O Tempo do Lobo (França/Áustria/Alemanha, 2003), de Michael Haneke

O Tempo do Lobo

No próximo sábado (30/06/2012), às 14h, na Sala João Cardoso Ayres, o Cineclube Dissenso retoma as suas atividades exibindo o filme ‘O Tempo do Lobo’ (França / Áustria / Alemanha, 2003), do diretor Michael Haneke. Premiado várias vezes no Festival de Cannes, inclusive recebendo a última Palma de Ouro pelo ainda inédito ‘Amor’, o diretor foi reconhecido internacionalmente por produções como ‘Violência Gratuita’ (1997), ‘A Professora de Piano’ (2001) e ‘Cachê’ (2005), afirmando a secura e rigor de um projeto de cinema em que imagens invocam direta ou indiretamente circunstâncias violentas. O próprio Cineclube já exibiu anteriormente duas produções do aclamado cineasta, ‘O Sétimo Continente’ (1989), seu primeiro filme e o não menos perturbador ‘Benny’s Vídeo’ (1991). A entrada é gratuita e após a sessão, debate na mesma sala de exibição.

‘O Tempo do Lobo’ se passa num contexto pós-apocalíptico de textura bucólica, ou seja, sem qualquer parafernália robótica tão comum às visões futuristas, e acompanha a jornada pela sobrevivência de uma família, cuja matriarca é interpretada pela parceira constante, Isabelle Huppert. Os sobreviventes vão se agregando em pequenas comunidades, desenvolvendo novos parâmetros sociais, repensando toda uma ordem do consumo e se protegendo como podem de um mundo decadente e hostil, onde os relógios já não servem para nada.

Durante o lançamento do filme, a crítica internacional comentou que Haneke estava, enfim, revelando as nuances de seu humanismo, deixando transparecer, ainda que de maneira dura, uma crença na humanidade, geralmente obtusa em outras obras. No entanto, tal perspectiva surge inundada de ambiguidade, com presença do tédio, do pessimismo, da incomunicabilidade e do desespero na relação entre os indivíduos, marcas que consolidaram seu nome no cenário cinematográfico contemporâneo. Imperdível.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
O Tempo do Lobo (França/Áustria/Alemanha, 2003), de Michael Haneke
Sábado, 30 de junho de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Sala João Cardoso Ayres
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609

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Level five (1997), de Chris Marker

Imagem

Neste sábado (9), às 14h, o Cineclube Dissenso propõe uma sessão que dialoga com o projeto Política da Arte, da Fundação Joaquim Nabuco. Enquanto a Galeria Vicente do Rego Monteiro exibe (a partir desta quarta, dia 6), a série “O legado da coruja” (1989), de Chris Marker, o Dissenso projeta “Level five”, longa de 1997 de Marker – nome frequente no cineclube, que já exibiu dele “Um dia na vida de Andrei Arsenevitch” (2000) e “Le tombeau d’Alexandre” (1992).

“Level five” traz Catherine Belkhodja no papel de Laura, a programadora de computador que precisa finalizar um jogo de estratégia iniciado por seu falecido ex-amante. Suas dificuldades se concentram no nível cinco do jogo, a histórica Batalha de Okinawa. Esta foi uma das mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial: após o combate com as tropas americanas, sem alimentos e abandonados pelo governo, o Exército Imperial japonês induziu a população local ao suicídio coletivo como alternativa à rendição.

Já foi dito que “Level five” é, em determinada medida, a refilmagem de “Hiroshima mon amour” na era do computador. O casal de amantes foi substituído por um casal singular: o computador e uma mulher que, por meio dele, dialoga com o amante desaparecido. Marker traz à tona a memória da Segunda Guerra através das possibilidades da imagem virtual e digital, não para dar uma explicação definitiva e fechada aos fatos ocorridos no passado, mas para fazer o que Marker faz melhor: instaurar a crise, voltar incessantemente a uma imagem, congela-la para enxergar nela algum detalhe essencial que passou despercebido e afirmar a heterogeneidade irredutível das visibilidades e temporalidades do mundo.

Após o filme, debate na mesma sala da sessão, a João Cardoso Ayres.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Level five (França, 1997) de Chris Marker
Sábado,9 de junho de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609
O espectador pode, depois da discussão, descer um lance de escadas e continuar mergulhando no trabalho de Marker assistindo a “O legado da coruja”, cuja curadoria é de Moacir Dos Anjos:

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO

GALERIA VICENTE DO REGO MONTEIRO

 O LEGADO DA CORUJA

CHRIS MARKER

 [6 DE JUNHO A 2 DE SETEMBRO DE 2012]

O Legado da Coruja  (L’Héritage de la Chouette) é um dos mais instigantes e dos menos conhecidos dos muitos projetos realizados pelo cineasta francês Chris Marker ao longo de uma trajetória de trabalho que já conta seis décadas. É sua mais ambiosa intervenção no meio televisivo e foi exibido originalmente nas televisões francesa e inglesa, em 1989, como uma série de 13 episódios. Depois disso, foi mostrado apenas algumas poucas vezes em festivais internacionais de cinema, sendo inédito no Brasil. Filmado em cinco cidades em um período de dois anos e contando com 59 convidados, tem como foco conceitos ou questões surgido s na Grécia Antiga que persistem importando como elementos organizadores do pensamento corrente no mundo ocidental. A coruja, animal que simboliza a busca por conhecimento, aparece como guia nessa jornada.

Os temas dos 13 episódios são: Simpósio, Olimpíadas, Democracia, Nostalgia, História, Matemática, Logomarca, Música, Cosmogonia, Mitologia, Misoginia, Tragédia e Filosofia. Ao longo de 5 horas e 30 minutos, o espectador é confrontado com a origem dessas palavras na Grécia Antiga e com a sua relevância para a criação e persistência das noções de Ocidente e de Europa.

Cada episódio é conduzido pela fala de reconhecidos pensadores e artistas, permeadas por imagens que Chris Marker filma ou seleciona das mais variadas fontes e edita de modo original. O que emerge desse extenso painel não é, contudo, um panorama homogêneo e pacificado sobre aquele legado, mas um campo de disputa de posições e de conceitos onde há lugar para o contraditório.

Se a relevância de O Legado da Coruja na trajetória de Chris Marker e seu ineditismo no Brasil já justificam sua apresentação – sendo exemplo, ademais, do potencial reflexivo que o meio televisivo já teve e que hoje parece não possuir mais –, exibi-lo em um momento de grave crise financeira, social e política na Europa o reveste de interesse particular. E é justamente na busca por articular o trabalho do artista feito em 1989 e a situação corrente do mundo que ele buscava entender a partir do legado cultural grego que se ancora a presente exposição.

Apontada pelo Banco Central Europeu e pela União Europeia como uma das maiores responsáveis pela progressiva fragilização do padrão monetário europeu, a Grécia tem sido constantemente ameaçada de ser excluída da Zona do Euro, sendo obrigada, para evitar esse desfecho traumático para todos, a penalizar gravemente a sua população mais desprotegida, garantindo assim os ganhos dos bancos que financiaram o endividamento do país e que muito lucraram com isso.

É irônico, senão paradoxal, que justamente o país cuja cultura mais contribuiu para a ideia de um mundo que se quer proteger do colapso esteja sendo culpabilizado pela crise que se abate sobre ele hoje. E que seja por meio da adoção de políticas que levam à redução do crescimento, ao desemprego e ao desmonte de políticas de amparo social que se busque preservar uma ideia de coesão econômica, social e política na Europa inteira.

Para marcar a atualidade do projeto de Chris Marker, a exposição é dividida em duas partes, cada uma delas ocupando uma sala da Galeria Vicente do Rego Monteiro. Em uma delas, são exibidos os 13 episódios de O Legado da Coruja, projetados em sequência, de modo que a cada dia da exposição a série é mostrada integralmente. Na segunda sala de exposição, foi criado um ambiente de pesquisa e debate, em que informações sobre o artista, sobre o seu projeto e sobre a crise atual na Europa são disponibilizados aos visitantes por meio de jornais, revistas, livros e outros vídeos. Além disso, profissionais de áreas diversas do conhecimento são convidados a refletir e a discutir, nesse ambiente e em outros da instituição, O Legado da Coruja e as circunstâncias de sua exibição aqui propostas.

A exposição possui, assim, duas camadas distintas que se articulam: o trabalho de Chris Marker e o contexto específico em que ele é aqui inscrito e oferecido ao público. Sem pretender criar uma ligação imediata e clara entre um e outro, o que a mostra quer é ativar a importância de (re)visitar O Legado da Coruja a partir do sentimento de urgência que a recente crise europeia desperta. O que se busca, portanto, é construir uma plataforma de debate e reflexão sobre fraturas do mundo atual a partir dessa singular produção do artista feita há mais de duas décadas.

NOTA BIOGRÁFICA

Chris Marker (Paris29 de Julho de 1921) é cineastafotógrafoescritor e artista multimídia francês. Entre seus seus filmes mais conhecidos e stão La Jetée (O Molhe, 1962), Le fond de l’air est rouge (O fundo do ar é vermelho , 1977) e Sans Soleil (Sem Sol, 1983), nos quais lida, de modo original, com questões da memória e da história e com as possibilidades e os limites de se ser protagonista no mundo.

Tendo estudado filosofia sob a tutela de Jean-Paul Sartre, Chris Marker se juntou ao movimento de resis tência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, começou a escrever e a fazer filmes. Les statues meurent aussi (As estátuas também morrem,1953), que co-realizou com Alain Resnais, é celebrado como um dos primeiros filmes anticolonialistas da história do cinema.

O trabalho de Chris Marker começou a ser reconhecido internacionalmente quando realizou La Jetée. Esse filme de ficção científica conta a história de uma experiência de viagem no tempo a partir de um futuro pós-nuclear, e é construído por meio de uma fotomontagem em preto-e-branco acompanhada de narração e efeitos sonoros. Em Le fond de l’air est rouge, articula imagens documentais de manifestações, conflitos e movimentos políticos ocorridos em partes diversas do mundo entre o final da década de 1960 e meados da seguinte, traçando um painel dos incertos rumos da história da humanidade no período.

Em Sans Soleil, Chris Marker de novo articula arquivos de filmes e fotografias, fazendo uma fusão entre imagens documentais e comentários filosóficos, compondo uma atmosfera de sonho e ficção científica. Depois de Sans Soleil, desenvolveu um profundo interesse na tecnologia d igital, que o levou a realizar o filme Level 5 (Nível 5, 1997) e o cd-rom interativo IMMEMORY (1998).

Chris Marker, aos 90 anos de idade, é considerado um dos mais influentes cineastas para os jovens criadores nos campos das artes visuais e do cinema, por seu pioneirismo na quebra das fronteiras entre ficção e documentário, no uso da tecnologia digital e por seu engajamento radical com o mundo onde vive.

 

A exposição O LEGADO DA CORUJA dá seguimento ao projeto Política da Arte, desenvolvido pela Coordenação de Artes Visuais da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (MECA) da Fundação Joaquim NabucoIniciado em 2009, o projeto compreende a realização de mostras e ações reflexivas, articulando dimensões distintas, mas igualmente importantes, das atividades da Fundação Joaquim Nabuco. O projeto Política da Arte tem como pressuposto a noção de que mais do que dar visibilidade a imagens, textos e ideias criados em outras partes, a arte é capaz de, a partir dela mesma, desafiar os consensos e acordo s que organizam e apaziguam a vida. Ao embaralhar os temas e as atitudes que a cada lugar e momento cabem no campo do possível, a arte aponta para a possibilidade do novo e tece a sua própria política.

Calvário (Bélgica, França, Luxemburgo, 2004), de Fabrice Du Welz

Neste sábado, 26 de maio, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe um dos filmes que melhor representa a nova safra do cinema de horror europeu: o belga “Calvário” (2004), de Fabrice Du Welz. Premiado em Festivais especializados no gênero, a obra nos apresenta um cantor (Laurent Lucas) que tem sua van quebrada e consegue abrigo numa pequena e estranha vila. Envolvido pelo administrador da pousada em que se hospeda, ele descobre que não mais poderá abandonar o lugar, ficando aprisionado num pesadelo sem fim. “Calvário” tem a participação especial de Brigitte Lahaie, ícone do cinema pornô francês e igualmente musa nos filmes de gênero. A sessão, que marca a entrada de Osvaldo Neto no quadro de curadores do Cineclube Dissenso, ocorrerá na Sala João Cardoso Aires, sendo imediatamente seguida de debate aberto ao público. A entrada é franca.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Calvário (Bélgica/França/Luxemburgo, 2004) de Fabrice Du Welz
Sábado, 26 de maio de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609

Kaos (Itália, 1984), de Paolo & Vittorio Tavianni

Por Fernando Mendonça

Neste sábado, 12 de Maio, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe Kaos (Itália, 1984), um dos mais importantes trabalhos dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, recentes vencedores do Urso de Ouro em Berlim. Inspirado em contos de Luigi Pirandello, o filme assume sua relação com o escritor desde o título, derivado de um nome dado ao bosque (Cávusu, de mesma origem grega) localizado na região da Sicília em que Pirandello nasceu. Nome literal e alegórico, característico de um autor que comprova por seus escritos ser Filho do Caos, de uma força típica das paisagens que a Itália meridional evoca, o sentimos nas imagens dos Tavianni desde a abertura dos créditos: uma panorâmica que se repete por todo o filme, interligando os episódios narrativos.

