Arquivo mensal: abril 2009

Veneno com açúcar

Por André Antônio

O início de As virgens suicidas (EUA, 1999) é dividido em algumas seqüências. Antes destas, porém, temos um plano – o primeiro do filme – onde Lux, a personagem de Kirsten Dunst, aparece terminando de comer um picolé, de maneira até um pouco agressiva. Esse “choque” visual que temos nos insere de imediato no universo diegético pop-anos 70 que o filme vai explorar. A primeira seqüência é uma montagem de planos abertos mostrando a tranqüila e modorrenta vizinhança onde o enredo se desenrolará: pessoas passeando com seus cachorros, vizinhos regando o jardim, o sol penetrando suavemente pelas folhas das árvores (algumas destas recebendo aviso de corte por causa de fungos), crianças jogando basquete… Somos embalados, com efeito, pelo som “chapado” do Air. Um corte brusco e seco nos leva à segunda seqüência: a música pára (é substituída por um som distante de sirene), saímos dos exteriores e vamos a um interior: o banheiro da casa da família Lisbon. Ouvimos a voz do narrador que nos conduzirá pelo resto do filme: “Cecilia was the first to go”. Teremos aqui novamente uma montagem de planos sem diálogo: vemos a referida garota com olhos abertos dentro de uma banheira com água misturada a sangue, seu resgate (ela ainda não está morta…), a ambulância partindo, o rosto preocupado e apreensivo da mãe (Kathleen Turner, ótima) e dos vizinhos cuja tranqüilidade cotidiana foi perturbada. Continuar lendo

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A Imagem e a Vida: A Onipresença do Acaso (Parte 1)

Por Fernando Mendonça

Uma festa. Um jovem. Insatisfeito com o ambiente retira-se sem ser percebido. Na rua, caminha. Entra em um bonde. É madrugada. Trabalhadores cansados. Pessoas solitárias. Uma jovem distraída numa parte vazia do veículo. Um flerte. Aproximação de olhares. Quase sorriso. Ele não resiste. Mas tenta. Aproxima-se enquanto ela parece adormecer. A possibilidade do toque. Carinho. Um recuo inesperado. Fuga. Salta do bonde. Pelo vidro embaçado um último desejo. Distância. Vê o bonde partir. Nunca mais. Percebe o erro. Arrependimento. Angustiada corrida. Gritos. Tarde demais?

5 minutos. O tempo necessário para em O Bonde / Tramwaj (1966), o jovem Krzysztof Kieslowski (1941-1996), polonês ainda estudante de cinema, experimentar e criar sua primeira obra, plenamente digna do aposto ‘prima’. Minutos de transbordante poeticidade já contaminados pela tônica formal e temática que permearia toda a carreira do cineasta mesmo quando em sua maturidade. Como explicá-los? Como racionalizar a necessidade da pureza poética na estréia de um artista que dedicaria às duas décadas posteriores, filmes com foco no registro do documental? Pois ainda que o olhar sensível seja inerente ao seu estilo de ‘filmagem realista’, somente nos anos 80 ele voltaria a experimentar o eminentemente poético Continuar lendo

A Imagem e a Vida: Imitação e Realidade (Parte 2)



Por Fernando Mendonça

“Ao homem é natural imitar desde a infância – e nisso difere ele dos outros seres, por ser capaz da imitação e por aprender, por meio da imitação, os primeiros conhecimentos -; e todos os homens sentem prazer em imitar.”

ARISTÓTELES

Imitamos.

Aprendemos.

Gozamos.

Isso nos faz humanos?

***

Tenho imaginado por aqui as dificuldades de um artista para iniciar sua obra, seja ela um objeto específico ou um conceito de carreira. Afinal, foi dentro da última hipótese que discutimos num primeiro momento a realização dos dois primeiros curtas de Krzysztof Kieslowski (1941-1996). Mas se é interessante imaginar a coragem de um autor para começar Continuar lendo

Se não há filme

Por Sônia Lessa Norões

Se não há filme, não se pode assisti-lo, e se não há quem o assista, também não há filme.

A construção desse ciclo vicioso não é tão obvio como parece. Percorre as mesmas dificuldades que enfrentou Aristóteles, em 300 a.C., quando refletiu sobre a relação entre o número e o numerante (quem pensa o número). Confusão ampliada pela compreensão da evolução da matéria: antes da aparição do cérebro humano já existiam as leis físicas que os números representam. (O astrofísico canadense Hubert Reeves conta bem essa história, no livro  Malicorne – Reflexões de um observador da Natureza.

Assim é um filme.

O público assiste o filme, significante de uma mensagem veiculada através de recursos técnicos também portadores de uma semântica, de um significado. A direção e o roteiro já expressam significados nas técnicas escolhidas para veicular significantes de uma mensagem percebida no caleidoscópio da existência humana. Podemos complicar este raciocínio inicial se introduzimos a reflexão de Henry Laborit, o biólogo autor da tese que é tema do filme “Meu tio na América”, de Alan Resnais. Laborit, no texto Escrita e Conhecimento, que faz Continuar lendo

Cronenberg como ciência



Por Rodrigo Almeida

Necessitamos de um mundo imaginário para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar (e que, talvez, em realidade não passe de outro mundo imaginário)”.

Paul Feyerabend, Contra o Método (1977, p. 42/43)

Alguns dos cinéfilos mais místicos acreditam que uma das melhores formas de se compreender um cineasta em toda sua complexidade não é percorrer sua filmografia filme a filme, ler seus aforismos um a um, conhecer o contexto histórico que o gerou, ter detalhes ínfimos de cada produção, racionalizar suas escolhas estéticas ou conhecer toda sordidez dos amores e amantes que ocupavam o outro lado da cama, mas, simplesmente, assistir com a cara lisa ao seu primeiro longa. Permanent Vacation (EUA, 1980) serviria para desvendar Jamursch, assim como Acossado (França, 1960) para entender Godard e O Bandido da Luz Vermelha (Brasil, 1968) nos diria, sozinho, em que lugar do panteão encaixar Rogério Sganzerla. É como se fosse possível através de uma única obra vislumbrar todas as outras, como se O Sétimo Continente (Áustria, 1989) antecipasse Funny Games (Áustria, 1997) ou Dementia 13 (EUA, 1963) nos introduzisse no estilo de O Poderoso Chefão (EUA, 1972), dotando as imagens primeiras de uma confissão metonímica que revela Continuar lendo