Por Mariana Lins
A experiência cinematográfica ganha novos nuances nas mãos de Pedro Almodóvar, um diretor que prima pela ousadia e consegue levar à grande tela os desejos mais reprimidos e, ao mesmo tempo, corriqueiros do homem moderno. Em seu segundo longa, Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (1980) que o Cineclube Dissenso exibe no próximo sábado (26/11), às 14h, no Cinema da Fundação, o espanhol reúne no roteiro todos os elementos que o envolviam e influenciavam na época.
Recém-saída da ditadura franquista, a Espanha vivia o ápice da efervescência cultural no que ficou marcado como a movida madrileña. Naquele momento, artistas de todas as vertentes exprimiam, por meio de suas obras, a liberdade surrupiada pelos longos anos de totalitarismo. Almodóvar estava exatamente no olho do furacão, realizando curtas e um longa em Super 8 e criando histórias mirabolantes, influenciado pelos quadrinhos e por toda a cultura pop que, aos poucos, penetrava o mundo underground da capital espanhola.
Encorajado pela atriz Carmen Maura, amiga e principal entusiasta de seu trabalho, que viria a ser musa de seus próximos filmes, ele abandona o Super 8 e filma Pepi, Luci, Bom… em 16 mm. O orçamento mais do que limitado faz com que a película leve um ano e meio para ficar pronta, já que as câmeras emprestadas só eram liberadas à noite e nos finais de semana. Mesmo com os percalços, o longa foi o passaporte que Almodóvar precisava para conquistar espaço no meio cinematográfico espanhol.
O filme se passa no subúrbio de Madri, mais precisamente em um conjunto residencial popular onde vivem as jovens Pepi (Carmen Maura), Luci (Eva Silva) e Bom (Alaska). Pepi vive sozinha, bancada pelos pais, criando artimanhas para descolar uma grana aqui e ali. Certo dia, o vizinho policial resolve fazer diligências na casa dela e acaba encontrando uma plantação de maconha em pequenos vasos. A moça seduz o investigador, para aliviar sua barra com a polícia, mas avisa que o sexo só poderá ser anal, já que estava negociando sua virgindade por dinheiro.
Pepi é violentada pelo policial e passa tê-lo como inimigo número um, o que faz com que ela e a amiga Bom passem a maior parte do tempo planejando como se vingar do homem. Coincidentemente, elas ficam amigas de Luci, esposa pudica e sadomasoquista do policial, com quem vivem o período mais maluco de suas vidas. Juntas, elas se drogam, frequentam festas, inferninhos e experimentam de tudo no submundo madrileño.
Almodóvar já delineia, a partir deste filme de início de carreira, traços que o acompanharão pelo resto de sua filmografia, como as cores fortes, as personagens pitorescas e o forte papel da trilha sonora na película. Três décadas depois, Pepi, Luci, Bom é considerado o item mais cult (e raro) da filmografia do diretor espanhol.
Após a sessão, debate na sala Edmundo Moraes.
SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Pepi Luci Bom e outras garotas de montão (Espanha, 1980), de Pedro Almodóvar
Sábado, 26 de novembro de 2011
Cinema da Fundação, às 14h
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita



