Arquivo mensal: fevereiro 2008

O suspense entre a vida e a morte em Colateral



(Por Fernando Mendonça)

O processo da análise de um filme sempre tem por objetivo refletir os inúmeros aspectos nele existentes, enquanto obra artística que tem algo a revelar. Pode-se admitir que o cinema, assim como todas as formas de arte que se utilizam de recursos narrativos para contar algo, tem em seu produto duas facetas básicas a serem analisadas: o conteúdo e a forma. Ligado intimamente ao enredo de um filme, o ‘conteúdo’ evoca o desenvolvimento da própria narrativa, os princípios e elementos simbólicos nela existentes, preocupando-se quase exclusivamente com o que sua história tem a oferecer. Por outro lado, a ‘forma’ refere-se à como esse conteúdo foi exposto, de que maneira a história foi contada. Em um filme, a ‘forma’ diz respeito às técnicas utilizadas, a que meios cinematográficos se recorreu para alcançar determinado efeito ou sentido narrativo. É com essa compreensão que iremos observar o filme Colateral, do cineasta americano Michael Mann (2004). Sucesso de bilheteria, esse produto hollywoodiano está muito distante do mero espetáculo escapista, oferecendo inúmeros pontos de reflexão tanto moral como estilisticamente. Por isso, o que buscamos nessa análise é um equilíbrio entre os aspectos formais e de conteúdo extraídos do filme.

O SER VILÃO

Antes de qualquer consideração, convém apresentar uma rápida Continuar lendo

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A Sintaxe da Terra de Dentro



Por André Antônio

Li numa crítica sobre Coração selvagem (Wild at heart, 1990) que David Lynch, seu dietor, tinha “sensibilidade pós-moderna”. Depois de ver o filme, ponderei por algum tempo e concluí que a afirmação deve ser analisada com mais profundidade – pois ela pode querer dizer qualquer coisa, uma vez que o termo “pós-moderno” hoje em dia é usado de maneira muito vaga e despreocupada, atribuído a todo e qualquer fenômeno. Levemos em conta, no entanto, que “pós-modernista” é aquela cultura que se forma para legitimar o novo estágio de evolução do capitalismo (chamado de, dentre outros termos, “capitalismo tardio”), mais ou menos depois dos anos 60. Nessa época, a consciência aguda da institucionalização das vanguardas e o insucesso em fugir da “reciclagem” (transformação em mercadoria) feita pela indústria cultural de movimentos contrários ao “status quo” levam a uma diluição das barreiras entre arte erudita e cultura de massa (uma desistência da “luta estética” das vanguardas e a incorporação, à arte, de estratégias do que se considerava a produção cultural para o divertimento e controle das massas). O pós-modernismo tem como base uma lógica de pensamento que se concretizara com a teoria pós-estruturalista: uma descrença na história, na verdade e uma apologia ao descentramento.

Dentro desse campo de forças culturais, não há apenas uma possibilidade de movimentação para o artista. Por exemplo, a descrição que segue do pós-modernismo pode ser constatada em várias produções Continuar lendo

Entre suspenses: Uma aproximação de Antonioni à obra de Hitchcock



Por Fernando Mendonça

O suspense é, há muito, considerado um dos mais acabados gêneros cinematográficos, pois para ter uma narrativa funcional utiliza o jogo de câmeras, o ‘visto’ e o ‘não visto’, além de toda uma gama de técnicas e possibilidades, existentes somente na forma artística em questão. Desenvolvido, aperfeiçoado e popularizado por Alfred Hitchcock (1899-1980), homem que soube associar sua imagem e nome à sua arte e gênero, o suspense é, igualmente, o tema e abordagem principais de uma obra do cineasta Michelangelo Antonioni (1912-2007): “Blow Up” (UK / Itália / EUA, 1966). O que se pretende aqui é justamente um delineamento dos principais paralelos entre esses notórios realizadores, no caso, a obra geral do primeiro e o filme citado do segundo. Apesar de toda a filmografia de Antonioni ser profundamente dotada de aspectos filosóficos, aspectos esses que se multiplicam em “Blow Up“, o foco de análise percorrido nesse texto será a existência do suspense; o que o motiva, o que o gera, o que provêm dele, como é alcançado em “Blow Up“? Estudar seu suspense tendo por base o melhor suspense que o cinema teve é, sem dúvida, a mais eficiente maneira de se alcançar uma resposta.

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Sem rodeios, “Blow Up” traz em sua trama um personagem (Thomas) que se vê envolvido em um assassinato. Fotógrafo profissional, Thomas certo dia se encontra a trabalhar em um idílico campo e tem sua atenção atraída por Continuar lendo