Nos aproximados 180 minutos de Kaos, as intrigas se aglomeram: O Corvo de Mizzaro (breve prólogo); O Outro Filho; O Mal da Lua; O Vaso; Réquiem; Colóquio Com a Mãe. Cada um dos textos vê restituído em imagens o interesse criativo de Pirandello, num estilo árido, seco, privilegiado pela simplicidade visual típica aos diretores. Atmosfera que coaduna toda uma perspectiva outrora assumida pela literatura: em Pirandello, as coisas são o que são, e por mais que elas se resumam à forma fixa de um ponto de vista (sempre questionável enquanto produto da realidade), nunca sabemos se o lugar por elas ocupado pode definir-se como de sanidade ou de loucura, como de fato ou ficção, apropriado ao riso ou à lágrima.

Dando continuidade ao flerte que sempre aproximou seu cinema das letras clássicas, os Tavianni encontram nos escritos de Pirandello o motivo por excelência de sua própria Modernidade: a permanente dúvida diante do que se vê. Para o escritor, uma imagem narrativa nunca é totalizante, pois não pode ser sentida senão pela metade, enquanto fragmento de um mundo rompido e esvaziado de concretude objetiva. Da mesma forma, vemos no cinema dos irmãos italianos, um equivalente desejo pela manutenção do enigma, onde todo e qualquer realismo (no caso, um pós-neorealismo) só pode ser efetuado mediante um desregramento da ordem natural, um inevitável caos.

A sessão ocorrerá na Sala João Cardoso Aires, sendo imediatamente seguida de um debate aberto ao público. A entrada é franca.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Kaos (Itália, 1984), de Paolo & Vittorio Tavianni
Sábado, 12 de maio de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609

Contra’s City (Senegal, 1969) + A Viagem da Hiena (Senegal, 1973) de Djibril Diop Mambéty

Imagem

Neste sábado, 28 de abril, às 14h, o Cineclube Dissenso realiza uma sessão com dois filmes do diretor senegalês Djibril Diop Mambéty: Contra’s City (1969) e A Viagem da Hiena (1973), respectivamente, seu primeiro curta e primeiro longa-metragem. São trabalhos que concentram o registro irônico característico de sua filmografia, com destaque para o contraste entre cosmopolitismo e relações sociais do cotidiano senegalês. Aliás, a complexa elaboração audio+visual em ambas as produções rendeu a Mambéty o apelido de ‘Godard Negro’, fazendo dessas primeiras incursões no campo do cinema uma porta de iniciação a todos que desconhecem seu trabalho. A sessão ocorrerá na Sala João Cardoso Aires, sendo imediatamente seguida de debate aberto ao público. A entrada é franca.
SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Contra’s City (Senegal, 1969) + A Viagem da Hiena (Senegal, 1973) de Djibril Diop Mambéty
Sábado, 28 de abril de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609

O Pássaro das Plumas de Cristal (Itália, 1970), de Dario Argento

Por Luiz Soares Junior*

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O pássaro das plumas de cristal, que o Dissenso exibe neste sábado (31) às 14h, contém uma espécie de programa de todo o cinema de Argento, um cinema sobre os trompe l’oeils da imagem – suas potências de conhecimento e  ilusão, de manipulação e fascínio. O ponto de vista em seu cinema é uma arena onde somos obrigados a entreter um literal “corpo a  corpo” com a  imagem; a câmera se encarna em distintas perspectivas – o assassino, a  vítima, um animal, qualquer corpo que encontremos ou que nos encontre pelo caminho; ela percorre  a trajetória de uma enquête, mas não apenas policial; cognitiva e fenomenológica. Sam vê da vitrine de uma galeria o “que lhe parece” ser uma mulher sendo agredida. Mas por que Argento se detém maniacamente sobre esta sequência inicial – fazendo-a retornar ao longo do filme em repetidos flash-backs, analisando-a e diferindo-a através de zooms, câmera lenta, blows up? O que se intenta aqui, nas palavras de Nicole Brenez, é um estudo da imagem (autópsia?). O que parecia possuir um status objetivo – registro de caso, um testemunho alicerçado no raccord de direção do olhar, “fato” – revela-se como enigma, puzzle. O domínio das imagens em seu cinema não delineia uma superfície, mas escava um palimpsesto. Toda imagem recobre e é recoberta por outra imagem; tudo o que nos aparece exige uma investigação arqueológica e um rastreamento topográfico, pois o fenômeno é apenas a ponta de um iceberg. Qual o status de uma imagem? Alucinação, prova circunstancial, impressão? Sam vai ter de esperar pelo fim do filme para transformar aquela imagem entrevista – flash fotográfico – num plano de cinema: anexar-lhe o fora de campo, o ponto de vista correto, o som off, e enfim aceder à visão justa: a adequação entre o percebido e o real, o Logos e o Ser.

