Por um pouco de ausência

ENTREVISTA: PAULA GAITÁN

Por Luís Fernando Moura

No início do ano, a artista plástica e cineasta Paula Gaitán esteve no Recife para exibir Diário de Sintra, seu longa-metragem mais recente. Tive a oportunidade de conversar com ela por telefone, de onde saiu entrevista publicada no Jornal do Commercio. Aproveitando a sardinha – Paula é de uma simpatia elegante – fiz-lhe o convite para indicar um filme e exibir no Dissenso. Ela resolveu trazer dois – Vida (2007), seu longa anterior, e o curta Kogi (2009) –, mas foi embora no dia anterior à projeção. Uma pena, fui o culpado da sessão ser um fiasco inglês e atrasar horrores, sequer apareci.

Por conta do horário tardio, os amigos terminaram exibindo apenas Vida, que não foi lá exatamente um exemplo de boa recepção. Diário de Sintra, porém, volta à minha memória como um filme a ser redescoberto, de uma dedicação meticulosa à intimidade. O trabalho é uma joia estranha e irregular que gerou um livro de reflexões (edição da Confraria do Vento) organizado pelo crítico Rodrigo de Oliveira, onde há textos de Walter Salles, Cléber Eduardo, entre outros, além de uma longa entrevista com Paula.

Cinéfilos costumam procurar o filme pelo ensejo do cânone, já que ele resgata imagens de família feitas durante os últimos anos de vida de Glauber Rocha, então marido da cineasta. À época, 1981, Paula era uma estudante de artes visuais, os dois vivendo auto-exílio na cidade portuguesa de Sintra, dois filhos. Mais que homenagem em terceira pessoa, esperado lugar comum da viúva, Diário de Sintra é busca de Paula pelos silêncios de memória afetiva que parece se retroalimentar quando volta àquelas terras, já em 2007, e persegue a si mesma. Abaixo, nossa conversa resgatada do jornal, adaptada e sutilmente ampliada. Uma emersão, no mínimo, compensatória, em que Paula comenta o filme, revisão biográfica, e se mostra animada com cinemas que margeiam a indústria brasileira.

Luís Fernando Moura: Por que retomar as imagens de Diário de Sintra tantos anos depois?

Paula Gaitán: Trabalho com cinema há mais de 25 anos. Já fiz direção de arte em alguns filmes, como A idade da Terra, e comecei a fazer longas, vários filmes. Fiz muitos trabalhos em videoarte. Em 1994, fui para a Colômbia e passei a realizar documentários para a televisão. Chegou um momento que já tinha feito uma porção de filmes e resolvi buscar um estilo próprio. Quando me senti com certa maturidade, percebi que tinha uma necessidade de falar sobre mim mesma e resolvi realizar um filme feito em primeira pessoa. Filmei o material de Diário de Sintra em super 8, ainda muito jovem. Na época, tinha comprado uma câmera para fazer exercícios de fotografia, e filmava a natureza, meus filhos, o cotidiano, fazia uma espécie de diário da minha estadia em Sintra. Este é um filme íntimo que fala um pouco desse momento de Glauber comigo, mas não é um filme sobre Glauber. As pessoas se confundem às vezes, achando que se trata de uma história sobre ele naquele período. É um filme sobre como se dá o processo de construção de memória, e ele é parte da minha, já que as imagens reúnem os últimos meses que passamos juntos. Mas ele é tão protagonista quanto a cidade, a natureza, os meus filhos.

Luís: Quando você fez as imagens, pensou que serviriam de material para um filme ou era apenas registro pessoal?

Paula: Não, era apenas um exercício, parte de uma pesquisa estética. Vim das artes visuais, ainda testava meu controle da câmera. Fazia planos de observação. Quando voltamos à cidade, em 2007, levei uma equipe bem pequena, incluindo Pedro Urano, que assina a fotografia comigo. O filme é uma dupla viagem: é minha viagem física a Portugal, anos depois, e é uma viagem da memória, que é feita de vazios, de silêncios. A memória é fragmentada, não é linear. A gente a reconstrói porque parte do esquecimento, que baseia o surgimento de reminiscências. As pessoas costumam trabalhar o resgate de memória a partir de entrevistas. Aqui eu faço o inverso. Estou interessada no não reconhecimento do lugar, na estranheza em relação a um espaço que eu não ia há muito tempo. Eu redescubro este lugar, e Glauber é parte desta redescoberta. Para fazer parte das filmagens, levei fotos para camponeses, em especial uma foto protagonista, em que Glauber aparece, e perguntava: “Você conhece esta pessoa?” As pessoas em geral não o conheciam. Numa peixaria, uma mulher achou que ele fosse um ator de novela na televisão portuguesa. Cada um atribuía seu próprio imaginário. O movimento aqui não é do reconhecimento imediato, como na entrevista tradicional. Vamos à procura de camadas de memória para construir os personagens.

