Vinheta

Por André Antônio

mostra yasujiro ozu from Cineclube Dissenso on Vimeo.

Mostra Yasujiro Ozu – Apresentação

Por Fernando Mendonça

Ter a oportunidade de assistir a uma série de filmes, em sequência, de Yasujiro Ozu, traz a inabalável convicção de que este foi um diretor empenhado em construir, no decorrer da carreira, um único filme. Constatar os pontos de ligação de seus trabalhos, na abundância de conexões temáticas e estilísticas, é como orientar-se naturalmente a encarar cada novo título desta obra como espécies de refilmagens, de retomadas naquilo que já se viu, mas que novamente se oferece sob um desgaste inédito. Ozu nunca temeu a repetição. Do contrário, fez dela o alicerce de todo um projeto investigativo da humanidade e desta singular forma de abraçar o mundo pela imagem em movimento. Seu cinema, sobre homens e grupos sociais limitados por um cotidiano que não exclui a felicidade, é também um cinema sobre o cinema, sobre o que se pode fazer com ele e, principalmente, sobre o que ele não pode fazer.

Na trajetória percorrida pelo diretor, de seus primeiros filmes mudos, quase todos destruídos pelo tempo, até seu primeiro exemplar falado (Filho Único, filme abertura da Mostra), Ozu aprendeu cedo que não poderia confiar no ofício escolhido para sua vida. Daí a inevitável elaboração de uma gramática própria, de uma consciência do fazer cinematográfico pautada pela aceitação da fraude, do engodo. “O filme não representa o mundo como ele é”, diz o cineasta, que assumia ser este meio de expressão um destruidor da realidade, uma “ferida brutal” contra um mundo naturalmente corrompido. E por isto a confrontação. Um estado de descrença contra tantos elementos (montagem, narrativa, lógica de roteiro) constitutivos de um cinema que, já em sua época, agonizava uma evidente impotência de autonomia; um cinema que aprisionava o mundo e assim também se condenava ao silêncio.

Até que alcançasse o reconhecimento unânime da crítica (por filmes como Pai e Filha), e fosse celebrado internacionalmente como um dos maiores diretores do Japão (o caso específico de Era Uma Vez em Tóquio), Ozu desenvolveu um estilo muito peculiar de trabalho com as câmeras e os eventos que habitualmente escolhia filmar. Por mais que hoje reconheçamos um ‘estilo Ozu’ de se fazer cinema e toda uma escola de seguidores – que incluem nomes dos mais célebres, de Kiarostami a Hsiao-Hsien – venha retomando seu imaginário em prol de questões que de fato tocam a contemporaneidade, o próprio Ozu sempre foi avesso à identificação de uma estética para o seu legado. Da mesma forma, as situações selecionadas para composição de seus enredos, ainda que emanem uma tonalidade universal de abrangência, sempre foram feitas sem pretender grandes interpretações ou filosofias; até por isso ter sido Ozu um diretor que enfrentou não somente o cinema, desde sua formação técnica e tecnológica, mas a maneira como sua nação e as principais nações do mundo encaravam o discurso possibilitado pela sétima arte.

Se cada um de seus filmes surge como repetição de algum anterior, seja pelos atores, personagens, ações e diálogos; e se dentro de cada filme também é efetuado um abismo de reflexos, com mesmos planos, enquadramentos, durações e cortes, é porque não há repetição, em Ozu, que não venha acompanhada primeiramente de um deslocamento, de uma instabilidade organicamente associada à passagem do tempo e das transformações que ele discreta ou explicitamente realiza sobre a materialidade das coisas. Os filmes finalizados pelo diretor em sua última década de vida, hoje devidamente reconhecidos como dentro de um autêntico ciclo de remakes, ou antiremakes, do conjunto geral de sua obra, atestam uma amarga maturidade de alguém que lutou para sobreviver íntegro para com o que acreditava e que, ironicamente, concluiu com sua própria vida. Nesse sentido, seus dois últimos filmes (Fim de Verão e A Rotina Tem Seu Encanto) dão perfeito exemplo de um cinema que não se fecha, mas que continua ‘flutuante’, para recorrer a um termo aplicado à descrição da característica montagem de Ozu, uma montagem aberta, antisemântica e paralela ao estado caótico do mundo.

