Calvário (Bélgica, França, Luxemburgo, 2004), de Fabrice Du Welz

Neste sábado, 26 de maio, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe um dos filmes que melhor representa a nova safra do cinema de horror europeu: o belga “Calvário” (2004), de Fabrice Du Welz. Premiado em Festivais especializados no gênero, a obra nos apresenta um cantor (Laurent Lucas) que tem sua van quebrada e consegue abrigo numa pequena e estranha vila. Envolvido pelo administrador da pousada em que se hospeda, ele descobre que não mais poderá abandonar o lugar, ficando aprisionado num pesadelo sem fim. “Calvário” tem a participação especial de Brigitte Lahaie, ícone do cinema pornô francês e igualmente musa nos filmes de gênero. A sessão, que marca a entrada de Osvaldo Neto no quadro de curadores do Cineclube Dissenso, ocorrerá na Sala João Cardoso Aires, sendo imediatamente seguida de debate aberto ao público. A entrada é franca.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Calvário (Bélgica/França/Luxemburgo, 2004) de Fabrice Du Welz
Sábado, 26 de maio de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609

Kaos (Itália, 1984), de Paolo & Vittorio Tavianni

Por Fernando Mendonça

Neste sábado, 12 de Maio, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe Kaos (Itália, 1984), um dos mais importantes trabalhos dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, recentes vencedores do Urso de Ouro em Berlim. Inspirado em contos de Luigi Pirandello, o filme assume sua relação com o escritor desde o título, derivado de um nome dado ao bosque (Cávusu, de mesma origem grega) localizado na região da Sicília em que Pirandello nasceu. Nome literal e alegórico, característico de um autor que comprova por seus escritos ser Filho do Caos, de uma força típica das paisagens que a Itália meridional evoca, o sentimos nas imagens dos Tavianni desde a abertura dos créditos: uma panorâmica que se repete por todo o filme, interligando os episódios narrativos.

Nos aproximados 180 minutos de Kaos, as intrigas se aglomeram: O Corvo de Mizzaro (breve prólogo); O Outro Filho; O Mal da Lua; O Vaso; Réquiem; Colóquio Com a Mãe. Cada um dos textos vê restituído em imagens o interesse criativo de Pirandello, num estilo árido, seco, privilegiado pela simplicidade visual típica aos diretores. Atmosfera que coaduna toda uma perspectiva outrora assumida pela literatura: em Pirandello, as coisas são o que são, e por mais que elas se resumam à forma fixa de um ponto de vista (sempre questionável enquanto produto da realidade), nunca sabemos se o lugar por elas ocupado pode definir-se como de sanidade ou de loucura, como de fato ou ficção, apropriado ao riso ou à lágrima.

Dando continuidade ao flerte que sempre aproximou seu cinema das letras clássicas, os Tavianni encontram nos escritos de Pirandello o motivo por excelência de sua própria Modernidade: a permanente dúvida diante do que se vê. Para o escritor, uma imagem narrativa nunca é totalizante, pois não pode ser sentida senão pela metade, enquanto fragmento de um mundo rompido e esvaziado de concretude objetiva. Da mesma forma, vemos no cinema dos irmãos italianos, um equivalente desejo pela manutenção do enigma, onde todo e qualquer realismo (no caso, um pós-neorealismo) só pode ser efetuado mediante um desregramento da ordem natural, um inevitável caos.

A sessão ocorrerá na Sala João Cardoso Aires, sendo imediatamente seguida de um debate aberto ao público. A entrada é franca.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Kaos (Itália, 1984), de Paolo & Vittorio Tavianni
Sábado, 12 de maio de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609

Contra’s City (Senegal, 1969) + A Viagem da Hiena (Senegal, 1973) de Djibril Diop Mambéty

Imagem

Neste sábado, 28 de abril, às 14h, o Cineclube Dissenso realiza uma sessão com dois filmes do diretor senegalês Djibril Diop Mambéty: Contra’s City (1969) e A Viagem da Hiena (1973), respectivamente, seu primeiro curta e primeiro longa-metragem. São trabalhos que concentram o registro irônico característico de sua filmografia, com destaque para o contraste entre cosmopolitismo e relações sociais do cotidiano senegalês. Aliás, a complexa elaboração audio+visual em ambas as produções rendeu a Mambéty o apelido de ‘Godard Negro’, fazendo dessas primeiras incursões no campo do cinema uma porta de iniciação a todos que desconhecem seu trabalho. A sessão ocorrerá na Sala João Cardoso Aires, sendo imediatamente seguida de debate aberto ao público. A entrada é franca.
SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Contra’s City (Senegal, 1969) + A Viagem da Hiena (Senegal, 1973) de Djibril Diop Mambéty
Sábado, 28 de abril de 2012, às 14h, com debate após a sessão
Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, Derby, 609

