Entre suspenses: Uma aproximação de Antonioni à obra de Hitchcock



Por Fernando Mendonça

O suspense é, há muito, considerado um dos mais acabados gêneros cinematográficos, pois para ter uma narrativa funcional utiliza o jogo de câmeras, o ‘visto’ e o ‘não visto’, além de toda uma gama de técnicas e possibilidades, existentes somente na forma artística em questão. Desenvolvido, aperfeiçoado e popularizado por Alfred Hitchcock (1899-1980), homem que soube associar sua imagem e nome à sua arte e gênero, o suspense é, igualmente, o tema e abordagem principais de uma obra do cineasta Michelangelo Antonioni (1912-2007): “Blow Up” (UK / Itália / EUA, 1966). O que se pretende aqui é justamente um delineamento dos principais paralelos entre esses notórios realizadores, no caso, a obra geral do primeiro e o filme citado do segundo. Apesar de toda a filmografia de Antonioni ser profundamente dotada de aspectos filosóficos, aspectos esses que se multiplicam em “Blow Up“, o foco de análise percorrido nesse texto será a existência do suspense; o que o motiva, o que o gera, o que provêm dele, como é alcançado em “Blow Up“? Estudar seu suspense tendo por base o melhor suspense que o cinema teve é, sem dúvida, a mais eficiente maneira de se alcançar uma resposta.

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Sem rodeios, “Blow Up” traz em sua trama um personagem (Thomas) que se vê envolvido em um assassinato. Fotógrafo profissional, Thomas certo dia se encontra a trabalhar em um idílico campo e tem sua atenção atraída por um casal apaixonado; repreendido pela mulher a devolver os negativos, ele o nega e ao ampliar as fotos em seu estúdio percebe que o acontecido presenciado foi, na verdade, um violento crime contra um homem (o que estava com a mulher) por um terceiro que estava armado entre a densa vegetação. Essa é a narrativa central de “Blow Up“, que após ser desdobrada em inúmeras facetas durante o filme revela-se um profundo e assustador estudo sobre a dialética Real X Imaginário.

Uma das obras mais reconhecidas de Hitchcock, “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) oferece uma estória bem semelhante: Fotógrafo profissional, Jeff encontra-se retido em seu apartamento devido a uma perna quebrada; através das lentes de sua tele-objetiva ‘espiona’ curioso os prédios da frente até presenciar o assassinato de uma mulher pelo seu marido. Jeff conta com a ajuda de sua noiva e sua enfermeira para desmascará-lo. Filme em que levou mais longe algumas de suas virtuoses técnicas, Hitchcock também criou aqui uma abordagem sobre voyeurismo e unidade espectatorial da arte.

Evidente que o principal ponto intersectivo entre Thomas e Jeff constitui-se pelo meio em que os dois são levados ao crime: a máquina fotográfica; seja pelo produto que ela gera (fotografia) com o primeiro ou o simples manusear com o segundo. Ambos os personagens são conduzidos pela curiosidade do voyeur, assunto presente desde os primeiros filmes mudos de Hitchcock. Essa curiosidade é facilmente identificável com o espectador de cinema, esse ser interessado unicamente em observar as vidas dos personagens e demais elementos diegéticos. Tema muito analisado em “Janela Indicreta“, o voyeurismo é o que leva Thomas e Jeff às cenas dos crimes. Aliás, desejo que deriva do prazer que ambos sentem com suas máquinas, da realização plena que parece ser alcançada apenas quando o mundo é observado por uma lente. É apenas a sua máquina que lhe permite colocar-se nas coisas e conseguir participar delas de uma maneira incisiva e decisiva. Somente através da máquina eles se interessam pela realidade, como se a realidade vista pela lente fosse mais real que qualquer outra. Para Thomas não há mulher, amizade ou ofício que interessem mais do que suas fotos e para Jeff não há noiva, comida ou repouso que lhe atraiam mais do que o mundo externo, apreendido pela lente. Da mesma forma, não há para o espectador de cinema nada que perturbe sua atenção durante o percorrer de um filme (um bom filme). Essa identificação com os personagens centrais, ainda que inconsciente, pode ser vista como o primeiro elemento gerador de suspense em ambos os filmes, pois é ela que estabelece um cotidiano plausível para o restante da narrativa fílmica. E talvez seja esse ‘plausível’ o responsável pelo suspense.

Sabe-se que a Arte lida com as emoções humanas e sua transformação, com o estado bruto do homem sensível. E claro, o mesmo aplica-se ao cinema. Seja num melodrama, num filme de aventuras ou num explícito exemplar de horror, o que está em jogo para o funcionamento de um filme, enquanto arte é obviamente sua capacidade de abstrair o tempo de seu espectador, dilatando seu estado emocional a um nível que ultrapasse o rotineiro da vida (catarse), ainda que utilizando absolutamente sempre esse mesmo estado rotineiro como matéria-prima de sua formação. Ora, Alfred Hitchcock já dizia ser esse o motivo que padronizaria o início de qualquer filme ou narrativa como uma descrição do banal. Ao contrário dos suspenses modernos, segundo Hitchcock, um bom filme que deseje gerar a atenção do suspense deve iniciar-se apresentando seus personagens de uma forma clara, que lhes dê a devida importância. Isso é o que faz o cinema de Hitchcock permanecer num patamar único dentro desse gênero. Aristóteles respalda esse cuidado com o personagem ao afirmar: “Mais convincente ele se torna quando experimenta as mesmas paixões das pessoas em cena e têm-lhes o mesmo ânimo.” (1999, p.58) E é nesse sentido que Antonioni acerta desde a abertura de “Blow Up“, conferindo à Thomas um contexto social, um ambiente de trabalho e relações afetivas, ainda que, essas últimas, traçadas superficialmente (ou talvez, seja Thomas quem as trate assim). Ver o dia-a-dia desse homem permite ao espectador uma maior credibilidade diante da obra, algo de suprema importância nesse caso já que Thomas precisará de muito crédito para não passar uma imagem de louco com o que fará e passará a acreditar. Mas ainda antes da efetivação do crime algo deve ser levado em conta: o instante em que ele é descoberto.

Assim como em “Janela Indiscreta“, Thomas não estava à procura de um crime; ao contrário, as belas tomadas que Antonioni extrai do parque fotografado por Thomas e seu bucólico tom esverdeado em contraste com o céu testificam a paz de espírito em que Thomas se encontrava. Prazer. Era o prazer que fazia Thomas trabalhar e o prazer que permitia a Jeff esquecer sua deprimente condição (preso a uma cadeira de rodas). Foi o prazer que os levou a observar uma realidade externa à de suas vidas e encontrar por acaso um ato grotesco e indesejável. “Acaso” novamente frequente na obra de Hitchcock, convencional instaurador de grande sequências fortemente tensas em sua filmografia.

Acaso que é, por assim dizer, a regra do jogo da narrativa nos filmes do realizador, o que não é dos menores elementos de identificação do espectador com os seus personagens, de tal modo o acaso o conduz, em momentos capitais, a vida de todos nós, determinando o seu sentido subsequente.” (FERREIRA, 1985, p.168)

Perceba o retorno à “identificação do espectador”. É sempre por acaso da vida que uma pessoa se vê diante de uma ameaça, ninguém a procura intencionalmente. Assim se dá em qualquer bom filme de suspense, em especial, os de Hitchcock. Estabelecidos o personagem e seu universo, tudo espera pelo acaso que levará ao medo. Em ambos os filmes aqui analisados, esse acaso demora consideravelmente a surgir, o que aumenta a expectativa e a verossimilhança dessas obras, já que são apresentadas longas sequências (no início) de vidas comuns e, por ora, desinteressantes, como a do espectador. “Mesmo dentre os eventos fortuitos, mais surpreendentes são os que parecem acontecer de propósito” (ARISTÓTELES, 1999, p.48) e aqui as referidas coincidências surpreendentes são perceptivelmente planejadas para que a partir delas o suspense se instale. São elas que nos levam ao crime descoberto por Jeff e ao suposto crime fotografado por Thomas. Suposto pois nunca comprovado. Fotografado mas nunca digno de certeza. Visível mas sempre passível de dúvida, onde o factual acarreta uma desesperada perseguição pela verdadeira realidade.