Luís: A distância do tempo permite que você ainda tenha intimidade com as imagens? Ou causa algum estranhamento?

Paula: Eu não via essas imagens com frequência, na verdade muito pouco. Quando as vi, tive vontade de retornar ao lugar. Realizamos algumas imagens idênticas às originais, outras completamente diferentes. O material antigo é cheio de fungos, foi estragando com o tempo, e preferi deixá-lo daquele jeito, arranhado. A própria materialidade da película contém os traços do tempo. É como se fosse a pele, que vai envelhecendo e ganhando rugas, e isso tem muito a ver com o filme. Você vê nitidamente quando vai de um material a outro. Há uma experiência onírica, imagética muito forte. As pessoas precisam ver com os sentidos espertos, atentos, é um filme de pouquíssimas falas.

Luís: A viagem foi necessária para restabelecer um elo com a memória?

Paula: Achei importante fazer o percurso de volta para entender o que aquilo iria despertar em mim. Este filme é uma reflexão em voz alta, é muito mais uma evocação que um filme descritivo sobre o período. Muitas lembranças tinham sumido, e eu queria trazê-las de volta para o presente. É importante esse movimento de reconhecimento. E não é um filme melancólico, tem um apelo à vida. Sentimos nitidamente a passagem do tempo, a passagem das estações. Há um fluxo temporal entre a vida, a morte, as sensações. Vamos da neve ao verão.

Luís: Os filmes de Glauber são bastante cerebrais, enquanto você desenvolve um trabalho fundamentalmente sensorial. De que forma a obra dele tem impacto sobre a sua?

Paula: Aprendi muito com Glauber sobre a liberdade artística, que era essencial para ele. Os filmes dele me inspiram, não nesse trabalho, mas em tudo o que faço. Me inspiro na estética do sonho, das possibilidades de criação. O que eu faço talvez não dialogue diretamente com o trabalho dele do ponto de vista da linguagem, mas termina dialogando por se tratar de um cinema que preza pela criação autoral, sem amarras e sem medo. Herdei de Glauber o amor pelo cinema. Me tornei professora, dou aula de videoarte e cinema experimental. Isso é um legado. Mas se eu fosse fazer uma crítica da minha obra, diria que ela tem relação maior com o cinema experimental americano, por exemplo. Meus filmes são mais baseados em tessituras e a imagem está em primeiro lugar. O tema está aí, mas a experiência é mais importante.

Luís: Seu próximo trabalho é uma ficção. Do que se trata e como surgiu esta passagem?

Paula: É um filme chamado Sobre a neblina, baseado no livro de mesmo nome de Christiane Tassis. Me apaixonei por ele e fiz uma livríssima adaptação. Ainda estou no momento de captar recursos, mas já estamos definindo o elenco, com planos de filmar esse ano. Acho que os três longas que fiz nunca foram propriamente documentários tradicionais, eles têm uma mise-en-scène própria que já contêm as bases da ficção, já que tratam da reinvenção da memória. São filmes de invenção. No próprio Diário de Sintra tem uma frase que é bem importante: “Caminhos que levam a Sintra ou talvez a lugar nenhum”. Digo essa frase logo no começo do filme e, de fato, nunca sei se vou a Sintra, se vou chegar lá.

Luís: Mas chega em algum lugar.

Paula: Nem todo os lugares aonde vou fui com Glauber, nem todos existiam naquela época. Isso é também o que acontece no cotidiano, quando você conta uma história para alguém. Para você mesmo, que é jornalista, por mais que haja uma fidelidade absurda no relato, sempre há reinvenção, uma certa fabulação. Por mais que parta de Glauber, este filme também parte de mim. O cinema mais interessante feito atualmente é aquele em que as passagens da ficção e do documentário estão diluídas, como no filme de ficção que ganhou Tiradentes (o cearense Estrada para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti). No Brasil, a gente se acostumou a uma forma muito viciada de produção de longa-metragem. Uma coisa grande, espetacular. Os mais jovens têm procedimentos mais interessantes, como é o caso do filme do novo de Karim Aïnouz e de Marcelo Gomes (Viajo porque preciso, volto porque te amo). As possibilidades estéticas são várias e nem sempre precisam de um grande aparato de mercado.

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