Coração Fantasma (França, 1996), de Philippe Garrel

Por André Antônio

É preciso sonhar. Coração Fantasma (Coeur Fantôme, 1996), dirigido pelo francês Philippe Garrel e exibido este sábado, 16, no Cineclube Dissenso, possui uma montagem elíptica e uma forma lacônica de construir planos com decupagem mínima, no limite da rarefação do sentido e da narrativa. Mas, se toda essa sua simplicidade franciscana pode e parece dizer algo, é isso: é preciso sonhar.

No centro do filme, o receptáculo dos sonhos é Philippe (Luis Rego), um pintor que se apaixona por uma jovem, mas que não consegue enxergar o mundo sem a sombra dos fantasmas do seu passado afetivo. A condição de Philippe é a condição do sonhador: de certo modo, ele já viveu demais, já viu coisas demais. O sentido das coisas está melancolicamente suspenso para ele, e ele precisa busca-lo cada vez mais longe, no passado, nos sonhos, mas também, ao mesmo tempo, numa espécie de aventura longínqua através do mundo material mais cru – dialética que a própria estética de Garrel, conjurando um forte romantismo a partir das operações cinematográficas aparentemente mais “básicas”, parece duplicar.

Essa condição de Philippe, à mercê do vazio e do sem-sentido como à beira de um abismo, é a condição que assombra a geração pós-Nouvelle Vague de que Garrel faz parte – uma geração que também é pós-1968, marcada por um sentimento de nostalgia e de impotência frente à irracionalidade das coisas, e na qual figuram diretores como Jean Eustache (que suicidou-se em 1981) e Maurice Pialat.

O nome Philippe no personagem não é coincidência: a autobiografia é uma característica constante na filmografia de Garrel. Podemos, assim, procurar ou buscar referências ao próprio passado de Garrel no filme, a seus amores findos, a seus filhos e a sua geração. Podemos vê-lo na própria condição de artista que o personagem como pintor enfrenta no sistema econômico de nossos dias. Podemos vê-lo sobretudo em sua relação com o pai – o pai do personagem é interpretado pelo próprio pai de Garrel, que é ator: Maurice Garrel. No entanto, nada disso tira a força de Coração Fantasma como filme autônomo mesmo para quem jamais ouviu falar em Philippe Garrel.

Se a inclinação autobiográfica e o minimalismo lacônico podem ser vistos ao longo de quase todos os trabalhos de Garrel desde os anos 70, Coração Fantasma faz parte do que os críticos chamaram de “fase narrativa” de Garrel, a mais recente: diferentemente dos experimentalismos mais “radicais” de fases anteriores, o gosto pela narrativa – mesmo que etérea e vaporosa – prevalece e se constitui como um tipo diferente, menos óbvio, de radicalismo.

Mesmo nessa nova fase, porém, a melancolia continua, mas é só com ela que os sonhos ganham a força que ganham nos filmes de Garrel. Sonhos que, em Coração Fantasma, ele faz questão de não filmar de maneira diferente do restante do filme onde os personagens estão “na realidade”. Talvez essa indistinção, como se o próprio mundo fosse um sonho a ser explorado infinitamente, seja a maior riqueza do filme. E Garrel já disse, em entrevista, que sempre se interessou por filmar seus próprios sonhos.

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