O Pássaro das Plumas de Cristal (Itália, 1970), de Dario Argento

Por Luiz Soares Junior*

Imagem

O pássaro das plumas de cristal, que o Dissenso exibe neste sábado (31) às 14h, contém uma espécie de programa de todo o cinema de Argento, um cinema sobre os trompe l’oeils da imagem – suas potências de conhecimento e  ilusão, de manipulação e fascínio. O ponto de vista em seu cinema é uma arena onde somos obrigados a entreter um literal “corpo a  corpo” com a  imagem; a câmera se encarna em distintas perspectivas – o assassino, a  vítima, um animal, qualquer corpo que encontremos ou que nos encontre pelo caminho; ela percorre  a trajetória de uma enquête, mas não apenas policial; cognitiva e fenomenológica. Sam vê da vitrine de uma galeria o “que lhe parece” ser uma mulher sendo agredida. Mas por que Argento se detém maniacamente sobre esta sequência inicial – fazendo-a retornar ao longo do filme em repetidos flash-backs, analisando-a e diferindo-a através de zooms, câmera lenta, blows up? O que se intenta aqui, nas palavras de Nicole Brenez, é um estudo da imagem (autópsia?). O que parecia possuir um status objetivo – registro de caso, um testemunho alicerçado no raccord de direção do olhar, “fato” – revela-se como enigma, puzzle. O domínio das imagens em seu cinema não delineia uma superfície, mas escava um palimpsesto. Toda imagem recobre e é recoberta por outra imagem; tudo o que nos aparece exige uma investigação arqueológica e um rastreamento topográfico, pois o fenômeno é apenas a ponta de um iceberg. Qual o status de uma imagem? Alucinação, prova circunstancial, impressão? Sam vai ter de esperar pelo fim do filme para transformar aquela imagem entrevista – flash fotográfico – num plano de cinema: anexar-lhe o fora de campo, o ponto de vista correto, o som off, e enfim aceder à visão justa: a adequação entre o percebido e o real, o Logos e o Ser.

É ao longo do filme que este des-velamento/revelação da imagem originária vai se dar. Se a imagem, à semelhança do recalcado, necessariamente volta e assombra o filme, é porque possui veios insuspeitos, um Logos que nos esquecemos de sondar, um sentido que aspira à expressão. Aqui, não apenas o homem interroga as imagens, mas é por elas interrogado. Se os personagens “deixaram passar” o evento testemunhado (o crime na galeria, o quadro com o rosto do assassino em Profondo rosso, o sonho recorrente da decapitação em Quatro moscas), a  câmera não se pode permitir este luxo. Argento parece ter levado a sério o credo de Freud segundo o qual o que é recalcado pela consciência é o que permanece mais decididamente presente em nós; se esquecemos o estupro, ele não se esqueceu de nós, e permanece infiltrado em nosso gesto casual, nossa nonchalance.  A imagem em seu cinema carrega o estigma do trauma; toda imagem abriga em seu bojo uma profundidade insuspeita, um longo e tenebroso passado, fantasmagórico fora de campo para o filme. Ver um filme é operação que consiste na retificação/ratificação da primeira imagem, daquela que desencadeou a cadeia de crimes, a linha de produção de significantes. É inserir a imagem primeva (o domínio da infância , do fantasma) no circuito da linguagem, dotá-la de significação, domá-la; e nesta operação, exorcizar um tanto de seu fascínio mortífero.

