Olhares sobre o olhar

Por Fernando Mendonça

Quando Danièlle Huillet fala sobre a capacidade que um suspiro tem de abarcar todo um romance, ou quando, no processo de edição fílmica, ela procura o movimento íntimo que nasce de um rosto, é reafirmada toda uma concepção de cinema que prioriza a dimensão do olhar, sua sensibilidade, sua maneira particular de encontrar o mundo e guardá-lo com um carinho próprio, nostálgico, vivo. Sob tais considerações encontramos a resistência de questionamentos que não abandonam a prática cinematográfica, seja na ordem imagética e final de um filme, no domínio autoral e criativo deste, ou mesmo no público que ele encontrará, naqueles que lhe concederão um olhar que não se diz último, mas prosseguidor de uma necessidade, de uma vontade pela sobrevivência.

No desejo de iluminar tais anseios, o ‘pertencimento’ surge como problema central do cinema. Seu deslocamento e desequilíbrio são o que permitem fazer de uma seleção de imagens a configuração de um mundo que se revela o mesmo e outro, um espaço em totalidade. Desde a criação do cinematógrafo, sob as experiências dos irmãos Lumière, estabelece-se um tipo de confronto, entre o mundo e a câmera, que se distancia completamente da apressada sensação de que enfim o mundo poderia ser capturado fidedignamente, pacificamente. Ao contrário, o que temos com os Lumière é a instauração de uma nova dúvida, uma abertura ao estético permeada pelo temor de um encantamento que não se permite pleno, estável.

Já não é possível falar de pertencer. O mundo em jogo altera o estatuto da posse, da condição primeira daquele que é dono, proprietário de algo físico. Com o cinema, o mundo perde a impressão de privacidade que lhe restava, e cada tomada de filmagem toma para si o que fora único, individual, solitário. É assim que o próprio feito dos Lumière, nas mãos de uma nova geração crítica (bem simbolizada pelo filme que Eric Rohmer faria no emblemático ano de 1968), enfrenta uma significativa e decisiva transformação, tão profunda em sua ideologia, capaz de influenciar toda a continuidade histórica do cinema, até os dias atuais. Pois no cinema, o olhar de quem filma, assim como o que é filmado, abre as possibilidades de referência ad infinitum, numa errância que não encontra sentido além do que é, por princípio, momentâneo.

Assim, Lumière é Lumière, mas também é algo mais sob o olhar de Renoir, de Langlois, sob o nosso olhar. E uma composição de imagens nunca se finda numa decisão irrevogável, completa, como comprovam as carreiras de Godard, Chris Marker, Wim Wenders e tantos outros que precisaram do olhar de outros para encontrar o seu particular, sua propriedade que também já não é exclusiva ou interrompida. Todos estes comprovam que posicionar o olhar é um ato do cinema que aproxima um diretor de seu público, todos interessados em diferenciar de alguma forma o mundo, em encontrá-lo, em tê-lo. Todos limitados, no fim das contas, pela altura de uma cadeira.

E se hoje, terminada a Mostra do Cineclube Dissenso, eu preciso vir aqui dizer alguma coisa, é porque de alguma maneira, algo (re)começou em mim. Enfrentada acima uma necessidade mínima de reflexão, assumo meu verbo, consciente de que parte dele não é minha, mas de todos. Pois todos nós, membros e curadores do Cineclube, sabíamos antes da Mostra que algo precisava acontecer, algo precisava ser visto.

Quero apenas registrar minha identificação, enquanto espectador, cinéfilo e cineclubista, de um amor que também pude sentir nas vidas e imagens dos filmes exibidos. Ora, assim como Straub e Huillet se distanciam no abismo existente em um segundo de filmagem, nós também encontramos tais fissuras no processo de discussão de temas, de seleção de filmes, de gostos pessoais, coletivos, e tantos outros pontos que nos levam ao interesse de organizar uma sessão. A cisão do casal de cineastas, como tão sensivelmente nos apresenta Pedro Costa, também é um ato de amor, um momento em que eles reafirmam seus votos, assim como sua fé, naquilo a que dedicaram suas vidas. Não deixam de se assemelhar ao nosso cuidado (não tão obsessivo, por favor) em desejar que uma sessão seja um lugar de encontro, um tempo a ser guardado, vivo, em nós.

Minha breve leitura, em um dos debates, das palavras de Tarkovski sobre o tempo como o fator principal que leva alguém a uma sessão de cinema, por sua vontade de reencontrar o tempo que se foi, que se perdeu, também resume aquilo que me tornou cinéfilo, consequentemente, o que me levou ao Dissenso. E é muito bom perceber que na Mostra o tempo foi ressignificado, restaurado, com as influências de cada um, membro, colaborador e público. Sem mais, deixo uma palavra de gratidão a todos que permitiram a realização da Mostra, dos amigos na Fundaj (Luiz Joaquim, Kléber, Vera e João) a todos que justificaram o êxito das sessões e debates, com suas presenças, seu interesse, com sua maneira de olhar.

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