Silvia Prieto (Argentina, 1999), de Martín Rejtman

Por Fábio Ramalho

Nos três longas-metragens que podem ser apontados como centrais para a filmografia do cineasta argentino Martín Rejtman – Rapado (1992), Silvia Prieto (1999) e Los guantes mágicos (2003) – há em comum o interesse por sensibilidades que se delineiam a partir de certos recortes geracionais: a adolescência, a crise iminente dos trinta anos, a proximidade dos quarenta. Dentre eles, Silvia Prieto, que o Cineclube Dissenso exibe no próximo sábado (10), às 14h, no Cinema da Fundação, é não apenas o filme que demarca com maior radicalidade o momento em que desponta um novo cinema argentino nos anos noventa, mas também aquele que, articulando humor nonsense e uma maneira de olhar as banalidades cotidianas e os espaços da cidade – aqui, notadamente, a capital argentina –, traça um caminho muito peculiar dentre as vertentes realistas predominantes no cinema latino-americano contemporâneo. Como disse Gonzalo Aguilar, o cinema de Rejtman é aquele que dá corpo ao sentimento que assola personagens que, com o advento de certa idade, descobrem que são sempre “menos do que pensavam que iriam ser”. Daí a resolução inicial de mudar de vida – movimento que desencadeia o relato – e daí também o crescente despojamento empreendido pela Silvia Prieto interpretada por Rosario Bléfari.

A mobilidade dos personagens, no que diz respeito às formas possíveis de estabelecer aproximações, sugere algo como uma capacidade de aderir ao entorno e vincular a esse contato circunstancial as suas determinações pessoais, profissionais e amorosas – sempre estabelecidas em curto prazo, inconsistentes, mesmo quando implicam projetos que se pretendem de absoluta transformação. A instituição de tais dinâmicas encontra reforço na circulação constante de valores e objetos que em inúmeros momentos se sobrepõe como elemento organizador da experiência, determinando a direção e o ritmo dos acontecimentos, orientando o registro. E não apenas objetos, mas também as pessoas circulam, são intercambiáveis: os casais, os empregados (e seus uniformes), os moradores que dividem um quarto, os presos. Constituem-se pequenas ordens instáveis, sempre desfeitas pela instauração de uma nova ordem provisória, contingente.

O estabelecimento de tais circuitos atende, assim, a uma serialidade na qual, de um jeito ou de outro, todos os elementos do filme terminam por inserir-se. Tudo se desdobra, duplica-se e se multiplica em uma série de recorrências, retornos, reiterações que os personagens reforçam pela assimilação do cálculo e da quantificação como meios para organizar um mundo. Conta-se, no duplo sentido do termo – o da quantificação e o do relato – como se estes fossem sentidos indissociáveis e complementares. Há uma preocupação obsessiva com o cálculo como garantia de inteligibilidade – apego que alude, talvez, ao desejo de fixação de um sentido evanescente pela sua reordenação a partir de uma lógica muito própria; pelo requinte extravagante de eleger o detalhe como critério para apreensão da experiência.

Tais conexões e associações aleatórias expõem, também, o caráter convencionado que em maior ou menor grau sustenta todas as identidades. A exacerbação desse aspecto vem sobretudo pela questão do nome como um traço que é ao mesmo tempo marca pessoal e denominação arbitrária. De fato, se a afirmação de si pode se dar pelo nome como enunciação de um “eu sou…”, aqui ele perde o seu suposto traço distintivo pela constatação de que existem outras denominações idênticas. Aniquila-se, desse modo, a exclusividade que atestaria uma existência singular. O caráter ambivalente do nome se desdobra na reação de Silvia Prieto (Bléfari) à descoberta de que ela possui uma homônima (Mirtha Busnelli) vivendo em Buenos Aires. A reação a esse fato tem algo de despropositado, banal e irreverente, como todo o resto. Marca de um cinema que não se leva a sério: colocando em cena uma crise, presta-se ao cuidado de contornar qualquer tom de gravidade ou pretensão de transparência.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Silvia Prieto (Argentina, 1999), de Martín Rejtman
Sábado, 10 de setembro de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby
Entrada Gratuita

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