É ao longo do filme que este des-velamento/revelação da imagem originária vai se dar. Se a imagem, à semelhança do recalcado, necessariamente volta e assombra o filme, é porque possui veios insuspeitos, um Logos que nos esquecemos de sondar, um sentido que aspira à expressão. Aqui, não apenas o homem interroga as imagens, mas é por elas interrogado. Se os personagens “deixaram passar” o evento testemunhado (o crime na galeria, o quadro com o rosto do assassino em Profondo rosso, o sonho recorrente da decapitação em Quatro moscas), a  câmera não se pode permitir este luxo. Argento parece ter levado a sério o credo de Freud segundo o qual o que é recalcado pela consciência é o que permanece mais decididamente presente em nós; se esquecemos o estupro, ele não se esqueceu de nós, e permanece infiltrado em nosso gesto casual, nossa nonchalance.  A imagem em seu cinema carrega o estigma do trauma; toda imagem abriga em seu bojo uma profundidade insuspeita, um longo e tenebroso passado, fantasmagórico fora de campo para o filme. Ver um filme é operação que consiste na retificação/ratificação da primeira imagem, daquela que desencadeou a cadeia de crimes, a linha de produção de significantes. É inserir a imagem primeva (o domínio da infância , do fantasma) no circuito da linguagem, dotá-la de significação, domá-la; e nesta operação, exorcizar um tanto de seu fascínio mortífero.

Argento é um maneirista, mas não apenas por votar um culto necrófilo ao passado, a uma certa História do cinema  (o caligrafismo, Bava, Tourneur), e por se empenhar na reconstituição suntuosa e ritualística deste passado. Sobretudo por fazê-lo criticamente, estilhaçando a  harmonia clássica com táticas como o faux-raccord e o raccord no eixo da câmera ou, no domínio da narrativa, com esta contraposição dialética entre dois regimes de imagens, este choque entre duas experiências do signo: o descritivo e o narrativo. Em seu cinema , começamos com o delineamento das coordenadas do drama ou de uma atmosfera: campo e  contracampo da perseguição da vítima pelo assassino, pontos de vista que intensificam a sensação às expensas da lógica causal, coups de théatre. Súbito, temos a interrupção ou o atropelo de um regime por outro, agora descritivo: são-nos apresentadas as armas do assassino, erótica e lancinantemente acariciadas pela câmera, o seu lidar e ser lidado pelos instrumentos da morte. Se Argento parece cultivar a belle image – o esplendor e o fascínio clássicos – é um pouco à semelhança destes bichos miméticos que parecem esposar a  aparência do predador para no momento certo darem o bote e devorá-lo. A sua arte é uma máquina perversa de  suscitar cintilações e crispações em superfícies consagradas (o thriller, o giallo, a herança hitchcockiana, o conto gótico), e assim revelar toda a dor e a delícia de que uma imagem é capaz.

* Luiz Soares Junior escreve para a Revista Cinética e mantém o blog de traduções Dicionários de Cinema.

SERVIÇO

O Pássaro das Plumas de Cristal (Itália, 1970), de Dario Argento

Sábado, 31 de março de 2012, às 14h, com debate após a sessão
FUNDAJ – Sala João Cardoso Aires
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita



Ménilmontant (França, 1926), de Dimitri Kirsanof + Zero de Comportamento (França, 1933), de Jean Vigo

Neste sábado, 17 de março, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe os médias-metragens franceses Ménilmontant (1926), de Dimitri Kirsanoff, e Zero de Comportamento (1933), de Jean Vigo. Partindo das sinfonias urbanas, o primeiro constrói a tragédia de duas irmãs, órfãs de pais assassinados, que tentam sobreviver à realidade da metrópole parisiense. Já o segundo utiliza-se da comédia para apresentar a insurreição anarquista de um grupo de alunos internos, abraçando o surrealismo próprio às primeiras fases da vida de seus protagonistas. Filiando-se a movimentos cinematográficos de forte contraste formal – o Impressionismo Francês e sua utilização de efeitos pictóricos para evocar o subjetivo e o inefável, no caso de Kirsanoff, e o Realismo Poético e sua ênfase no caráter imanente das tragédias sociais cotidianas, caso de Vigo – assistí-los em sequência permite perceber as inúmeras formas com que eles transcendem estas tendências e aproximam-se na busca por uma escrita poética, em oposição à prosa cinematográfica hegemônica.