Daisy Miller (EUA, 1974), de Peter Bogdanovich

Por André Antônio

“Frederick, what I really think is that you had better not meddle with little American girls who are—as you mildly put it—uneducated.”

O que diferencia as imagens que temos diante de nós? Dentre as coisas que não cessam de passar através da materialidade violenta da vida, o que cairá para sempre no esquecimento e o que, pelo contrário, pesará incontrolavelmente na memória do eu como um fantasma? Talvez, essas perguntas ajudem a entender o que, no cinema, parece fascinar o norte-americano Peter Bogdanovich, a quem o Cineclube Dissenso dedica uma sessão neste sábado (3), às 14h, na Fundaj (Sala João Cardoso Aires). O filme é Daisy Miller, de 1974, sobre uma leviana jovem americana (Cybill Shepherd) que, no século XIX, está de férias na Europa com sua família nouveau riche e lá conhece Frederick (Barry Brown), um cavalheiro aristocrata que, por algum motivo, a acha misteriosamente fascinante. O roteiro foi baseado no romance homônimo de Henry James.

Quem espera do filme, porém, qualquer espécie de “aprofundamento psicológico” na personagem-título vai se decepcionar. Porque o filme, antes de tudo, é menos sobre Daisy e mais sobre o que ocorre quando Frederick olha para ela. Uma das marcas mais fortes da encenação de Bogdanovich é o uso do plano subjetivo: quando o mundo, mostrado ao espectador pela câmera, é filtrado pela relação subjetiva ou sentimental que o personagem que estabelece com esse mundo. O que interessa ao filme é menos desvendar o “interior” de seus personagens e mais se entregar às opacidades e sentimentos que as relações do olhar humano criam.

Pois são justamente essas relações, surgidas do olhar subjetivo, que estabelecem a diferença entre as imagens da vida: aquelas banais, que passam e não nos pertencem, e aquelas que permanecem a nos assombrar. O estilo de Bogdanovich é, ao mesmo tempo, simples, discreto (seus planos subjetivos nunca “entregam” um significado fechado, dado, para a relação que eles instauram), chamando pouca atenção para si, e ao mesmo tempo preciso e incisivo naquilo que vai aos poucos construindo: um peso incontrolável para o passado. Os personagens de Bogdanovich sempre carregam, envergados, esse peso. O cinema parece fascinar o diretor na medida em que, nele, essas relações adquirem um importância impressionante ao incorporarem o poder do tempo. O mundo que ele constrói, assim, se assemelha a um palco onde as coisas se sucedem de maneira muito rápida e, mal tendo tempo de decidir o que fazer, já estamos melancolicamente arrependidos daquilo que não fizemos, mas deveríamos ter feito. Talvez exatamente por essa amargura do arrependimento os críticos falem que Bogdanovich possui – ao contrário de seus conterrâneos da Nova Hollywood (Cimino, Scorsese, De Palma, Coppola) – uma “sensibilidade europeia”.

A emoção que borbulha no que é mais conhecido de Bogdanovich entre nós – filmes como Lua de papel (1974), A última sessão de cinema (1971) ou Marcas do destino (1985) – talvez seja mais dificilmente tateada na diegese de Daysi Miller, que compartilha com Barry Lyndon o mesmo universo de costumes e convenções sociais, e portanto se distancia de uma dimensão mais melodramática. Porém, talvez por isso mesmo seja possível ver de maneira mais clara o que Bogdanovich está aperfeiçoando para construir o plano cinematográfico que é sua marca: um plano subjetivo, relacional e pretérito. Após a sessão, debate na própria sala da exibição.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Daisy Miller (EUA, 1974), de Peter Bogdanovich
Sábado, 3 de marçoo de 2012, às 14h, com debate após a sessão
FUNDAJ – Sala João Cardoso Aires
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

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