Por Ranieri Brandão
“Aonde se inscrevem estas imagens?” Em 1992, a câmera de Werner Herzog sobrevoava as planícies desérticas do Kuwait pós-Guerra do Golfo, queimadas pelo fogo, banhadas pelo petróleo, e por muito tempo mantidas por uma hipnotizante ausência de figuras humanas. No primeiro momento de exposição, temos que nos perguntar exatamente sobre qual a natureza dessas imagens e se aquilo que a voz off conta por sobre elas corresponde a uma ficção científica improvável (mas possível, possibilitada pelos contornos fantásticos e selvagens das matérias captadas) ou à documentação de algo que, de tão absurdo, só poderia se dar à câmera e ao cinema como objeto ficcional. O que Lições da Escuridão – que o Cineclube Dissenso exibe nesse sábado (19/11) no Cinema da Fundação, excepcionalmente às 15h – parece tocar é a estrutura fundamental do cinema de Herzog em particular e do cinema como um todo: o dar às imagens na tela uma outra vida que, paralela àquilo que tais imagens representam por serem fruto da captura de coisas perfeitamente filmáveis, é então revista de forma alienígena, ressignificada, re(pro)posta e reapresentada.
Quando a câmera de Herzog plana sobre o cenário devastado, aparentemente abandonado e morto, sua visão e a consequente voz off impõem àquele mundo a linguagem espetacular que o faz ser representado como parte de um planeta desconhecido, como um passo da humanidade em direção à colonização espacial (e não faltam imagens de homens trabalhando, imagens que parecem atestar esse domínio, esse trabalho da loucura em espaços desconhecidos). É preciso, então, proceder à nomeação, à criação da História e cultura desse mundo, seu início (os primeiros contatos que se estabelecem com os “seres” que habitam tal mundo) e seu fim (a história de uma guerra, os restos de ferramentas e estruturas arquitetônicas). “Dar histórias”, esse procedimento infantil, muitas vezes é renomear coisas e espaços como crianças renomeiam e dão novas funções a seus brinquedos, é percorrer o mesmo caminho a partir de um outro olhar. O que a Guerra do Golfo proporcionou, o trauma e a profunda cicatriz naquele espaço irreconhecível que se desligou da geologia terrestre para ser um planeta particular dentro do nosso, para Herzog não foi outra coisa senão a impossibilidade de encontrar um ponto de vista definitivo para se posicionar e tratar aquelas imagens. Daí, a transitoriedade entre o documentário como ficção, e a ficção como um modo de enxergar e mediar a verdade daquilo que se documenta e se retém.
E daí também os efeitos fatais da experiência: como se aquele mundo estivesse encurralado por dois espelhos, pode-se ter uma ideia dos discursos originais provenientes das imagens originais sem a voz off que as transtornam (mas que as mantém “sãs”, contando ainda as mesmas histórias de tragédia e de inferno), porque Herzog costura verdades documentais (uma mulher que “tinha alguma coisa para nos dizer [mesmo tendo perdido a voz]”; a mulher que teve o filho pequeno agredido por soldados e que também perdeu a voz – a fala, esse fator tão importante neste cinema) com as verdades daquilo que ele insiste em transformar em ficção e em planície de outro planeta.
Afinal, a “lição” de Lições da Escuridão parece ser a do disfarce, o infinito jogo de uma verdade que perpassa aquele espaço e que não morre, pois a verdade “de ficção” que Herzog deposita sobre esse lugar isolado pelo fogo e o desespero coloca em xeque todo o sistema de representação, o que parece ser algo extremamente de acordo com aquilo que o espaço filmado se tornou. Porque afinal parece ser muito difícil estabelecer se é mesmo o óleo que se disfarça de água, ou se a água é quem é disfarçada, pela voz do narrador, de óleo que se disfarça de água. Problemas da ficção e do Real.
A sessão contará com a presença de Ranieri Brandão, crítico de cinema e editor do site Filmologia, que participará de um debate com o público, após o filme, na sala Edmundo Morais.
SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Lições da Escuridão (França/Reino Unido/Alemanha, 1992), de Werner Herzog
Sábado, 19 de novembro de 2011
Cinema da Fundação, 15h (em horário excepcional)
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita



