Mercado Humano (EUA, 1949), de Anthony Mann

Por Fernando Mendonça

Retomar o registro do cinema clássico americano a partir de um nome como Anthony Mann é deparar-se com uma configuração primeira de cinema trágico, ou seja, em crise, solitário, concentrado, lírico, e profundamente transformador. Pensando o deslocamento realizado pela carreira de um diretor artesão da narrativa, o Cineclube Dissenso exibe este sábado (09/07), no Cinema da Fundação, um filme que convida a uma reavaliação do próprio cinema nos idos dos anos 40, ou por que não, do que ainda hoje abordamos, retratamos e questionamos com o cinema: Mercado Humano (1949).

Em primeiro lugar, sobre a renovação de Mann, podemos centrá-la em dois eixos que partem diretamente do lugar dramático, lugar por excelência do diretor: o objeto narrado, pois um enredo nunca fora tão importante em seu cinema, e o objeto que narra, pois enfim o tratamento estético de sua mise en scène não precisa concentrar-se em blocos isolados de cenas. Em segundo lugar, Mercado Humano sobrevive como uma obra de transição do próprio cinema americano, um ápice do clássico que dá continuidade a um projeto de cinema o qual podemos enxergar o início lá em 1940, no eterno Ford de Vinhas da Ira. O filme de Mann narra os problemas com a imigração ilegal dos mexicanos para o território americano, e como alguns deles se submetiam a uma espécie de tráfico humano para conseguir adentrar na desejada nação, uma espécie de retorno à escravidão (tema dos mais atuais ainda em 2011).

Assim como os gregos foram pautados pela homogeneidade do mundo/das formas, em Anthony Mann teremos um amálgama dos dois ambientes clássicos por excelência ao cinema americano, num equilíbrio quase indiscernível de tão sutil. Apesar de seu lugar histórico e cultural (Hollywood) não permitir maiores arroubos de vanguarda, Mann não se deixou calar, chegando a abrir uma ferida nessas convenções. O rompimento nos limites dos gêneros, algo que só encontraria destaque nos cinemas novos pós-60, é prioridade para o diretor a cada filme realizado; daí encontrarmos saloons e desertos nos becos sujos dos ambientes urbanos (noir), assim como expressividade de sombras e formas na abertura das paisagens do velho oeste (western).

À solidão a que seus personagens são confinados acrescente-se o signo da falta, a potencialidade de uma ausência que percorre cada um dos filmes de Anthony Mann, cineasta da desesperança. De sua obra afirma-se um vazio agenciador do estado solitário do indivíduo. E é na solidão que o Trágico se configura; dela vem à luz a plenitude do lírico, única alternativa discursivo-estética que o homem moderno encontra para permanecer trágico. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Mercado Humano (EUA, 1949), de Anthony Mann
Sábado, 09 de julho de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

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