Respite (2007) e Workers Leaving the Factory (1995), de Harun Farocki

Por Hermano Callou

O que chamamos hoje de “linha de tiro”, o eixo imaginário que orienta o olho humano no ato de mirar um alvo, um dia recebeu o enigmático nome de “linha de fé”. “Fé” indica a lacuna que impede que a tomada de vista se converta de imediato em disparo, o momento que o olho perscruta o visível e o questiona. O fato de a expressão ter caído em desuso parece revelador de uma experiência histórica de instrumentalização da visão, que recalca o labor interpretativo presente em todo ato de ver. Restituir ao olhar tal potência é o grande projeto que Harun Farocki desenvolve desde o final dos anos 1960, no qual investiga sistematicamente diferentes dispositivos em que o olhar é capturado e modulado pelo poder, como a vigilância, o consumo, a televisão e a guerra, para retirar-lhes a eficácia. O Cineclube Dissenso exibe este sábado (02/07), no Cinema da Fundação, dois trabalhos em média-metragem do cineasta, Respite (2007) eWorkers Leaving the Factory (1995), que oferecem um pequeno panorama de uma obra decisiva, produzida à margem das salas de cinema tradicionais.

Respite é um ensaio sobre as imagens de arquivo em 16 mm do campo de concentração nazista de Westerbork, na Holanda. As imagens pertencem ao gênero “filme institucional”, cuja função nos acostumamos a associar à divulgação e a promoção das atividades de uma determinada empresa. O trabalho de Farocki consiste na elaboração de um pensamento cinematográfico capaz de emancipar tais imagens de sua função instrumental e publicitária para revelar a partilha do visível e do invisível que funda sua condição de legibilidade.  O corpo a corpo com a matéria visual, permitido pela aliança dissensual entre imagem e palavra, é capaz de dar a ver no filme o que resiste a toda tentativa de controle: o excesso indecidível de toda imagem. Recuperar tal excesso é percorrer as linhas de fuga que permitem que outras histórias sejam contadas nos interstícios da narrativa nazista, histórias sobre trabalho e lazer, esperança e morte.

Workers Leaving the Factory é um trabalho de arqueologia. O primeiro filme dos irmãos Lumière, Workers Leaving the Lumière Factory, é o ponto de partida para uma história da relação entre imagem e trabalho, que Farocki faz o inventário, recorrendo a toda uma iconografia de portões de fábrica, entradas e saídas de operários, início e fim de expediente produtivo, resgatada do cinema clássico e do moderno, de documentários institucionais e de propaganda. A equação entre o movimento dos trabalhadores e o movimento da imagem cinematográfica funciona como uma senha de acesso a todo um diagrama de poder, que se revela a partir da organização sensível do que oferecido ou subtraído ao olhar.

Com o compromisso de pensar a cinefilia enquanto investimento estético e político do olhar, o Cineclube Dissenso encontra nos dois filmes de Farocki momentos-chave do cinema contemporâneo. Expoentes da obra madura de Farocki, os filmes devem funcionar como uma abertura à sua longa trajetória artística, com cerca de 90 trabalhos. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Respite (2007) e Workers Leaving the Factory (1995), de Harun Farocki
Sábado, 02 de julho de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

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