Arquivo da tag: Godard

Radical Chic

Por Pedro Neves

Ao glamour da violência revolucionária,
ao anseio secreto que ela evoca na mais dócil das almas…

Don DeLillo, Players

“A beleza está na rua”, diziam os cartazes e muros pichados de Paris em maio de 1968. As revoltas e greves ocorridas naquele mês na capital da França entraram para a história e para a mitologia pop como o ponto máximo de uma revolução que mudou o mundo. Os eventos de maio são em geral considerados um fracasso político, com a violência evaporando rapidamente, os operários voltando para o trabalho e o Partido de De Gaulle liderando com força redobrada as eleições seguintes. Mas os ideais libertários da juventude, maturados durante toda década e ecoados em diversas partes do mundo, tomaram o centro do palco e derrubaram – pelo menos em teoria – as tradições conservadoras da velha guarda.

O que torna o maio de 68 tão icônico é justamente a participação dos jovens nas revoltas. As imagens mais reproduzidas desse mítico mês são de estudantes na rua, fazendo barricadas, jogando coquetéis molotov, lutando contra a polícia. E essas imagens são reproduzidas principalmente pelo cinema. O cinema apropriou-se do maio, porque de alguma forma ele foi parcialmente responsável por sua eclosão. Reza a lenda que as revoltas começaram com a tentativa de demissão de Henri Langlois, co-fundador e diretor da Cinemateca Francesa, por iniciativa de André Malraux, Ministro da Cultura. Talvez mais importante seja notar que os anseios e insatisfações da juventude e seus novos valores estavam intimamente ligados à Nouvelle Vague, o movimento que abalou o cinema clássico francês.

Jovens, irreverentes e iconoclastas, os diretores da Nova Onda reivindicavam outra forma de fazer cinema, mais livre das convenções clássicas, das fórmulas do bom gosto, da caretice. Aproveitando o recente desenvolvimento de câmeras menores e mais leves, tiraram o cinema da segurança do estúdio e Continuar lendo

Anúncios

A palavra neutra 3x



Por Rodrigo Almeida

Numa primeira visão desatenciosa, presa a uma mera busca vanguardista (o que era – é? – determinante no meu olhar durante minhas incursões pelo cinema da década de 60), não me parece muito difícil achar, atualmente, Jules e Jim (França, 1962), de François Truffaut um filme bobo. Talvez bobo até demais. Também não me parece muito difícil ainda no ritmo desse primeiro lampejo, refletir como a fortuna crítica dessa produção elogiada repetidamente desde seu lançamento até hoje – soa um tanto excessiva, deslumbrada. As contemporâneas me parecem ainda mais idiotas cheias de repetições e repetições como se ainda estivessem em 1961. Afe Maria, como diria minha avó. Se formos ser sensatos e estabelecermos uma comparação próxima, o trabalho do cineasta francês se mostra pouco ousado diante do cinema que era produzido por seus contemporâneos (de Nouvelle Vague ou de não-Nouvelle Vague). E não tenho como negar que desde sempre me acostumei a preferir Godard à Truffaut, Resnais à Truffaut, Bresson à Truffaut mantendo uma imensa dívida por não conhecer melhor os cinemas de Eric Rohmer, Claude Chabrol e Jacques Rivette para poder seguir com a lista ou diminuí-la vertiginosamente. Para mim, o próprio Truffaut-crítico se destaca diante do Truffaut-cineasta.

Nunca disfarcei uma antipatia enorme pela simpatia enorme de François; sempre o considerei extremamente conservador e monotemático, tomando como parâmetro a diversidade e a ousadia das produções Continuar lendo