Arquivo mensal: junho 2011

Respite (2007) e Workers Leaving the Factory (1995), de Harun Farocki

Por Hermano Callou

O que chamamos hoje de “linha de tiro”, o eixo imaginário que orienta o olho humano no ato de mirar um alvo, um dia recebeu o enigmático nome de “linha de fé”. “Fé” indica a lacuna que impede que a tomada de vista se converta de imediato em disparo, o momento que o olho perscruta o visível e o questiona. O fato de a expressão ter caído em desuso parece revelador de uma experiência histórica de instrumentalização da visão, que recalca o labor interpretativo presente em todo ato de ver. Restituir ao olhar tal potência é o grande projeto que Harun Farocki desenvolve desde o final dos anos 1960, no qual investiga sistematicamente diferentes dispositivos em que o olhar é capturado e modulado pelo poder, como a vigilância, o consumo, a televisão e a guerra, para retirar-lhes a eficácia. O Cineclube Dissenso exibe este sábado (02/07), no Cinema da Fundação, dois trabalhos em média-metragem do cineasta, Respite (2007) eWorkers Leaving the Factory (1995), que oferecem um pequeno panorama de uma obra decisiva, produzida à margem das salas de cinema tradicionais.

Respite é um ensaio sobre as imagens de arquivo em 16 mm do campo de concentração nazista de Westerbork, na Holanda. As imagens pertencem ao gênero “filme institucional”, cuja função nos acostumamos a associar à divulgação e a promoção das atividades de uma determinada empresa. O trabalho de Farocki consiste na elaboração de um pensamento cinematográfico capaz de emancipar tais imagens de sua função instrumental e publicitária para revelar a partilha do visível e do invisível que funda sua condição de legibilidade.  O corpo a corpo com a matéria visual, permitido pela aliança dissensual entre imagem e palavra, é capaz de dar a ver no filme o que resiste a toda tentativa de controle: o excesso indecidível de toda imagem. Recuperar tal excesso é percorrer as linhas de fuga que permitem que outras histórias sejam contadas nos interstícios da narrativa nazista, histórias sobre trabalho e lazer, esperança e morte.

Workers Leaving the Factory é um trabalho de arqueologia. O primeiro filme dos irmãos Lumière, Workers Leaving the Lumière Factory, é o ponto de partida para uma história da relação entre imagem e trabalho, que Farocki faz o inventário, recorrendo a toda uma iconografia de portões de fábrica, entradas e saídas de operários, início e fim de expediente produtivo, resgatada do cinema clássico e do moderno, de documentários institucionais e de propaganda. A equação entre o movimento dos trabalhadores e o movimento da imagem cinematográfica funciona como uma senha de acesso a todo um diagrama de poder, que se revela a partir da organização sensível do que oferecido ou subtraído ao olhar.

Com o compromisso de pensar a cinefilia enquanto investimento estético e político do olhar, o Cineclube Dissenso encontra nos dois filmes de Farocki momentos-chave do cinema contemporâneo. Expoentes da obra madura de Farocki, os filmes devem funcionar como uma abertura à sua longa trajetória artística, com cerca de 90 trabalhos. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Respite (2007) e Workers Leaving the Factory (1995), de Harun Farocki
Sábado, 02 de julho de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

Trem de sombras (Espanha, 1997), de José Luis Guerín

Por Luís Fernando Moura

Um rosto, dois rostos, semi-rostos, rostos completos, despedaçados. Talvez uma transversal onipresente no cinema do espanhol José Luis Guerín seja a profusão de rostos à deriva de um tempo em expansão, o desejo fortuito de alcançá-los, talvez petrificá-los, quem sabe libertá-los da peregrinação. O da utópica Sylvia, que um alter-ego jovial do cineasta persegue entre tantos rostos de mulheres, em La ciudad de Sylvia (2007) – e no seu documentário-decupagem-fotográfica análogo, Unas fotos em la ciudad de Sylvia (2007). Os dos transeuntes torneados pela construção-instalação de um condomínio de classe média, achados & perdidos no território regressivo de Em construção (2001). Ou o de um reimaginado John Ford, encaixotado nas imagens de Innisfree (1990).

Não se trata de uma essencialização quem sabe bressoniana de um projeto de cinema, mas de uma intuição quase estatística: Guerín filma rostos, muitos, sempre, inegavelmente. Eles se eternizam em imagens obcecadas pela materialidade das expressões, despertados por uma sensualidade anárquica, que persegue a corporalidade mais tangível na trivialidade dos instantes. Talvez aí esteja a tão recorrente comparação de seus filmes com o Primeiro Cinema, os determinantes laboratórios dos Lumière: a descoberta do encanto performático em pequenos acontecimentos encenados por um esforço exaurido de permanente encontro, reencontro, fabulação, refabulação.

Tais rostos se expandem, porém: oscilam entre rostos e janelas para mundos compartimentados. Se há uma marca de documentarização radical em seus filmes, ela se dá através do desbravamento de rostos em circulação por territórios que os mascaram e os escancaram, rostos que carregam o peso micro-histórico de narrativas deslumbradas por um espaço-tempo desbravado aos poucos. Nas ruas de Sylvia, a desolação de um peregrino na francesa Estrasburgo, ou a dissolução da decadência arquitetônica na Barcelona de Em construção, suprimida pelo opulento espetáculo do boom imobiliário. Neste Trem de sombras (1997), exibido esta semana no Dissenso, um retorno fúnebre e encantado aos filmes caseiros do advogado parisiense Gérard Fleury, registros de família restaurados e resgatados por um personagem sem nome, 70 anos depois. Os rostos, claro, numa materialidade à Blow up, são examinados na película maltratada pelo tempo, obsessivamente.

Se a garimpagem da presença será insuficiente, porém, é necessário reencenar, ficcionalizar trajetórias. Em Trem de sombras, um ultra-laboratorial Guerín retorna aos espaços habitados pela família de Fleury na tentativa de co-habitá-los pela montagem. A imagem desvela a passagem da claridade e da escuridão de um mundo rematerializado, abatido pelo vento e pelo vácuo, que iluminam e movimentam os ambientes possíveis de um passado desestabilizado em reencontro. Ainda peregrino, Guerín reencena momentos filmados nos velhos 8mm, corporificando lembranças numa ficção em cores, com atores-sósias. Talvez um esforço para nos aproximar, via imagem-habitat, de um chá da tarde quem sabe possível, uma volta na bicicleta pelo antigo jardim p&b, a invasão inventada num frame originário do desconhecido Fleury, e no seu rosto.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Trem de sombras (Espanha, 1997), de José Luis Guerín
Sábado, 18 de junho de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

Le tombeau d`Alexandre (França / Finlândia, 1993), de Chris Marker

Por André Antônio

A maior parte de nós conhece Chris Marker através, principalmente, de seu curta-metragem La Jetée, de 1962: uma montagem de fotografias que cria uma atmosfera pós-apocalíptica de ficção científica para falar sobre viagem no tempo. Pouco mais de trinta anos depois, em 1993, Marker continua explorando dois elementos já fortemente presentes em La Jetée: as potencialidades da montagem e os poderes da memória e do confronto com o passado. É este o convite que Le tombeau d`Alexandre, exibido este sábado (11) às 14h no Cineclube Dissenso, faz ao espectador. Essa continuidade na carreira de Marker só se deu conjuntamente à radicalização de outras duas dimensões: o diálogo estético com outras mídias e suportes, esfacelando os limites confortáveis de uma poética “do cinema” e o claro interesse pelas mudanças, afetos e sensibilidades da esquerda política e sua tradição.

Le tombeau d`Alexandre é um trabalho em vídeo que Chris Marker realizou para a televisão. O Alexandre do título é Alexandre Medvedkin, um cineasta russo de depois da Revolução de 1917, colega de Eisenstein e Vertov, mas um nome até hoje obscuro e desconhecido. Medvedkin e a escavação de seus trabalhos (a maior parte dos quais censurados já por Stalin) é, na verdade, apenas o ponto de partida de Marker para revisitar a Rússia revolucionária e enxergar de um ponto de vista completamente diferente seus desdobramentos atuais. Le tombeau d`Alexandre vai da queda do Tzar à Perestroika, mas Marker evita qualquer traço de cronologismo. Sua montagem relaciona num ritmo vertiginoso filmagens da Rússia atual, entrevistas, arquivos esquecidos, trechos de filmes da vanguarda revolucionária, found footage, num vai-e-vem que torna o passado que o interessa inevitavelmente presente e faz de “Alexandre” um significante metonímico que parece alegorizar todo um sentimento que, mesmo em 2011, não parece estranho a nós.

É por isso que a Marker interessa o vídeo: suas possibilidades de montagem e manipulação (as quais Marker faz questão de expor) lhe dão uma liberdade única. Um plano filmado em película revela coisas que antes era impossível ver sem as sobreposições, texturas, conexões, cores lavadas e a desauratização da imagem eletrônica. Os documentários de Marker podem, assim, incomodar os que buscam um discurso de “pureza” que tenta atingir o “real” diretamente e sem mediações. Afinal, Marker não apenas ostenta a manipulação, mas é também especialista na voz over. Em Le tombeau d`Alexandre, ouvimos uma narrador organizar a montagem alucinada de elementos em seis “cartas” que Marker escreveu a Medvedkin – mesmo este já estando morto. Paradoxalmente, é a partir dessa manipulação confessa e dessa preponderância do “off” ensaístico e pessoal (que talvez já conheçamos do longa Sem Sol) que os blocos de afeto e os deslocamentos sensíveis a que Marker almeja no trabalho com suas imagens venham à tona com força para o espectador.

Le tombeau d`Alexandre não enxerga a Rússia socialista com os olhos desencantados de alguém que considera o passado fechado e inacessível. Em Marker, a montagem é, ao mesmo tempo, um ato de memória e de história. Um ato que declaradamente parte do presente, mas de uma espécie de presente político, cheio de camadas profundas a serem exploradas, onde o que percebemos das coisas é na verdade o modo como conectamos traços, rastros e ruínas do que veio antes de nós. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Le tombeau d’Alexandre (França / Finlândia), de Chris Marker
Sábado, 11 de junho de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby