O showman e o autor

Por Chico Lacerda

O navio chegou a Fernando de Noronha. O mais gaiato dos passageiros-cinegrafistas exalta as belezas da ilha, as águas, as plantas, as rochas, o céu. “Até a areia é melhor que a de Boa Viagem, ela é comestível! Só não como agora porque não tô com fome”. Corta para um apresentador de terno saindo de trás de pesadas cortinas vermelhas, microfone em punho, para o centro de um palco. Não há som. Após alguns segundos dessa imagem, estamos de volta à praia, onde os passageiros do Pacific continuam a explorar a ilha.

A partir do fim do prólogo e título do filme e até o momento citado acima, Pacific (Brasil, 2009), de Marcelo Pedroso se organiza sob a estrutura rígida da narrativa clássica. Desde o embarque de um grupo de passageiros no aeroporto de Porto Alegre em direção ao Recife, as cenas sucediam-se cronologicamente, os espaços eram investigados de forma organizada, o que se ouvia correspondia ao que se via, ou pelo menos ao fora de campo adjacente.

Após 1 hora de filme, o plano do apresentador no palco é arremessado na tessitura narrativa, esgarçando-a: já tínhamos visto o mesmo plano em uma das noites de festa no navio, e sua repetição quebra o fluxo temporal; não só isso, pois a quebra espacial é igualmente violenta, da externa dia para a interna noite e de volta em alguns segundos; a falta de som acompanhando o plano e sua aparente falta de função narrativa aumentam o estranhamento, quase como se alguém o tivesse esquecido ali. Longe disso, ele parece cumprir algumas funções importantes no filme.

A primeira talvez seja a de mais fácil identificação, e a mais banal também por sua aparente obviedade: temos o passageiro-cinegrafista chegando ao ápice de suas tiradas improvisadas, incorporando completamente o papel de stand-up comic. O insert do apresentador chega para sublinhar esta semelhança, atribuindo ao passageiro as características daquele (showman, em cima do palco, microfone em punho).

Em segundo lugar, e talvez tendo o impacto mais forte, o insert serve para explicitar o papel discursivo do autor de Pacific. Até então tínhamos o filme nos moldes da narrativa clássica, com o natural apagamento da instância narradora que aquela implica, reforçado pelo caráter diverso das imagens: cada passageiro-personagem é também o produtor de suas próprias imagens, e assim esta é uma história contada em conjunto pelos passageiros – é a história de sua viagem de férias. Mas aí temos o plano do apresentador para bagunçar a narrativa e forçar o espectador a perceber o real organizador destas imagens, aquele que escolheu posicionar o plano ali, sem lógica aparente, a falta de som amplificando sua desnaturalização; forçá-lo a investigar as razões não só daquilo, mas de todo o restante da montagem. Neste sentido, o plano muito claramente sublinha o discurso do filme – separando-o dos discursos das imagens tomadas separadamente – e o produtor deste discurso, tornando o espectador consciente dos artifícios da narrativa clássica.

Este movimento é parente de um dos planos de Santiago (Brasil, 2007), de João Moreira Salles. Nele, o narrador comenta uma cena do filme original investigado, onde uma folha cai placidamente na piscina. Logo uma segunda e uma terceira folha caem no mesmo local, e o narrador se pergunta quais são as chances de isto acontecer na realidade. O artifício da cena é exposto, expondo a construção do filme original. Mas não só, pois temos o filme exterior ao filme, o próprio Santiago, também sujeito a toda sorte de manipulações, que podem ser investigadas pelo espectador, agora munido da desconfiança surgida com o movimento citado.

Por fim, os elementos plásticos do plano apontam para uma terceira função: o palco, as cortinas fechadas de vermelho forte, o apresentador que, pela falta de foco, aparece com o rosto desfigurado, não identificável, remetem aos mesmos elementos que, pela recorrência, se tornaram marca de identificação dos filmes de David Lynch. Estes, ao longo dos anos, buscaram investigar o surreal contido no aparentemente banal estilo de vida do americano médio. Assim, a referência pode fazer o olhar do espectador repetir o movimento destes filmes no próprio Pacific, identificando o absurdo de determinados elementos da organização da viagem, da oferta de entretenimentos, comidas, bebidas, alegrias. Enfim, fazê-lo olhar criticamente para aquela instituição que é o cruzeiro.

Anúncios

2 ideias sobre “O showman e o autor

  1. Poro

    Caros amigos,
    É com muita alegria que escrevemos para compartilhar a notícia: o documentário sobre o Poro ficou pronto e está disponível para ser assistido on-line:
    http://www.poro.redezero.org/video/documentario/

    O documentário aborda as principais intervenções urbanas realizadas entre 2002 e 2009 pelo Poro. Além das imagens e registros, boa conversa sobre arte no espaço público e questões tangentes. Produzido durante o ano de 2009 pela AIC (Associação Imagem Comunitária) em parceria com a gente e foi finalizado agora.

    Se você curtir o filme, pedimos a gentileza de ajudar na divulgação, indicando o link acima para outras pessoas, listas e redes que possam se interessar.

    Fique a vontade de baixar o filme, exibi-lo onde quiser e/ou republicá-lo em sites ou blogs. Na página dodocumentário, vc encontra o link para download do vídeo e o link para republicar.

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s