Trem de sombras (Espanha, 1997), de José Luis Guerín

Por Luís Fernando Moura

Um rosto, dois rostos, semi-rostos, rostos completos, despedaçados. Talvez uma transversal onipresente no cinema do espanhol José Luis Guerín seja a profusão de rostos à deriva de um tempo em expansão, o desejo fortuito de alcançá-los, talvez petrificá-los, quem sabe libertá-los da peregrinação. O da utópica Sylvia, que um alter-ego jovial do cineasta persegue entre tantos rostos de mulheres, em La ciudad de Sylvia (2007) – e no seu documentário-decupagem-fotográfica análogo, Unas fotos em la ciudad de Sylvia (2007). Os dos transeuntes torneados pela construção-instalação de um condomínio de classe média, achados & perdidos no território regressivo de Em construção (2001). Ou o de um reimaginado John Ford, encaixotado nas imagens de Innisfree (1990).

Não se trata de uma essencialização quem sabe bressoniana de um projeto de cinema, mas de uma intuição quase estatística: Guerín filma rostos, muitos, sempre, inegavelmente. Eles se eternizam em imagens obcecadas pela materialidade das expressões, despertados por uma sensualidade anárquica, que persegue a corporalidade mais tangível na trivialidade dos instantes. Talvez aí esteja a tão recorrente comparação de seus filmes com o Primeiro Cinema, os determinantes laboratórios dos Lumière: a descoberta do encanto performático em pequenos acontecimentos encenados por um esforço exaurido de permanente encontro, reencontro, fabulação, refabulação.

Tais rostos se expandem, porém: oscilam entre rostos e janelas para mundos compartimentados. Se há uma marca de documentarização radical em seus filmes, ela se dá através do desbravamento de rostos em circulação por territórios que os mascaram e os escancaram, rostos que carregam o peso micro-histórico de narrativas deslumbradas por um espaço-tempo desbravado aos poucos. Nas ruas de Sylvia, a desolação de um peregrino na francesa Estrasburgo, ou a dissolução da decadência arquitetônica na Barcelona de Em construção, suprimida pelo opulento espetáculo do boom imobiliário. Neste Trem de sombras (1997), exibido esta semana no Dissenso, um retorno fúnebre e encantado aos filmes caseiros do advogado parisiense Gérard Fleury, registros de família restaurados e resgatados por um personagem sem nome, 70 anos depois. Os rostos, claro, numa materialidade à Blow up, são examinados na película maltratada pelo tempo, obsessivamente.

Se a garimpagem da presença será insuficiente, porém, é necessário reencenar, ficcionalizar trajetórias. Em Trem de sombras, um ultra-laboratorial Guerín retorna aos espaços habitados pela família de Fleury na tentativa de co-habitá-los pela montagem. A imagem desvela a passagem da claridade e da escuridão de um mundo rematerializado, abatido pelo vento e pelo vácuo, que iluminam e movimentam os ambientes possíveis de um passado desestabilizado em reencontro. Ainda peregrino, Guerín reencena momentos filmados nos velhos 8mm, corporificando lembranças numa ficção em cores, com atores-sósias. Talvez um esforço para nos aproximar, via imagem-habitat, de um chá da tarde quem sabe possível, uma volta na bicicleta pelo antigo jardim p&b, a invasão inventada num frame originário do desconhecido Fleury, e no seu rosto.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Trem de sombras (Espanha, 1997), de José Luis Guerín
Sábado, 18 de junho de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

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