980), homem que soube associar sua imagem e nome à sua arte e gênero, o suspense é, igualmente, o tema e abordagem principais de uma obra do cineasta Michelangelo Antonioni (1912-2007): “Blow Up” (UK / Itália / EUA, 1966). O que se pretende aqui é justamente um delineamento dos principais paralelos entre esses notórios realizadores, no caso, a obra geral do primeiro e o filme citado do segundo. Apesar de toda a filmografia de Antonioni ser profundamente dotada de aspectos filosóficos, aspectos esses que se multiplicam em “Blow Up“, o foco de análise percorrido nesse texto será a existência do suspense; o que o motiva, o que o gera, o que provêm dele, como é alcançado em “Blow Up“? Estudar seu suspense tendo por base o melhor suspense que o cinema teve é, sem dúvida, a mais eficiente maneira de se alcançar uma resposta.

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Sem rodeios, “Blow Up” traz em sua trama um personagem (Thomas) que se vê envolvido em um assassinato. Fotógrafo profissional, Thomas certo dia se encontra a trabalhar em um idílico campo e tem sua atenção atraída por Continuar lendo