Argento é um maneirista, mas não apenas por votar um culto necrófilo ao passado, a uma certa História do cinema  (o caligrafismo, Bava, Tourneur), e por se empenhar na reconstituição suntuosa e ritualística deste passado. Sobretudo por fazê-lo criticamente, estilhaçando a  harmonia clássica com táticas como o faux-raccord e o raccord no eixo da câmera ou, no domínio da narrativa, com esta contraposição dialética entre dois regimes de imagens, este choque entre duas experiências do signo: o descritivo e o narrativo. Em seu cinema , começamos com o delineamento das coordenadas do drama ou de uma atmosfera: campo e  contracampo da perseguição da vítima pelo assassino, pontos de vista que intensificam a sensação às expensas da lógica causal, coups de théatre. Súbito, temos a interrupção ou o atropelo de um regime por outro, agora descritivo: são-nos apresentadas as armas do assassino, erótica e lancinantemente acariciadas pela câmera, o seu lidar e ser lidado pelos instrumentos da morte. Se Argento parece cultivar a belle image – o esplendor e o fascínio clássicos – é um pouco à semelhança destes bichos miméticos que parecem esposar a  aparência do predador para no momento certo darem o bote e devorá-lo. A sua arte é uma máquina perversa de  suscitar cintilações e crispações em superfícies consagradas (o thriller, o giallo, a herança hitchcockiana, o conto gótico), e assim revelar toda a dor e a delícia de que uma imagem é capaz.

* Luiz Soares Junior escreve para a Revista Cinética e mantém o blog de traduções Dicionários de Cinema.

SERVIÇO

O Pássaro das Plumas de Cristal (Itália, 1970), de Dario Argento

Sábado, 31 de março de 2012, às 14h, com debate após a sessão
FUNDAJ – Sala João Cardoso Aires
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita



Ménilmontant (França, 1926), de Dimitri Kirsanof + Zero de Comportamento (França, 1933), de Jean Vigo

Neste sábado, 17 de março, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe os médias-metragens franceses Ménilmontant (1926), de Dimitri Kirsanoff, e Zero de Comportamento (1933), de Jean Vigo. Partindo das sinfonias urbanas, o primeiro constrói a tragédia de duas irmãs, órfãs de pais assassinados, que tentam sobreviver à realidade da metrópole parisiense. Já o segundo utiliza-se da comédia para apresentar a insurreição anarquista de um grupo de alunos internos, abraçando o surrealismo próprio às primeiras fases da vida de seus protagonistas. Filiando-se a movimentos cinematográficos de forte contraste formal – o Impressionismo Francês e sua utilização de efeitos pictóricos para evocar o subjetivo e o inefável, no caso de Kirsanoff, e o Realismo Poético e sua ênfase no caráter imanente das tragédias sociais cotidianas, caso de Vigo – assistí-los em sequência permite perceber as inúmeras formas com que eles transcendem estas tendências e aproximam-se na busca por uma escrita poética, em oposição à prosa cinematográfica hegemônica.

Daisy Miller (EUA, 1974), de Peter Bogdanovich

Por André Antônio

“Frederick, what I really think is that you had better not meddle with little American girls who are—as you mildly put it—uneducated.”

O que diferencia as imagens que temos diante de nós? Dentre as coisas que não cessam de passar através da materialidade violenta da vida, o que cairá para sempre no esquecimento e o que, pelo contrário, pesará incontrolavelmente na memória do eu como um fantasma? Talvez, essas perguntas ajudem a entender o que, no cinema, parece fascinar o norte-americano Peter Bogdanovich, a quem o Cineclube Dissenso dedica uma sessão neste sábado (3), às 14h, na Fundaj (Sala João Cardoso Aires). O filme é Daisy Miller, de 1974, sobre uma leviana jovem americana (Cybill Shepherd) que, no século XIX, está de férias na Europa com sua família nouveau riche e lá conhece Frederick (Barry Brown), um cavalheiro aristocrata que, por algum motivo, a acha misteriosamente fascinante. O roteiro foi baseado no romance homônimo de Henry James.

Quem espera do filme, porém, qualquer espécie de “aprofundamento psicológico” na personagem-título vai se decepcionar. Porque o filme, antes de tudo, é menos sobre Daisy e mais sobre o que ocorre quando Frederick olha para ela. Uma das marcas mais fortes da encenação de Bogdanovich é o uso do plano subjetivo: quando o mundo, mostrado ao espectador pela câmera, é filtrado pela relação subjetiva ou sentimental que o personagem que estabelece com esse mundo. O que interessa ao filme é menos desvendar o “interior” de seus personagens e mais se entregar às opacidades e sentimentos que as relações do olhar humano criam.

