“We had faces then!”, diz a personagem de Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950). Sim, os atores do cinema mudo americano tinham rostos, e tinham corpos também. Corpos que dançam, gesticulam, se contorcem, significam. Corpos que, como os rostos das grandes estrelas, permanecem distantes e imateriais – aparições. E são numerosos os corpos etéreos que vemos nos dois filmes que o Cineclube Dissenso exibe este sábado, 23/7: Ló em Sodoma (Lot in Sodom, EUA, 1933) e Salomé (EUA, 1923).
Estes não são, entretanto, exemplares típicos do cinema americano dos anos 20 e começo dos anos 30. São, cada um à sua maneira, produções independentes, criadas à margem ou à revelia do sistema de estúdios de Hollywood, já plenamente estabelecido no começo da década de 20. Produções que ousadamente ignoram ou buscam expandir o limitado escopo de temas e escolhas estéticas que a moralidade e, principalmente, a rentabilidade impõem como aceitáveis. Os dois filmes têm em comum uma sensibilidade raramente vista no cinema americano da época: erudita, rarefeita, simbolista, fin-de-siècle, um tanto camp, bastante queer.
Dirigido, junto com Melville Webber, por James Sibley Watson, médico de profissão com fortuna suficiente para perseguir o cinema como paixão e hobby, Ló em Sodoma pode ser entendido como uma tentativa de aplicar as teorias literárias de e. e. cummings e Ezra Pound no cinema – uma busca por um vocabulário formal preciso, no qual combinações de técnicas de filmagem e edição acarretam emoções específicas. O que mais surpreende no filme, entretanto, é o homoerotismo de suas imagens. A cidade bíblica do pecado é povoada por belos jovens seminus; a câmera persegue seus corpos, passeia por suas peles, fixa-se em seus rostos. Os efeitos de sobreposição e os truques de edição multiplicam seus movimentos e detêm o tempo para que seus gestos estilizados possam ser contemplados com mais vagar. A cidade da sensualidade e beleza é destruída pelo fogo divino, mas suas estranhas imagens sobrevivem na película.
Bem mais próxima ao sistema de estúdios estava Alla Nazimova. A atriz russa era uma das figuras mais poderosas de Hollywood no fim dos anos 10 e começo dos anos 20, graças às suas atuações magnéticas e à personalidade exótica e misteriosa que cultivava. Com o dinheiro e credibilidade que lhe renderam seu estrelato, criou em 1918 a Nazimova Productions, concentrando-se exclusivamente em filmes que lhe interessavam, sempre estrelados por ela mesma. Fez oito filmes combinando as funções de atriz, produtora e roteirista, todos eles perdidos ou danificados, com exceção do último, Salomé – uma adaptação da peça de Oscar Wilde de 1891.
Dirigido pelo ator Charles Bryant, seu marido por conveniência em uma época em que a homossexualidade podia destruir uma carreira no cinema, Salomé não apresenta inovações no trabalho de câmera ou na edição. Seu aspecto mais vanguardista é a direção de arte e figurino, assinados por Natacha Rambova, discípula de Nazimova e esposa de Rodolfo Valentino. Os cenários quebram completamente com o realismo ao recusar a profundidade, remetendo às ilustrações chapadas de Aubrey Beardsley para a peça de Oscar Wilde e às origens teatrais do texto. Como Beardsley, Rambova faz excelente uso do preto-e-branco do filme para atingir o máximo de dramaticidade. Nesse estranho palco povoado por figuras grotescas e de sexualidade ambígua, Nazimova demonstra o talento que a tornou um ícone. Sua atuação extremamente estilizada – mesmo para os padrões do cinema mudo – casa controle com excesso, o ridículo com o sublime.
Fracasso de público e crítica, Salomé é um experimento falho e fascinante, que arruinou a carreira de produtora de Nazimova. Como Ló em Sodoma, é um raro sobrevivente de um cinema americano esquecido e que merece ser reavaliado.
SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Ló em Sodoma (EUA, 1933), de James Sibley Watson e Melville Webber, e Salomé (EUA, 1923), de Charles Bryant
Sábado, 23 de julho de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby



