Le tombeau d`Alexandre (França / Finlândia, 1993), de Chris Marker

Por André Antônio

A maior parte de nós conhece Chris Marker através, principalmente, de seu curta-metragem La Jetée, de 1962: uma montagem de fotografias que cria uma atmosfera pós-apocalíptica de ficção científica para falar sobre viagem no tempo. Pouco mais de trinta anos depois, em 1993, Marker continua explorando dois elementos já fortemente presentes em La Jetée: as potencialidades da montagem e os poderes da memória e do confronto com o passado. É este o convite que Le tombeau d`Alexandre, exibido este sábado (11) às 14h no Cineclube Dissenso, faz ao espectador. Essa continuidade na carreira de Marker só se deu conjuntamente à radicalização de outras duas dimensões: o diálogo estético com outras mídias e suportes, esfacelando os limites confortáveis de uma poética “do cinema” e o claro interesse pelas mudanças, afetos e sensibilidades da esquerda política e sua tradição.

Le tombeau d`Alexandre é um trabalho em vídeo que Chris Marker realizou para a televisão. O Alexandre do título é Alexandre Medvedkin, um cineasta russo de depois da Revolução de 1917, colega de Eisenstein e Vertov, mas um nome até hoje obscuro e desconhecido. Medvedkin e a escavação de seus trabalhos (a maior parte dos quais censurados já por Stalin) é, na verdade, apenas o ponto de partida de Marker para revisitar a Rússia revolucionária e enxergar de um ponto de vista completamente diferente seus desdobramentos atuais. Le tombeau d`Alexandre vai da queda do Tzar à Perestroika, mas Marker evita qualquer traço de cronologismo. Sua montagem relaciona num ritmo vertiginoso filmagens da Rússia atual, entrevistas, arquivos esquecidos, trechos de filmes da vanguarda revolucionária, found footage, num vai-e-vem que torna o passado que o interessa inevitavelmente presente e faz de “Alexandre” um significante metonímico que parece alegorizar todo um sentimento que, mesmo em 2011, não parece estranho a nós.

É por isso que a Marker interessa o vídeo: suas possibilidades de montagem e manipulação (as quais Marker faz questão de expor) lhe dão uma liberdade única. Um plano filmado em película revela coisas que antes era impossível ver sem as sobreposições, texturas, conexões, cores lavadas e a desauratização da imagem eletrônica. Os documentários de Marker podem, assim, incomodar os que buscam um discurso de “pureza” que tenta atingir o “real” diretamente e sem mediações. Afinal, Marker não apenas ostenta a manipulação, mas é também especialista na voz over. Em Le tombeau d`Alexandre, ouvimos uma narrador organizar a montagem alucinada de elementos em seis “cartas” que Marker escreveu a Medvedkin – mesmo este já estando morto. Paradoxalmente, é a partir dessa manipulação confessa e dessa preponderância do “off” ensaístico e pessoal (que talvez já conheçamos do longa Sem Sol) que os blocos de afeto e os deslocamentos sensíveis a que Marker almeja no trabalho com suas imagens venham à tona com força para o espectador.

Le tombeau d`Alexandre não enxerga a Rússia socialista com os olhos desencantados de alguém que considera o passado fechado e inacessível. Em Marker, a montagem é, ao mesmo tempo, um ato de memória e de história. Um ato que declaradamente parte do presente, mas de uma espécie de presente político, cheio de camadas profundas a serem exploradas, onde o que percebemos das coisas é na verdade o modo como conectamos traços, rastros e ruínas do que veio antes de nós. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Le tombeau d’Alexandre (França / Finlândia), de Chris Marker
Sábado, 11 de junho de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

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