Essa perseguição que Thomas passa a empreender ainda antes da descoberta do crime é o que permite um novo paralelo com a obra de Hitchcock, no caso, “Vertigo – Um Corpo que Cai” (1958). A partir do momento em que Thomas é inquirido pela mulher fotografada inicia-se sua curiosidade e busca pelo misterioso conteúdo dessas fotos, que, enfim, revelarão o crime quando ampliadas. Em “Vertigo“, Scottie é o personagem que recrutado por um amigo é incumbido de perseguir a esposa deste, Madeleine. Não cabe aqui uma maior descrição do enredo de “Vertigo” já que é por demais complexo e o momento importante para essa análise é o já apresentado.

Tem-se com isso, dois personagens curiosos e atormentados enquanto perseguidores de algo que desconhecem. Ir em busca do desconhecido gera inevitavelmente um grau de tensão muito positivo para a sensação de suspense, por isso sempre muito utilizado em filmes policiais e de espionagem. Em “Vertigo” essa busca termina numa paixão que Scottie passa a nutrir por Madeleine e que culmina na trágica morte desta. Com relação a estas duas perseguições, que diferem em muito daquelas oferecidas em filmes de ação, o funcionalismo do suspense alcança uma equivalência bem equilibrada. Tanto Hitchcock quanto Antonioni apresentam de maneira genial ao espectador, experiências exclusivamente visuais, com planos abertos, coloridos e magistralmente musicados no caso do primeiro, e com planos fechados e closes silenciosos no segundo. Isso mostra as inúmeras possibilidades que o cinema oferece para a criação de suspense em sequências muito parecidas. Não há um padrão. Há apenas o fato de que ambas as sequências possuem um poder quase hipnótico devido à força de suas imagens.

Quando Thomas percebe o crime na foto, inicia uma nova busca pelo desvendamento deste, e aí tomam forma os aspectos metafísicos que Antonioni levanta com esse filme. O corpo do morto desaparece, as fotos somem e um Thomas patético, já que crente (apaixonado) do crime é apresentado, permitindo-se duvidar do que viu. Patético como Scottie, que deprimido pela morte da amada, surpreende-se ao encontrar em outra mulher, os mesmos traços da falecida. “Viagem ao mundo do inconsciente, dialética do abismo com a consciência, possuída e devorada pelo mundo exterior em que se desenrolam acontecimentos cuja influência sobre o indivíduo o sujeitam a uma experiência inenarrável.” (FERREIRA, 1985, p.93) Thomas quer acreditar na verdade do crime e Scottie quer acreditar que Judy é na verdade Madeleine. Busca pela verdade. Busca pelo suspense. Espectadores deixando-se conduzir pela arte em busca de uma verdade, que deve demorar a surgir para que se encontre o suspense.

A dilatação do tempo e o longo enfoque em cenas rápidas eram técnicas primordiais para Hitchcock construir seus filmes. Ele já dizia que o suspense difere da surpresa por se dar em tempo maior, de caráter agônico, e Antonioni abraça essa teoria como poucos. As cenas que antecedem a fotografia reveladora do crime são incomparáveis, e sem dúvida, a mais antológica contribuição que Antonioni deu à história do suspense. São longos os minutos que Thomas revela suas fotos. Apreende-se o passo a passo, a ampliação das ampliações, a labuta do ofício da fotografia num clima misterioso que indica de antemão uma futura surpresa (o crime). O espectador sabe que algo será revelado, algo importante, e isso faz o suspense ser maior que a surpresa. Quando ele enfim amplia as fotos ao tamanho desejado e as pendura nas quatro paredes que o cercam, tem-se aí uma representação visual do espetáculo cinematográfico. As fotos estáticas enchem a tela, uma a uma, em ordem cronológica, até que o espectador perceba junto com o personagem (identificação) o revólver escondido entre os arbustos. O tenebroso silêncio quebrado apenas pelo barulho do vento que existia no parque no dia em que as fotos foram tiradas ajuda a proporcionar um sensacional momento de descoberta. Essência e clímax do suspense alcançados. Imagens paradas que movimentam-se num ritmo sem fim de terror. O suspense definido por Beylie (1987, p.71) como “uma expectativa angustiante de um desfecho incessantemente retardado” é expresso em toda sua magnitude.

A obra de Hitchcock comprova que um dos meios mais eficientes no desenvolvimento do suspense reside na boa utilização de uma trilha sonora, pois a ela consiste o auxílio no envolvimento e na sedução do espectador para um maior esquecimento do tempo. Mas “Blow Up” não possui nenhuma música de fundo no andamento das cenas, paralelo existente em “Os Pássaros” (1963), filme em que Hitchcock ousou contra seus próprios princípios, desafiando-se a si mesmo. Seu compositor habitual, Bernard Herrman, foi solicitado na confecção dos efeitos sonoros para o barulho dos pássaros, único ruído do filme que realmente impressiona e age como uma composição macabra da própria natureza. Feito semelhante ao de Antonioni que privilegia o ruído do vento na seqüência descrita há pouco. Ruído que faz retomar as imagens em movimento. Domínio de técnica. Certeza de suspense. Prova de que boas doses de criatividade podem gerar novas formas de se sentir o suspense, possibilitando ao espectador uma realização enquanto tal, sendo dominado pelas imagens e sons e satisfazendo-se com isso.

Mas não é apenas em quesitos técnicos que “Blow Up” encontra “Os Pássaros“; a filosofia de ambos funciona quase da mesma maneira. Thomas termina o filme e o enigma não se esclarece. As perguntas que se formaram permanecem e nenhuma certeza resta a não ser a consciência de estar diante de uma experiência artística. Enquanto em “Janela Indiscreta” têm-se a certeza do crime e a captura do assassino, e em “Vertigo” se descobre que Judy era realmente Madeleine, em “Os Pássaros” nada é definitivo. Não se sabe o motivo dos ataques das aves, nem se encontra uma solução para a tragédia. Resta apenas o medo. Sim, medo muito maior que “Blow Up“, mas ambíguo em semelhança.

Pleno mistério da vida e da morte, nos limites infinitos do inexplicável, no domínio do inevitável confronto com a morte, sob uma ameaça permanente… Quintessência do ‘suspense’ porque não há um mal, um culpado, sequer uma culpa que possa ser formulada razoavelmente para explicar o terror do que sucede.” (FERREIRA, 1985, p.108-109)

Afirmações para “Os Pássaros” que também se aplicam à “Blow Up“. Terminar um filme em ‘ameaça permanente’ não é algo comum no cinema, mas esses dois exemplos testemunham a eficácia do método, que faz perdurar a sensação de estranhamento mesmo após encerrada a sessão.

***

“O impacto resulta fundamentalmente da não gratuidade do perigo, da ameaça, do amor à beira da morte e da morte no extremo da paixão. Em Hitchcock, as situações vividas pelos personagens remetem para uma metafísica, aqui sim, do homem reduzido à sua condição, mas levado aos limites extremos do humano, sabendo que está à beira da queda.” (FERREIRA, 1985, p.177)

Fazer suspense é antes de mais nada, trabalhar com as possibilidades de ameaça que um ser enfrenta; ser que é dotado de emoções e personalidade, que sofre, angustia-se e aguarda por um desfecho satisfatório. Se esse final não acontece, como no caso de “Blow Up” e “Os Pássaros“, é graças ao reflexo de uma vida que não se resolve e não se deixa morrer, de uma arte que se renova oferecendo uma tensão contínua e inesgotável. Nessa obra Antonioni trabalhou perguntas que ainda não se calaram e que com certeza estão presentes, ainda que num ritmo diferente e numa sutileza tão particular, no restante de suas obras. Todos os seus filmes perguntam por algo que ainda espera resposta e que provavelmente não será encontrada enquanto o homem estiver preso a essa sua condição. Talvez essa busca sem fim seja o que possibilite abandonar a curiosidade inicial de sobre o por quê Antonioni ter usado o suspense uma só vez e aceitar a possibilidade de que toda a obra desse mestre permanece fincada num suspense inabalável. Suspense de vida.

Referências:

ARISTÓTELES. Poética. In: ____. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

BEYLIE, Claude. As obras-primas do cinema. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

FERREIRA, Carlos Melo. O cinema de Alfred Hitchcock. Porto: Afrontamento, 1985.


Filmes citados para baixar:

BLOW-UP (Michelangelo Antonioni, 1966)

JANELA INDISCRETA (Alfred Hitchcock, 1954)

OS PÁSSAROS (Alfred Hitchcock, 1962)

VERTIGO – UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958)

Na Internet:

http://hitchcock.tv/ (Em inglês)

1000 frames de filmes de Hitchcock

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