Miguel Gomes: Tabu (Portugal/Alemanha/Brasil/França, 2012)

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Integrando mais uma vez a programação da V Janela Internacional de Cinema do Recife, o Cineclube Dissenso exibe no sábado, 10 de novembro, Tabu, o novo longa-metragem do diretor português Miguel Gomes. O filme mobiliza as mais diferentes formas – do romance colonial ao gênero epistolar, do melodrama ao relato de aventuras – para dar corpo à história de dois amantes, Aurora (Laura Soveral/Ana Moreira) e Gian Carlo (Henrique Espírito Santo/Carloto Cotta). Tal profusão de referências se arma em torno de uma percepção que é, não obstante, profundamente comprometida com a imagem. É, afinal, a história do cinema aquela que nos concede um modelo privilegiado, uma estética para figurar o passado. Não por acaso, é acima de tudo do cinema clássico e mudo que o filme vai se alimentar – sendo Murnau a referência mais óbvia, mas não, claro, a única. Tais formas acumuladas no tempo engendram uma imaginação cinematográfica que, marcada por um caráter apaixonado e saudosista, mas também inventivamente combinatório, vem dotar de qualidade expressiva o fio de uma história.

Gomes retoma e amplifica aqui o seu procedimento de hiperfabulação, concedendo especial centralidade à voz que narra, detendo-se em suas minúcias, desvios e afetações. Nesse sentido, trata-se de um filme talvez mais próximo de A cara que mereces – seu primeiro longa-metragem, também exibido pelo Cineclube Dissenso –, na medida em que temos mais uma vez a elaboração de um registro que, organizando-se em torno de uma narração, percorre vários níveis e deriva em diferentes vozes. Tal eleição não implica jamais, no entanto, uma subordinação do olhar à fala. O procedimento da narração é, pelo contrário, uma máquina que produz imagens, sejam estas as que o filme nos concede ou, ainda, as que permanecem apenas sugeridas – note-se especialmente o longo plano em que Aurora conta a Pilar (Teresa Madruga), e a todos nós, um sonho.

Volta também aqui o apreço pela música descaradamente romântica – tão importante para seus filmes anteriores – como chave para articular um sentimento em todo o seu excesso. Uma dessas canções, em particular, quando repetida cria um espelhamento que nos faz interrogar o que vemos, ou melhor, que nos convida a tomar parte nessa imaginação cinematográfica, a movermo-nos entre os diferentes níveis do registro para brincar com a pergunta: de quem é, afinal, a história de amor que se conta? Pontuando o modo de organização do filme parece prevalecer também um interesse pela persistência com que aquilo que nos aparece como outro e distanciado, temporal ou geograficamente, assume ares de fantasia, de aventura exótica ou de mito. Seguindo esse viés, até mesmo os delírios eurocêntricos de grandeza e suas paranoias podem empalidecer diante de uma megalomania muito mais aguda: a dos amantes, para quem até mesmo a História, as revoluções, a vida e a morte não são mais do que os desdobramentos de seus gestos impetuosos.

Serviço
Cineclube Dissenso
Tabu (Portugal/Alemanha/Brasil/França, 2012), de Miguel Gomes
Sábado, 10 de novembro de 2012, às 14h
Cinema São Luiz, Rua da Aurora, 175 Boa Vista
Entrada: R$4/R$2

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