As escolhas de Sofia

Por André Antônio

O cineasta e crítico pernambucano de cinema Kleber Mendonça Filho, em seu texto sobre o filme Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006), fala sobre as vaias que o terceiro longa de Sofia Coppola levou quando veio a público pela primeira vez no Festival de Cannes e diz que é quase impossível achar uma crítica sobre o filme, que não mencione esse fato. Este texto não é exceção. A menção aqui, contudo, é para lançar as hipóteses de que nem mesmo o público de um dos mais prestigiados festivais de cinema no mundo está preparado para certas surpresas e de que a crítica cinematográfica atual é mais “influenciável” do que imagina.

Com relação à crítica, cito dois jornalistas aqui de Pernambuco cujas opiniões são consideradas relevantes quando o assunto é cinema. O primeiro é o próprio Kleber. Ele fez dois textos sobre o filme: um *, logo após tê-lo assistido presencialmente em Cannes, abominando-o; outro *, passado o “calor” do festival, como ele mesmo admite, mais ameno, admitindo as qualidades técnicas do filme, dizendo que ele de fato falava de algumas coisas importantes, mas que tinha “um sabor específico: veja se é o seu”. O segundo jornalista é Rodrigo Carrero, cujo sucesso de seu site de críticas pode ser constatado pelos comentários entusiastas em seu blog. Carrero analisa a estética do filme, quase o elogiando, para no final, vir com o seguinte: “Em meio a tantos acertos narrativos e à beleza visual evidente, o que realmente sobressai é a narrativa ausente, distante, quase onírica, de um filme entorpecido de ópio. Sim, é a obra de um autor, mas que autor chato, hein?”. Ele não diz, no texto, o porquê de tal chatura.

O que houve foi que tanto o público quanto a crítica acharam o filme superficial (Carrero o chama de “vazio como um balão de gás”). Sofia Coppola já estava se consolidando no início dos degraus que levam a ser uma “cineasta importante” – Maria Antonieta, inclusive, foi apresentado em Cannes sob uma expectativa anterior enorme. Seu primeiro filme, As virgens suicidas (The virgin suicides, 1999), era uma adaptação literária bem-sucedida sobre o tédio adolescente. O seguinte, Encontros e desencontros (Lost in translation, 2003), um estudo sobre o casamento e o amor na contemporaneidade. E de repente o que ela escolhe para exibir em seguida? Kirsten Dunst interpretando uma rainha francesa num filme pouco fiel à História contada pelos livros.

No filme, Sofia não mostra nem por um segundo os meandros que a Revolução Francesa estava tomando, nem os pobres passando fome em Paris. Pelo contrário: vemos apenas uma jovem rica gastando rios de dinheiro em roupas e outros objetos de futilidade; indo a bailes; fazendo festas dispendiosas em Versalhes; traindo o marido; tudo isso embalado por músicas de rock dos anos 80 e atuais. Assim, quase automaticamente, saem da boca daquelas cultas pessoas que o filme era uma ode ao consumo e à futilidade; com ele não se aprendia história e ainda se batia palmas para o capitalismo (como elas bem o fazem sem se dar conta, mas isso é outra história).

Mais ou menos a partir do segundo terço de Maria Antonieta, de fato o que vemos é o que foi descrito no parágrafo anterior. Mas os que se precipitaram a uivar diante da enorme tela em Cannes estavam cegos ou distraídos demais, para ver a primeira parte do filme. Em essência, ela mostra o peso da cotidianidade mecânica e castradora de Versalhes. Vê-se repetidas vezes a rotina da Antonieta recém-chegada ao palácio. Cerimônia da vestimenta ao acordar à Refeição com o marido à Igreja à Fofoca com algumas damas da corte. Essas coisas são vistas cansativamente quase que dos mesmos ângulos e com a mesma música (Vivaldi, um raro “clássico” na trilha sonora). Cerimônia da vestimenta ao acordar à Refeição com o marido à Igreja à Fofoca com algumas damas da corte. Cerimônia da vestimenta ao acordar à Refeição com o marido à Igreja à Fofoca com algumas damas da corte.

Mas a jovem Antonieta não se dá bem nesse mundo. Ela até que tenta, mas além de achar todas as suas responsabilidades e tarefas muito tediosas, nem um herdeiro – o que mais se espera dela – consegue dar à França. É aí que ela se “rebela”. Dá as costas ao protocolo de Versalhes em busca de outra coisa. Mas o que seria essa outra coisa? Gosto de chamá-la “liberdade”. A crítica do New York Times – a única lida por mim que parece ter tratado o filme de maneira profissional e com qualidade – chamou de “prazer”. Acho igualmente válido. Talvez a crítica pernambucana tenha intuído isso, mas, a seus olhos, a busca por prazer é algo superficial, vazio e fútil. Ela sem dúvida não conhece um sujeito chamado Freud e um pensamento intitulado Pós-estruturalismo. Ambos provaram – isso já é ponto pacífico – o quão importante tal tema é.

Essa dicotomia “castração/prazer” pode ser considerada a maior preocupação da obra de Sofia. As virgens suicidas – também com Kirsten Dunst – é sobre algumas garotas sonhadoras que de repente se dão conta que cresceram e que o mundo exige delas algo totalmente diferente do que imaginavam. Encontros e desencontros é sobre uma jovem, cujo casamento já está começando a esfriar e que (re)descobre o amor ao conhecer um ator brincalhão de meia-idade, com quem vai beber e cantar karaokê nas noites de Tókio. Maria Antonieta não é um filme “histórico”, afinal Sofia utiliza a história dessa rainha apenas como mote para dar continuidade ao debruçamento sobre essa temática e não para substituir grossos manuais de bibliotecas. Essa preocupação temática da obra está, claro, entrelaçada a preocupações formais. Há, pode-se dizer, uma “poética evanescente” em Sofia Coppola. Ela assume ares de “estética da nostalgia” tanto em Virgens Suicidas quanto em Maria Antonieta. E, em Encontros e Desencontros, de “estética da sublimação sentimental e amorosa”. Há recorrências como as “cenas em veículos”: nos três filmes há passagens belíssimas em que as protagonistas estão dentro de veículos. E há, claro, a música: a trilha sonora é um aspecto fundamental (anos 80, Air e Phoenix são presença obrigatória). Essa coerência em sua obra faz de Sofia uma expoente do que a crítica chama – apesar de nem sempre saber reconhecer – “cinema autoral”.

A busca por liberdade/prazer de Antonieta segue mais ou menos essa ordem: 1) imersão no consumo de “produtos de estética” (roupas, sapatos, perucas suntuosas, jóias) – e aqui Sofia usa o que se poderia chamar de “estética de publicidade”: a câmera flagra as coisas muito de perto, a felicidade está naqueles produtos de cores brilhantes, o resto do mundo não importa; 2) festas dispendiosas (com desperdício imenso de comida, muito champanhe, jogos de mesa e gargalhadas); 3) isolamento numa mansão particular perto de Versalhes, onde ela espera se livrar dos “artifícios da civilização” – isso é ela lendo Rousseau – num contato maior e bucólico com a natureza e 4) encontro de um amor verdadeiro, em oposição à frieza de seu marido contentado com um cotidiano regrado e sufocante.

Essa busca não é mostrada por Sofia Coppola como algo fútil, embora muita gente tenha visto dessa maneira. Antonieta busca alegria e felicidade nas atividades citadas, mas Maria Antonieta é um filme triste. Há um choro baixinho, latente, deprimido demais para vir à tona, enquanto a liberdade é procurada. Essa é uma das funções da seleção depressiva “anos 80” nas cenas. Uma fotografia gélida e azul embala sua festa de aniversário (quando vê bêbada, com alguns amigos, o alvorecer no jardim de Versalhes e ao fundo toca Ceremony, de New Order: “This is why events unnerve me/ They find it all a diferent story…”) e sua volta do baile, onde se apaixonou por um soldado (ouve-se Folls rush in, da new wave Bow Wow Wow: “Fools rush in/ Where wise men never go/ But wise men never fall in love/ So how are they to know?”). Tudo tem a evanescência nostálgica de um eco. E nostalgias são sentidas quando a felicidade é passado.

A liberdade de Antonieta, assim, já tem o estigma da decadência mesmo mal tendo começado. Em Virgens Suicidas, as cenas de felicidade também tem um quê de tristeza nostálgica, como se Sofia as mostrasse ao mesmo tempo avisando: “não adianta. Isso é uma pseudo-liberdade. Vai acabar”. Numa cena em que as irmãs protagonistas do filme se encaminham a um baile da escola (o ápice da felicidade no filme), no carro, bem baixinho, toca a música Everything you’ve done wrong, de Sloan e pela janela do veículo se vê um sol laranja prestes a se pôr. A letra: “In your life, you get so high/ There’s nowhere left to go but down/ Don’t believe that no one cares/ ‘Cause we’re here waiting for you, baby/ Do your time/ And then come home for good…”. E as irmãs de fato voltarão para casa, onde se sentirão mais sufocadas que nunca.

Neste ponto, é importante se falar do terceiro terço do filme. Aqui Antonieta percebe que os meios pelos quais ela tentou ser livre fracassaram. Isso me lembra uma frase de Terry Eagleton sobre o pensamento contemporâneo, presente no livro ‘Depois da Teoria‘: “todas essas coisas prometiam uma felicidade geral mais ampla. O único problema era que, na verdade, ela nunca chegou”. Maria Antonieta deveria ter percebido que o sol nascente que ela vislumbrou bêbada no jardim de Versalhes era artificial (de fato, Sofia não filma o sol de verdade nessa cena). A crise que desembocará na Revolução Francesa não a deixa mais dar festas ou comprar roupas. Ela tem que ajudar o marido nessa crise e por isso deixa seu paraíso rousseauano e volta a Versalhes. Seu amante tem que ir à guerra (ajudar os americanos na Independência). A terceira parte do filme é a mais triste, mesmo se comparada ao início quando uma inocente princesa é arrancada de seu mundo em Viena e enviada à França onde terá novas responsabilidades – uma metáfora para a passagem da juventude para a vida adulta. Nesse sentido, Maria Antonieta começa exatamente onde As virgens suicidas termina – as irmãs Lisbon se matam porque viram adultas e vêem como a realidade é diferente de seus sonhos. Será que Lux Lisbon – a personagem de Kirsten Dunst – não morreu e Maria Antonieta é apenas uma de suas ‘bad trip‘ nos anos 80? A música clássica volta – dessa vez é uma ópera mais que melancólica.

Maria Antonieta não percebeu que os meios pelos quais ela tentou ser livre eram sustentados por aquilo que exatamente a mantinha presa: Versalhes. O dinheiro para as roupas, as festas, a mansão isolada e os lençóis limpos que embalavam seu adultério vinha de Versalhes. Nesse sentido, quanto mais ela queria se afastar do palácio, mais dele ficava presa. Não há aí um eco de “já ouvi essa história antes”? Se há, descobri – e isso parece bem plausível para mim – o porquê de Maria Antonieta ser como é. Isto é, o porquê de Sofia Coppola ter escolhido músicas contemporâneas, Kirsten Dunst, e não mostrar os meandros da Revolução.

A trilha sonora, Dunst (um rosto jovem norte americano) e até um All Star dão um tom de “atualidade” ao filme. A impressão que se tem é que o que está acontecendo com a Maria Antonieta da tela poderia estar se passando com qualquer jovem dos tempos atuais. De fato, a escolha pela atmosfera oitentista é bem significativa, porque Sofia Coppola tinha mais ou menos a idade de sua protagonista nessa década. Mas escolher um enredo ambientado no século XVIII – e especificamente a história dessa rainha mal vista nas salas de aula – trás mais vantagens do que se imagina. A dicotomia cotidiano regrado/liberdade é, nele, mais que aparente. E há Versalhes: o sistema que aprisiona e castra, mas ao mesmo tempo oferece possibilidades de prazer – possibilidades passageiras e limitadas. Aqui sugiro uma metáfora: Versalhes é o Capitalismo. Há de fato mais semelhanças entre os dois do que se pode imaginar: ambos são sistemas que governam. São geridos a custa da fome e exclusão de milhões. Precisam o tempo todo manter o controle – mesmo que para isso precise oferecer coisas que aparentemente são contrárias a sua natureza: certa liberdade, prazer frugal.

A movimentação de Sofia entre o século XVIII e a atualidade (vale-se ressaltar que, para quem estuda cultura, os anos 80 foram ontem) permite que ela fale de sua maior preocupação temática de forma profunda. Há várias cenas em que músicas atuais ou dos anos 80 tocam. Mas nenhuma é tão impressionante quanto a do baile de máscaras. Antonieta e suas amigas decidem ir a esse baile. Ao chegarem lá, a introdução de “Hong Kong Garden”, de Siouxsie and the Banshees pode ser ouvida tocada por um violino, o que ainda condiz com um baile da época em que se passa o enredo. No entanto, um corte nos leva ao salão onde há várias pessoas dançando. A câmera filma de cima, de longe, distanciada. É provavelmente uma dança típica da época, que para nós já se tornou ridícula ou caricata; que, por não ser mais usada, para nós não tem vida: a vemos como um mero conjunto ultrapassado e empoeirado de significantes. Pois as pessoas dançam desse modo justamente “Hong Kong Garden”, agora, de súbito, reproduzida integralmente sem nenhum pudor. A voz ecoante e decadentista de Siouxsie preenche o ambiente: “Harmful elements in the air/ symbols clashing everywhere…”.

Com essa cena Sofia desmascara os significantes que nós praticamos. Eles nos parecem naturais, vivos. No entanto não passam de significantes originários de uma cultura e que, portanto, legitimam uma determinada forma de vida. Mas não nos damos conta disso. Não creio que as danças da França do século XVIII eram daquele jeito porque era a “tradição” ou a “cultura” deles e ponto final. Toda manifestação cultural, mesmo que nem remotamente pareça, tem por trás um lastro bastante sólido de configurações sociais, políticas e econômicas. Ir a uma festa (o baile do filme parece muito mais, de fato, com uma festa adolescente atual do que com qualquer coisa dos anos 1700), dançar “Hong Kong Garden”, conversar com as amigas e flertar com os rapazes são atos que nos parecem bastante naturais, mas eles são, antes de tudo, costumes culturais. Em nossa sociedade, em nossa atual forma de vida, eles estão em vigor e isso significa que eles legitimam tal forma de vida e tal sociedade. E eles – esses especificamente de que eu falei, embora muitos outros exemplos possam ser dados – são costumes praticados pelos que, nessa sociedade, estão buscando prazer e fuga das amarras das repetições e obrigações cotidianas. O problema é que, praticando esses significantes, se voltará fatalmente àquele cotidiano sufocante, acabará inevitavelmente o prazer, já que eles são permitidos porque precisamente legitimam a ordem que necessita, para sobreviver, desse cotidiano e dessa falta de prazer. A casca da maçã parecia brilhante, mas, depois de mordida, viu-se que ela estava podre.

Maria Antonieta é um filme cíclico porque tematiza algo cíclico: a fuga de um cotidiano sem prazer e castrador; um ápice; o retorno àquele cotidiano de antes, ou seja, Maria Antonieta em Versalhes; todas as formas que ela encontra para fugir disso; o retorno ao palácio. A dança que mencionei anteriormente é cíclica. E na letra de New Order, também já citada, ouvimos: “Notice whom four wheels are turning/ Turn again and turn towards this time…”. Há um barulho perturbador em Maria Antonieta. É algo como uma microfonia ou um portão de ferro sem óleo se abrindo. Esse som é ouvido quando pela primeira vez Antonieta aparece com as roupas de Versalhes (depois que ela se livra de tudo “pertencente a cortes estrangeiras”) e outras vezes, de forma sutil, ao longo do filme. Ele também aparece quando Antonieta e vários amigos estão bebendo sob uma tenda no jardim. Uma das pessoas pede para todos lamberem os dedos e os passarem na borda das taças de vidro. Isso produz o som: mais um círculo. Mas o som é um prenúncio da fragilidade da taça. Porque o círculo vai ser quebrado.

Maria Antonieta não é um filme “histórico” em parte pelo motivo que mencionei antes e em parte porque não seria interessante mostrar de perto a Revolução Francesa: os desdobramentos dela são bem conhecidos. Li no livro Dos meios às mediações, de Martin-Barbero, algo que a sintetiza brilhantemente: “Ao sustentar a soberania como princípio de Estado, os revolucionários perpetuavam o ‘príncipe’, quer dizer, o modelo estatal (…) Ao situar a Nação no primeiro plano da cena política, os revolucionários deslocaram o monarca. Mas nesta ampla transformação não se buscou senão uma coisa: ocupar o lugar do Rei”. A “revolução” de fato é mostrada na película, mas do seguinte modo: uma turba anônima, sempre mencionada ao longo do filme de forma perturbadora, chega ao palácio de Versalhes para destruí-lo. A crítica do site “Contracampo”, apesar de confusa e difusa, conseguiu intuir a importância disso. Maria Antonieta não conseguiu destruir o que lhe fazia mal. Mas o povo o fez. É ele o único capaz de quebrar o círculo. De fato, aquele som perturbador chega ao ápice nessa cena – é ensurdecedor – e é pela última vez ouvido no filme.

Muita gente não gostou desse final: esperavam ver a cena da decapitação. Mas cenas finais são escolhas, como tudo dentro de um filme. E a de Sofia Coppola foi mostrar uma sala de Versalhes destruída ao amanhecer, depois da invasão noturna da multidão. O canto de um pássaro é ouvido. Isso sugere, assim como os raios do sol nascente, a chegada de uma nova era? Se fosse um filme histórico, saberíamos exatamente como seria essa era. Mas não é: nunca se sabe se o enredo se passa no século XVIII ou nos anos 80. Seguem os créditos e a sinistra All cats are grey, da banda inglesa The Cure.

* Aparentemente o site Cinemascópio, mantido pelo crítico Kleber Mendonça Filho, está fora do ar. Deixei o link no texto esperando que a página volte brevemente.

Maria Antonieta. Japão / França / EUA, 2006. Direção: Sofia Coppola Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Lance Acord Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Judy Davis, Rip Torn, Rose Byrne, Asia Argento.

Para baixar Maria Antonieta

Para baixar a Trilha Sonora

Na Internet:

Crítica negativa: Maria Antonieta

Entrevista: Kirsten Dunst (Em inglês)

Entrevista: Sofia Coppola
(Em inglês)

Lick, the Star (Curta dirigido por Sofia Coppola)

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3 ideias sobre “As escolhas de Sofia

  1. Rodrigo Almeida

    Praticamente todas as críticas que li (várias na época do Festival de Cannes) concordavam em repudiar a questão histórica de Maria Antonieta. Tornou-se um ponto de consenso, dentre vários outros da fortuna crítica dessa produção – quebrado aqui por você e não só por você. E acredito que justamente essa ‘defesa à história’, argumentado da maneira receosa como foi pelos críticos, é o que menos importa como reflexão, afinal o filme não pretende substituir, como você mesmo pontuou, André, os “grossos manuais de bibliotecas”. Além disso, já sabemos os desdobramentos da revolução francesa, não era preciso novamente evidenciá-los. As pretensões de Sofia são outras e acho que, de início, precisamos enxergar por esta ótica (como você fez tão bem no seu texto).

    Particularmente, gosto dessa idéia de podermos brincar, de fazermos releituras da história e em especial, quando tomamos como ponto de partida um evento ou personagem histórico super conhecido, da qual se pode fugir das apresentações iniciais e dos limites de realidade impostos. Gosto, por exemplo, do exagero em 300 e isso não é necessariamente uma comparação ou defesa dessa obra, pois essa característica já pré-existe e se afirma desde os quadrinhos do Frank Miller. Não estamos falando de historiadores, mas de cineastas e artistas e isso é um ponto que faz muita diferença nessa discussão: a criação da história na arte se dá por outros caminhos. Convenhamos que Sofia não queria ensinar história francesa aos franceses em pleno Festival de Cannes. Longe disso. Maria Antonieta realmente parece uma reflexão sobre uma inadaptação como sentimento da juventude atual, juventude, nesse caso, coberta por uma pesada maquiagem de outrora. E apesar de toda maquiagem é preciso enxergar para além dela. Acho que o seu texto foi muito feliz nesse sentido, inclusive gostei bastante da sua ‘retrospectiva’ sobre o que foi escrito sobre o filme anteriormente e os rápidos comentários sobre as obras anteriores. Rápidos e poéticos.

    Engraçado que só assisti esse filme por sua causa, André. Lembro que vc comentou que gostava dele e eu me mantinha na defensiva (apesar de já saber, pelas críticas, e me sentir atraído por essa possível relação entre dois tempos). Só acho que o filme se prolonga demais em certos momentos, admito até que cheguei a sentir um cansaço e que na segunda parte (dentro do conceitos de partes que vc mesmo criou)), me abateu uma sensação de que aquela “cotidianidade mecânica e castradora de Versalhes” estava demorando demais. Isso me incomodou bastante, porque a idéia já havia ficado clara. Depois a sensação passou. De qualquer forma teria de assistir novamente pra identificar precisamente os elementos e causas desse tédio efêmero. Acho que, em parte, entrei no mesmo tédio da personagem, de modo que quando ela reagiu com seus prazeres fúteis, o tédio passou violentamente… apesar da tristeza chegar e tomar o seu lugar. A inadaptação continua.

    Resposta
  2. André

    Rodrigo, valeu mesmo pelos elogios! Pois é, acho que a chave para se ver o valor do filme é exatamente não considerá-lo “histórico”, o que tentei fazer no texto. O fato é que, se, no filme, o século XVIII é a atualidade (no caso, os anos 80), Sofia não podia mostrar os meandros que levaram à Revolução, porque essa revolução desembocou justamente na nossa sociedade – a atual. Acho, como tentei defender, que a escolha de Sofia em retratar Maria Antonieta, a rainha francesa, foi motivada pela facilidade e pela mobilidade que a história dessa personagem oferecia às preocupações autorais de Sofia: o que eu falei do prazer/ castração no mundo de hoje (e o que você falou sobre a inadaptação). No entanto, a “saga” de Antonieta oferece uma vantagem a mais (que os dois filmes anteriores não têm): ela tem o elemento de “superação” dessa situação: o fim de Versalhes, do mundo que faz Antonieta triste e lhe oferece prazer frugal para que ela o suporte. Esse fim foi provocado pela Revolução, mas, pelo que eu falei (a mescla passado-atualidade do filme), essa revolução não poderia ter sido mostrada senão como uma turba anônima e sinistra chegando à noite ao palácio.

    Se essa hipótese – que por um segundo pode parecer mais uma paranóia de crítico que o desejo de uma artista – for verdadeira, Sofia menos brinca com a História (como faz, por exemplo, um Tarantino, de forma simplesmente lúdica e desinteressada) que a manipula. Concordo plenamente com o que você falou: “Não estamos falando de historiadores, mas de cineastas e artistas e isso é um ponto que faz muita diferença nessa discussão: a criação da história na arte se dá por outros caminhos”. A responsabilidade que o artista tem nas mãos, então, é imensa. Porque ele mexe com estética, isto é, ele tem capacidade de mexer com nosso aparelho cognitivo, perceptivo e sensível. Não há, assim, melhor e mais efetiva forma de comunicação que essa.

    Sofia vem, desde “Virgens suicidas”, mostrando uma situação. Em Maria Antonieta, ela – ainda que no final do filme, em bem pouco tempo – mostra uma possível solução. O que virá em seguida? Quais serão as próximas escolhas de Sofia? Estou ansioso para vê-las e sem dúvidas elas irão ajudar a corroborar e/ou desconstruir minha pequena tese sobre essa cineasta. De todo modo, ela – isso é incontestável – tem talento e em minha opinião é, no cinema, uma das vozes mais importantes da atualidade.

    Ah, achei mto legal essa sensação que vc teve com o filme – talvez Sofia de fato a tenha almejado ;)

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