Fantasma (Argentina, 2006), de Lisandro Alonso

Por Fernando Mendonça

O esvaziar da tela, o apagar da luz, mecânicas de uma encenação cega, ofuscada pela ausência sofrida por um tempo que não mais deseja, mas lateja, uma fina teia de matéria. Fazer um filme, para Lisandro Alonso, é lapidar um espaço-dimensão, torná-lo concreto, ainda que de maneira agonizante ou moribunda. Da crueza que se concentra nos poucos títulos que o tornaram um expoente do jovem cinema argentino, seu filme Fantasma, a ser exibido este sábado (03/09) pelo Cineclube Dissenso, no Cinema da Fundação, é dos que mais terrivelmente atestam uma fragilidade particular ao ente cinematográfico, seja pelo exorcismo narrativo, como pelo perecível estado do que é físico e consequentemente filmável.

Da sinopse, temos um homem solitário que, numa sala de cinema, assiste a si próprio na tela. Este homem é Argentino Vargas, cidadão argentino, presença protagonista da película antecessora de Alonso: Os Mortos (2004). Mesmo filme exibido no cinema de Fantasma, exatamente na sala do Teatro San Martín, único lugar onde Os Mortos fora realmente projetado quando de seu lançamento em Buenos Aires.

Se as fraquezas do espaço finalmente se revelam no cinema de Alonso, isso acontece porque o espaço de seu interesse volta-se justamente para um lugar de lugares: a sala de cinema. Já não cabem os jogos de ficcionalização recorridos em seus filmes anteriores se agora é o próprio olhar ficcional o ser narrado, despido, abandonado pela ética do pseudo-documental. Fantasma é sim uma farsa, mas também é registro de fatos. Labirinto de corpos impossíveis e estranhos, perversidade do movimento. Nele, Alonso reintegra todos os elementos de sua trajetória (Misael Saavedra, protagonista de A Liberdade – 2001, também atravessa o cinema de Fantasma) concluindo não só o que ficou considerado uma trilogia particular, mas encerrando um posicionamento diante da imagem, de sua exibição, do tempo que decorre entre uma e outra, e que permanece.

Para registro, Fantasma se assume enquanto eco de outro filme-monumento sobre a sala cinematográfica: Adeus, Dragon Inn (Tsai Ming-Liang, 2003), também exibido pelo Cineclube. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Fantasma (Argentina, 2006), de Lisandro Alonso
Sábado, 03 de setembro de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

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