Filmes de Amor



Por Fábio Leal

Os filmes de amor provavelmente formam o subgênero mais rechaçado pela crítica cinematográfica. Isso acontece por um motivo extremamente simples: o amor não passa pela razão. Querer criticar, analisar, dissecar filmes de amor é uma luta inglória. Apesar de todos os louros que as formas midiáticas de expressão dão à razão, não há razão que justifique o amor. Não há razão, por melhores que sejam os argumentos, que convença o amor a não existir. Então, por que não parar de pensar, de discutir e de blablablar e apenas sentir?

Sim, os filmes de amor, quase todos eles, são ridículos. Mas não seriam filmes de amor se não fossem ridículos. (Tomando emprestada a idéia do poeta que tem tantas idéias emprestadas, roubadas, diluídas e descontextualizadas. Espero que esse não seja o caso). No nosso mundo, ninguém acredita que uma mulher como Audrey Hepburn sairia correndo na rua, durante uma tempestade, vestida num Givenchy e com um penteado chiquérrimo. A não ser que ela esteja atrás do homem que ela ama. Nesse caso, não só acreditamos como torcemos para que ela o encontre – e que o filme termine no exato momento em que eles se beijem, para não dar tempo de discutir a relação. Queremos ficar com o sorriso que o beijo romântico, seja numa tela IMAX ou num Ipod Video, nos causa.

Lembro agora de um quadro do TV Pirata chamado Piada em Debate. Nele, era mostrada uma versão filmada de uma piada e, ao final da exibição, iniciava-se uma mesa redonda com sociólogos, antropólogos, economistas – e um torcedor do Botafogo. Cada um tentava ver o invisível na piada em questão, discutindo coisas sem a menor utilidade. Para acabar com a punhetagem acadêmica em cima de uma simples anedota, o sábio torcedor do Botafogo conclui: “piada é para rir”. Filmes de amor são para sorrir.

Se eu fosse me dar ao trabalho de ler as críticas dos últimos, digamos, 100 romances cinematográficos, certamente constataria que, no mínimo, 80 deles levaram saraivadas de virtuais tomates podres. Dos filmes que se salvaram, a maior parte têm um final triste, negativo, down. Porque ninguém mais agüenta um casal feliz nas telas.

Demorou algum tempo, mas, finalmente, estamos descobrindo que o final feliz de todos os contos de fada que nos contaram quando éramos crianças não existe na vida real. Podemos considerar uma sacanagem o fato de nos terem ludibriado durante todo esse tempo. Apesar disso, em toda e qualquer pessoa, mesmo a mais cética, a mais amarga, existe aquela fagulha de esperança do final feliz, da alma gêmea, do encontro inesperado num vagão de trem que vai mudar nossas vidas para sempre. Racionalmente sabemos que não seremos felizes para sempre; entretanto, lá dentro, em algum recanto do nosso cérebro, essa informação não se consolida e acreditamos que a possibilidade contrária existe, mesmo que remota.

E é para isso que servem os filmes de amor: para fazer com que essa esperança de possibilidade não se apague. Feliz ou infelizmente, é inútil tentar ver esses filmes com um olhar crítico, com um pé atrás e o cérebro ativado para encontrar outros filmes com um enredo igual. Se a suspensão da descrença não for acionada, o cinema romântico perde sua função. Se você não consegue nem ao menos pensar um “own, que fofo” ao ver na tela do cinema uma caixa de correio abarrotada de tic-tacs sabor laranja, recolha-se à sua insignificância e não escreva críticas de filmes de amor. Elas serão todas ridículas.
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5 ideias sobre “Filmes de Amor

  1. Luís Fernando Moura

    Belo texto. Com o receio de desconsiderar a pluralidade de amores e cair no estigma da única forma do amor (um amor irracional?). Mas algo tão pessoal assim não se discute.

    Resposta
  2. Leal Autor do post

    Desculpa a demora pra responder. Mas não acredito no amor racional, desconsidero completamente a existência de algo assim. Para explicar melhor, vai aí um texto do Edgar Morin, que fala melhor do que eu.

    “A idéia de se poder definir o gênero homo atribuindo-lhe a qualidade de sapiens, ou seja, de um ser racional e sábio, é sem dúvida uma idéia pouco racional e sábia. Ser Homo implica ser igualmente demens: em manifestar uma afetividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; em carregar consigo uma fonte permanente de delírio; em crer na virtude de sacrifícios sanguinolentos, e dar corpo, existência e poder a mitos e deuses de sua imaginação. Há no ser humano um foco permanente de Ubris, a desmesura dos gregos.

    A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira. Mas sem as desordens da afetividade e as irrupções do imaginário, e sem a loucura do impossível, não haveria élan, criação, invenção, amor, poesia.”

    Resposta
  3. Rodrigo Almeida

    Uma imagem que me vem na cabeça sobre essa oposição amor x racionalidade é de quando você conversa com uma pessoa apaixonada, que está sofrendo muito e lhe chama para conversar atrás de possíveis conselhos. Pois é, sou conselheiro sentimental nas horas vagas. O que acontece é que a situação do relacionamento e a resolução do problema podem parecer (e geralmente, me parece) muito óbvias e assim o é para quem está de fora, justamente porque pode recorrer a todos os artífices da razão. Entretanto, para quem está dentro, vivendo por dentro, apaixonado, a situação e a resolução tomam uma complexidade da qual a razão não pode nem se aproximar. Não há uma explicação do sentimento. Quem está de fora pode estar vendo, até entendendo, mas não está sentindo. Quem está dentro, sente antes de entender, ver… tudo. Óbvio que essa oposição não se dá de maneira tão maniqueísta: acredito que exista uma série de degraus, variante de pessoa a pessoa, que aproxima o amor da razão, mas acho que quando estes opostos se tocam, um deixa de existir. Ou o amor ou a razão.

    Quanto escrever sobre filmes de amor, acredito que existam níveis bem diferentes de produções, como em tudo, mas não digo tanto em termos valorativos, mas no próprio tratamento dado ao amor e as visões possíveis do amor. Eu geralmente me abstenho de comentar o conjunto dos filmes de amor (se bem que não consigo enxergar de onde parte e até onde vai essa categoria…), porque eu iria repetir incansavelmente algumas piadas – assumo, geralmente acho brega pra caralho. O que me parece ser uma de suas críticas principais nesse texto: uma crítica a uma certa falta de tato (no meu caso ariana) ao amor. Pelo menos to no caminho certo, porque pensei ‘own que fofo’ na cena de Juno aí citada… e terminei o filme com lágrimas nos olhos.

    E coloca a referência dessa citação do Edgar Morin… o livro ou link pelo menos.

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  4. Pingback: Existe amor em SP, mas talvez não o que eu quero ter | O blog do pé quebrado

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