Por Fábio Ramalho
“Eu estou doente. Vocês são sete para que eu fique bom. E devem todos pensar assim: ele é ele, nós somos nós. Nós somos sete para que ele fique bom.”
Tido como um dos importantes nomes do novo cinema português, Miguel Gomes realiza com o seu primeiro longa-metragem, A cara que mereces (2004), que o Cineclube Dissenso exibe no próximo dia 25 de fevereiro, às 14h, uma revisitação do universo da infância marcada por diversos elementos a esta comumente associados, tais como os contos de fadas, as canções de ninar, as fantasias, os jogos e os pactos, as lendas e os monstros. Dividido em duas partes, a obra toma inicialmente as circunstâncias de um aniversário como mote para colocar em movimento um exercício de fabulação levado a cabo pelo protagonista em seu acerto de contas com o passado e consigo mesmo. Nesse sentido, A cara que mereces se dedica a elaborar uma forma para essa necessidade que por vezes nos assola: a necessidade de sair de cena quando constatamos que algo deu errado, a fim de melhor nos recompormos.
Deste desejo de retirada resulta uma operação mediante a qual é o próprio filme que termina por derivar, instalando-se em outro espaço e em outra temporalidade marcados não mais pelo ritmo e pelas exigências de um relato, mas pelo esforço realizado com vistas a delimitar uma espécie de refúgio. Nessa pausa, que equivale ao período de convalescença e se desdobra segundo suas próprias regras, é a natureza das relações de cumplicidade e de disputa características da infância, bem como os vínculos daí resultantes, que vêm assumir a dianteira. Em última instância, é o próprio exercício do cinema que se constitui nessa comunidade, nutrindo-se dessa philia.
Num determinado momento do filme, dois personagens conversam e um deles manifesta uma crescente irritação para com as digressões que conduzem a história que está sendo contada a caminhos inesperados e aparentemente aleatórios. À irritação de seu interlocutor, aquele que está narrando, responde: é preciso ter paciência para escutar uma história. De certo modo, não é outra coisa que o filme de Miguel Gomes nos pede com sua lógica pouco convencional. A recompensa para aqueles que se dispuserem a entrar no jogo proposto é a possibilidade de partilhar uma experiência na qual os tempos da brincadeira e da fábula se conjugam para nos falar um pouco daquilo que nos constitui e que nos acompanha. Um parêntese, enfim, para evocar figuras – lembradas ou inventadas, pouco importa – que podem ter sido decisivas durante certas experiências formadoras; figuras que persistem, prontas para serem presentificadas e, nesse entretempo, darem testemunho de tudo aquilo que, em certa medida, ainda somos.
SERVIÇO
Cineclube Dissenso
A Cara que Mereces (Portugal, 2004), de Miguel Gomes
Sábado, 25 de fevereiro de 2012, às 14h
FUNDAJ – Sala João Cardoso Aires
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita




Um comentário
Estarei na primeira fila, depois comento minhas impressões. Abraços