Pois são justamente essas relações, surgidas do olhar subjetivo, que estabelecem a diferença entre as imagens da vida: aquelas banais, que passam e não nos pertencem, e aquelas que permanecem a nos assombrar. O estilo de Bogdanovich é, ao mesmo tempo, simples, discreto (seus planos subjetivos nunca “entregam” um significado fechado, dado, para a relação que eles instauram), chamando pouca atenção para si, e ao mesmo tempo preciso e incisivo naquilo que vai aos poucos construindo: um peso incontrolável para o passado. Os personagens de Bogdanovich sempre carregam, envergados, esse peso. O cinema parece fascinar o diretor na medida em que, nele, essas relações adquirem um importância impressionante ao incorporarem o poder do tempo. O mundo que ele constrói, assim, se assemelha a um palco onde as coisas se sucedem de maneira muito rápida e, mal tendo tempo de decidir o que fazer, já estamos melancolicamente arrependidos daquilo que não fizemos, mas deveríamos ter feito. Talvez exatamente por essa amargura do arrependimento os críticos falem que Bogdanovich possui – ao contrário de seus conterrâneos da Nova Hollywood (Cimino, Scorsese, De Palma, Coppola) – uma “sensibilidade europeia”.

A emoção que borbulha no que é mais conhecido de Bogdanovich entre nós – filmes como Lua de papel (1974), A última sessão de cinema (1971) ou Marcas do destino (1985) – talvez seja mais dificilmente tateada na diegese de Daysi Miller, que compartilha com Barry Lyndon o mesmo universo de costumes e convenções sociais, e portanto se distancia de uma dimensão mais melodramática. Porém, talvez por isso mesmo seja possível ver de maneira mais clara o que Bogdanovich está aperfeiçoando para construir o plano cinematográfico que é sua marca: um plano subjetivo, relacional e pretérito. Após a sessão, debate na própria sala da exibição.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Daisy Miller (EUA, 1974), de Peter Bogdanovich
Sábado, 3 de marçoo de 2012, às 14h, com debate após a sessão
FUNDAJ – Sala João Cardoso Aires
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

A Cara que Mereces (Portugal, 2004), de Miguel Gomes

Por Fábio Ramalho

“Eu estou doente. Vocês são sete para que eu fique bom. E devem todos pensar assim: ele é ele, nós somos nós. Nós somos sete para que ele fique bom.”

Tido como um dos importantes nomes do novo cinema português, Miguel Gomes realiza com o seu primeiro longa-metragem, A cara que mereces (2004), que o Cineclube Dissenso exibe no próximo dia 25 de fevereiro, às 14h, uma revisitação do universo da infância marcada por diversos elementos a esta comumente associados, tais como os contos de fadas, as canções de ninar, as fantasias, os jogos e os pactos, as lendas e os monstros. Dividido em duas partes, a obra toma inicialmente as circunstâncias de um aniversário como mote para colocar em movimento um exercício de fabulação levado a cabo pelo protagonista em seu acerto de contas com o passado e consigo mesmo. Nesse sentido, A cara que mereces se dedica a elaborar uma forma para essa necessidade que por vezes nos assola: a necessidade de sair de cena quando constatamos que algo deu errado, a fim de melhor nos recompormos.

Deste desejo de retirada resulta uma operação mediante a qual é o próprio filme que termina por derivar, instalando-se em outro espaço e em outra temporalidade marcados não mais pelo ritmo e pelas exigências de um relato, mas pelo esforço realizado com vistas a delimitar uma espécie de refúgio. Nessa pausa, que equivale ao período de convalescença e se desdobra segundo suas próprias regras, é a natureza das relações de cumplicidade e de disputa características da infância, bem como os vínculos daí resultantes, que vêm assumir a dianteira. Em última instância, é o próprio exercício do cinema que se constitui nessa comunidade, nutrindo-se dessa philia.

Num determinado momento do filme, dois personagens conversam e um deles manifesta uma crescente irritação para com as digressões que conduzem a história que está sendo contada a caminhos inesperados e aparentemente aleatórios. À irritação de seu interlocutor, aquele que está narrando, responde: é preciso ter paciência para escutar uma história. De certo modo, não é outra coisa que o filme de Miguel Gomes nos pede com sua lógica pouco convencional. A recompensa para aqueles que se dispuserem a entrar no jogo proposto é a possibilidade de partilhar uma experiência na qual os tempos da brincadeira e da fábula se conjugam para nos falar um pouco daquilo que nos constitui e que nos acompanha. Um parêntese, enfim, para evocar figuras – lembradas ou inventadas, pouco importa – que podem ter sido decisivas durante certas experiências formadoras; figuras que persistem, prontas para serem presentificadas e, nesse entretempo, darem testemunho de tudo aquilo que, em certa medida, ainda somos.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
A Cara que Mereces (Portugal, 2004), de Miguel Gomes
Sábado, 25 de fevereiro de 2012, às 14h
FUNDAJ – Sala João Cardoso Aires
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

Primata (EUA, 1974), de Frederick Wiseman

Vinheta

Por André Antônio

mostra yasujiro ozu from Cineclube Dissenso on Vimeo.

Mostra Yasujiro Ozu – Apresentação

Por Fernando Mendonça

Ter a oportunidade de assistir a uma série de filmes, em sequência, de Yasujiro Ozu, traz a inabalável convicção de que este foi um diretor empenhado em construir, no decorrer da carreira, um único filme. Constatar os pontos de ligação de seus trabalhos, na abundância de conexões temáticas e estilísticas, é como orientar-se naturalmente a encarar cada novo título desta obra como espécies de refilmagens, de retomadas naquilo que já se viu, mas que novamente se oferece sob um desgaste inédito. Ozu nunca temeu a repetição. Do contrário, fez dela o alicerce de todo um projeto investigativo da humanidade e desta singular forma de abraçar o mundo pela imagem em movimento. Seu cinema, sobre homens e grupos sociais limitados por um cotidiano que não exclui a felicidade, é também um cinema sobre o cinema, sobre o que se pode fazer com ele e, principalmente, sobre o que ele não pode fazer.

Na trajetória percorrida pelo diretor, de seus primeiros filmes mudos, quase todos destruídos pelo tempo, até seu primeiro exemplar falado (Filho Único, filme abertura da Mostra), Ozu aprendeu cedo que não poderia confiar no ofício escolhido para sua vida. Daí a inevitável elaboração de uma gramática própria, de uma consciência do fazer cinematográfico pautada pela aceitação da fraude, do engodo. “O filme não representa o mundo como ele é”, diz o cineasta, que assumia ser este meio de expressão um destruidor da realidade, uma “ferida brutal” contra um mundo naturalmente corrompido. E por isto a confrontação. Um estado de descrença contra tantos elementos (montagem, narrativa, lógica de roteiro) constitutivos de um cinema que, já em sua época, agonizava uma evidente impotência de autonomia; um cinema que aprisionava o mundo e assim também se condenava ao silêncio.

Até que alcançasse o reconhecimento unânime da crítica (por filmes como Pai e Filha), e fosse celebrado internacionalmente como um dos maiores diretores do Japão (o caso específico de Era Uma Vez em Tóquio), Ozu desenvolveu um estilo muito peculiar de trabalho com as câmeras e os eventos que habitualmente escolhia filmar. Por mais que hoje reconheçamos um ‘estilo Ozu’ de se fazer cinema e toda uma escola de seguidores – que incluem nomes dos mais célebres, de Kiarostami a Hsiao-Hsien – venha retomando seu imaginário em prol de questões que de fato tocam a contemporaneidade, o próprio Ozu sempre foi avesso à identificação de uma estética para o seu legado. Da mesma forma, as situações selecionadas para composição de seus enredos, ainda que emanem uma tonalidade universal de abrangência, sempre foram feitas sem pretender grandes interpretações ou filosofias; até por isso ter sido Ozu um diretor que enfrentou não somente o cinema, desde sua formação técnica e tecnológica, mas a maneira como sua nação e as principais nações do mundo encaravam o discurso possibilitado pela sétima arte.

Se cada um de seus filmes surge como repetição de algum anterior, seja pelos atores, personagens, ações e diálogos; e se dentro de cada filme também é efetuado um abismo de reflexos, com mesmos planos, enquadramentos, durações e cortes, é porque não há repetição, em Ozu, que não venha acompanhada primeiramente de um deslocamento, de uma instabilidade organicamente associada à passagem do tempo e das transformações que ele discreta ou explicitamente realiza sobre a materialidade das coisas. Os filmes finalizados pelo diretor em sua última década de vida, hoje devidamente reconhecidos como dentro de um autêntico ciclo de remakes, ou antiremakes, do conjunto geral de sua obra, atestam uma amarga maturidade de alguém que lutou para sobreviver íntegro para com o que acreditava e que, ironicamente, concluiu com sua própria vida. Nesse sentido, seus dois últimos filmes (Fim de Verão e A Rotina Tem Seu Encanto) dão perfeito exemplo de um cinema que não se fecha, mas que continua ‘flutuante’, para recorrer a um termo aplicado à descrição da característica montagem de Ozu, uma montagem aberta, antisemântica e paralela ao estado caótico do mundo.

Finalmente, consideremos uma reflexão oferecida pelo cineasta Kiju Yoshida, em seu livro O Anticinema de Yasujiro Ozu: “É difícil definir sem hesitação o princípio que norteia a relação basilar de Ozu com sua obra, mas o certo é que não há outro meio de encontrá-lo a não ser por um conceito que expresse o caos do mundo. Talvez seja necessário dizer que Ozu considerava o mundo um lugar de caos infinito e, tendo isso como premissa, firmou um pacto secreto segundo o qual fazer cinema significava incorrer em falsificar a realidade.” E daí decorre o anticinema de Ozu, este lado avesso que hoje buscamos com a reunião dos cinco filmes selecionados para a Mostra no Cineclube Dissenso. A oportunidade de vê-los em conjunto, no que pesa uma qualidade específica de projeção (16 mm), não deixa de ser em absoluto uma experiência avessa; contrária aos parâmetros da própria linguagem do cinema, contrariedade que é inerente a Ozu, e oposta a toda uma prática de difusão e veiculação de filmes num mundo cada vez mais digital e individualista. Voltar a Ozu, mais do que voltar a um estilo, a um período histórico ou a um conjunto específico de códigos culturais, é voltar ao que um filme pode oferecer dentro da simplicidade de ser filme, se luz e sombra, ser a certeza de uma ilusão. Voltar ao cinema, é o que podemos dizer.

Mostra Yasujiro Ozu – Programação

O Cineclube Dissenso abre sua agenda de 2012 com a realização de uma mostra especial sobre o diretor Yasujiro Ozu (1903-63). Em parceria com o Escritório Consular do Japão no Recife, será exibida no Cinema da Fundação, em cinco tardes de Janeiro, uma retrospectiva com alguns dos principais filmes do realizador, em 16mm. Entre os dias 25 e 29, de quarta a domingo, o Cineclube dará a justificativa de Ozu ter se afirmado um dos principais autores do cinema japonês, deixando como herança uma filmografia que vem sendo bastante retomada pela contemporaneidade global, seja na exploração de temas básicos ao homem, como na própria elaboração dos gêneros narrativos e constituição do cinema enquanto linguagem.

Como sempre, as sessões são gratuitas e seguidas por um debate aberto na Sala Edmundo Morais. Para encerrar a Mostra, no dia 29 (domingo), logo após a sessão, contaremos com uma palestra sobre o cineasta, gentilmente oferecida pelo crítico de cinema Luiz Soares Jr., na mesma sala dos debates.

Serviço:

Mostra Yasujiro Ozu (16mm)
De quarta (25) a domingo (29)
Entrada Franca
Cinema da Fundação
Endereço: Av. Henrique Dias, 609 – Derby
Informações: 3073-6767 (Fundação Joaquim Nabuco)

Programação:

25, Quarta, 16:20h

Filho Único (Hitori Musuko, 1938)
Primeiro filme falado de Ozu. Sobreposição de episódios a respeito de uma mãe solteira, operária de uma fábrica, que sofre para poder criar o filho com dignidade. Passados os anos, ela decide ir visitar seu filho, já adulto, esperando encontrar um médico bem sucedido. Termina por deparar-se com um cenário de miséria e desemprego, muito semelhante ao que sempre viveu. 84 min. P&B. 16mm.

26, Quinta, 16:20h

Pai e Filha (Banshun, 1949)
Com este filme, Ozu ganhou notoriedade internacional, inaugurando uma série de projetos sobre a desagregação dos valores familiares e os conflitos entre as gerações. Nele, uma jovem dedicada a cuidar do pai viúvo, apaixona-se, mas não sabe o que fazer de sua vida. Somente com um falso casamento que seu pai fingirá contrair, ela poderá considerar o caminho de sua própria felicidade. 108 min. P&B. 16mm.

27, Sexta, 15:50h (Novo Horário)

Era Uma Vez em Tóquio (Tôkyô Monogatari, 1953)
Considerado por muitos como a obra-prima do diretor, este filme celebrou uma espécie de nova maturidade para Ozu, que na época de seu lançamento completava 50 anos. Nele, um casal de idosos visita os filhos após uma ausência de duas décadas, mas são desprezados por seus descendentes, encontrando abrigo na hospitalidade de uma jovem nora que já está viúva. 135 min. P&B. 16mm.

