Por Sônia Lessa Norões
Se não há filme, não se pode assisti-lo, e se não há quem o assista, também não há filme.
A construção desse ciclo vicioso não é tão obvio como parece. Percorre as mesmas dificuldades que enfrentou Aristóteles, em 300 a.C., quando refletiu sobre a relação entre o número e o numerante (quem pensa o número). Confusão ampliada pela compreensão da evolução da matéria: antes da aparição do cérebro humano já existiam as leis físicas que os números representam. (O astrofísico canadense Hubert Reeves conta bem essa história, no livro Malicorne – Reflexões de um observador da Natureza.
Assim é um filme.
O público assiste o filme, significante de uma mensagem veiculada através de recursos técnicos também portadores de uma semântica, de um significado. A direção e o roteiro já expressam significados nas técnicas escolhidas para veicular significantes de uma mensagem percebida no caleidoscópio da existência humana. Podemos complicar este raciocínio inicial se introduzimos a reflexão de Henry Laborit, o biólogo autor da tese que é tema do filme “Meu tio na América”, de Alan Resnais. Laborit, no texto Escrita e Conhecimento, que faz parte do livro “L’esprit du grenier” , que conheço de uma tradução amadora para o português, adverte ser o audiovisual incapaz de exprimir um conceito abstrato, pelo menos para o grande público e que sua força advém do fato de tocar diretamente a afetividade, o lado direito do cérebro.
Portanto, o audiovisual seria mais susceptível que a escrita de oferecer significantes, percebidos a partir da história e da memória de cada um dos espectadores. Essa reflexão me alcança porque tive a felicidade de assistir, numa sala improvisada na Universidade Federal de Pernambuco, com um grupo de jovens que têm muita informação sobre cinema mas a metade de minha idade, 2 filmes japoneses, da mesma década - A mulher das Dunas (1964), de Hiroshi Teshigahara e A ilha nua (1960), de Kaneto Skindo, e elegi, em ambos, a água, como a grande metáfora.
É na água que os dois diretores depositam a significação do aprisionamento e da liberdade.
Em A mulher das Dunas, o entomologista encontra o inseto que guiava a sua busca, mas redescobre seu caminho quando encontra água num lugar inóspito. Em A ilha nua, mais que a vida humana, é a água o sinal da continuidade. Mas eu elegi a água como elemento significante nos dois filmes porque eu sabia da importância da água no imaginário japonês: o Japão são ilhas; as florestas das montanhas japoneses são consideradas intocáveis porque as inundações das planíceis só foram contornadas com o reflorestamento dos Alpes; o saquê é chamado de “água”; no imaginário japonês existe o Kappa, um duende aquático com cerca de um metro de altura, o alto da cabeça é côncavo e sempre tem água empossada. Dizem que, se essa água cair, o kappa perde toda a sua força, tornando-se fraco e vulnerável. Então eu entendi a reação do marido quando a mulher derramou a água e entendi porque a água foi uma descoberta mais importante do que o inseto.
Pensei que a juventude que me acompanhava, pela abundância da água oferecida aos bairros mais urbanizados do Recife; por nosso pouco conhecimento sobre as lendas indígenas que deram substância à imaginação de José de Alencar para banhar Iracema nas águas do mar e na cachoeira de Ipu; e por não terem tido ainda tempo de saber mais sobre o Japão, podem ter eleito outro significante.
Pensei na história dos diretores,
pensei na história dos roteiristas,
pensei na memória dos espectadores.
Um comentário
Bom relembrar esses dois grandes filmes e o diálogo que mantivemos na sala improvisada da UFPE