28, Sábado, 14:00h

Fim de Verão (Kohayagawa-Ke No Aki, 1961)
No pós-guerra, patriarca de uma família em crise financeira revive uma antiga paixão. Enquanto isso, ele tenta casar sua segunda filha, bem como sua nora. Filme que representa a derrocada da família tradicional japonesa e do próprio indivíduo que, confrontado com uma realidade em transformação, tem como única certeza a existência da morte. 103 min. Cor. 16mm.

29, Domingo, 14:00h

A rotina Tem Seu Encanto (Sanma no Aji, 1962)
Último filme de Ozu. Um viúvo de idade avançada preocupa-se em arranjar o casamento de sua filha. Militar, ex-combatente na Segunda Guerra, ele sente com seus amigos fuzileiros o peso dos anos, de uma história que assola o Japão até mesmo em suas relações mais íntimas. 113 min. Cor. 16mm.

16:00h  -  Palestra Sobre Yasujiro Ozu, com Luiz Soares Jr.

Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (Espanha, 1980), de Pedro Almodóvar

Por Mariana Lins

A experiência cinematográfica ganha novos nuances nas mãos de Pedro Almodóvar, um diretor que prima pela ousadia e consegue levar à grande tela os desejos mais reprimidos e, ao mesmo tempo, corriqueiros do homem moderno. Em seu segundo longa, Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (1980) que o Cineclube Dissenso exibe no próximo sábado (26/11), às 14h, no Cinema da Fundação, o espanhol reúne no roteiro todos os elementos que o envolviam e influenciavam na época.

Recém-saída da ditadura franquista, a Espanha vivia o ápice da efervescência cultural no que ficou marcado como a movida madrileña. Naquele momento, artistas de todas as vertentes exprimiam, por meio de suas obras, a liberdade surrupiada pelos longos anos de totalitarismo. Almodóvar estava exatamente no olho do furacão, realizando curtas e um longa em Super 8 e criando histórias mirabolantes, influenciado pelos quadrinhos e por toda a cultura pop que, aos poucos, penetrava o mundo underground da capital espanhola.

Encorajado pela atriz Carmen Maura, amiga e principal entusiasta de seu trabalho, que viria a ser musa de seus próximos filmes, ele abandona o Super 8 e filma Pepi, Luci, Bom… em 16 mm. O orçamento mais do que limitado faz com que a película leve um ano e meio para ficar pronta, já que as câmeras emprestadas só eram liberadas à noite e nos finais de semana. Mesmo com os percalços, o longa foi o passaporte que Almodóvar precisava para conquistar espaço no meio cinematográfico espanhol.

O filme se passa no subúrbio de Madri, mais precisamente em um conjunto residencial popular onde vivem as jovens Pepi (Carmen Maura), Luci (Eva Silva) e Bom (Alaska). Pepi vive sozinha, bancada pelos pais, criando artimanhas para descolar uma grana aqui e ali. Certo dia, o vizinho policial resolve fazer diligências na casa dela e acaba encontrando uma plantação de maconha em pequenos vasos. A moça seduz o investigador, para aliviar sua barra com a polícia, mas avisa que o sexo só poderá ser anal, já que estava negociando sua virgindade por dinheiro.

Pepi é violentada pelo policial e passa tê-lo como inimigo número um, o que faz com que ela e a amiga Bom passem a maior parte do tempo planejando como se vingar do homem. Coincidentemente, elas ficam amigas de Luci, esposa pudica e sadomasoquista do policial, com quem vivem o período mais maluco de suas vidas. Juntas, elas se drogam, frequentam festas, inferninhos e experimentam de tudo no submundo madrileño.

Almodóvar já delineia, a partir deste filme de início de carreira, traços que o acompanharão pelo resto de sua filmografia, como as cores fortes, as personagens pitorescas e o forte papel da trilha sonora na película. Três décadas depois, Pepi, Luci, Bom é considerado o item mais cult (e raro) da filmografia do diretor espanhol.

Após a sessão, debate na sala Edmundo Moraes.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Pepi Luci Bom e outras garotas de montão (Espanha, 1980), de Pedro Almodóvar
Sábado, 26 de novembro de 2011
Cinema da Fundação, às 14h
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

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