Finalmente, consideremos uma reflexão oferecida pelo cineasta Kiju Yoshida, em seu livro O Anticinema de Yasujiro Ozu: “É difícil definir sem hesitação o princípio que norteia a relação basilar de Ozu com sua obra, mas o certo é que não há outro meio de encontrá-lo a não ser por um conceito que expresse o caos do mundo. Talvez seja necessário dizer que Ozu considerava o mundo um lugar de caos infinito e, tendo isso como premissa, firmou um pacto secreto segundo o qual fazer cinema significava incorrer em falsificar a realidade.” E daí decorre o anticinema de Ozu, este lado avesso que hoje buscamos com a reunião dos cinco filmes selecionados para a Mostra no Cineclube Dissenso. A oportunidade de vê-los em conjunto, no que pesa uma qualidade específica de projeção (16 mm), não deixa de ser em absoluto uma experiência avessa; contrária aos parâmetros da própria linguagem do cinema, contrariedade que é inerente a Ozu, e oposta a toda uma prática de difusão e veiculação de filmes num mundo cada vez mais digital e individualista. Voltar a Ozu, mais do que voltar a um estilo, a um período histórico ou a um conjunto específico de códigos culturais, é voltar ao que um filme pode oferecer dentro da simplicidade de ser filme, se luz e sombra, ser a certeza de uma ilusão. Voltar ao cinema, é o que podemos dizer.

Mostra Yasujiro Ozu – Programação

O Cineclube Dissenso abre sua agenda de 2012 com a realização de uma mostra especial sobre o diretor Yasujiro Ozu (1903-63). Em parceria com o Escritório Consular do Japão no Recife, será exibida no Cinema da Fundação, em cinco tardes de Janeiro, uma retrospectiva com alguns dos principais filmes do realizador, em 16mm. Entre os dias 25 e 29, de quarta a domingo, o Cineclube dará a justificativa de Ozu ter se afirmado um dos principais autores do cinema japonês, deixando como herança uma filmografia que vem sendo bastante retomada pela contemporaneidade global, seja na exploração de temas básicos ao homem, como na própria elaboração dos gêneros narrativos e constituição do cinema enquanto linguagem.

Como sempre, as sessões são gratuitas e seguidas por um debate aberto na Sala Edmundo Morais. Para encerrar a Mostra, no dia 29 (domingo), logo após a sessão, contaremos com uma palestra sobre o cineasta, gentilmente oferecida pelo crítico de cinema Luiz Soares Jr., na mesma sala dos debates.

Serviço:

Mostra Yasujiro Ozu (16mm)
De quarta (25) a domingo (29)
Entrada Franca
Cinema da Fundação
Endereço: Av. Henrique Dias, 609 – Derby
Informações: 3073-6767 (Fundação Joaquim Nabuco)

Programação:

25, Quarta, 16:20h

Filho Único (Hitori Musuko, 1938)
Primeiro filme falado de Ozu. Sobreposição de episódios a respeito de uma mãe solteira, operária de uma fábrica, que sofre para poder criar o filho com dignidade. Passados os anos, ela decide ir visitar seu filho, já adulto, esperando encontrar um médico bem sucedido. Termina por deparar-se com um cenário de miséria e desemprego, muito semelhante ao que sempre viveu. 84 min. P&B. 16mm.

26, Quinta, 16:20h

Pai e Filha (Banshun, 1949)
Com este filme, Ozu ganhou notoriedade internacional, inaugurando uma série de projetos sobre a desagregação dos valores familiares e os conflitos entre as gerações. Nele, uma jovem dedicada a cuidar do pai viúvo, apaixona-se, mas não sabe o que fazer de sua vida. Somente com um falso casamento que seu pai fingirá contrair, ela poderá considerar o caminho de sua própria felicidade. 108 min. P&B. 16mm.

27, Sexta, 15:50h (Novo Horário)

Era Uma Vez em Tóquio (Tôkyô Monogatari, 1953)
Considerado por muitos como a obra-prima do diretor, este filme celebrou uma espécie de nova maturidade para Ozu, que na época de seu lançamento completava 50 anos. Nele, um casal de idosos visita os filhos após uma ausência de duas décadas, mas são desprezados por seus descendentes, encontrando abrigo na hospitalidade de uma jovem nora que já está viúva. 135 min. P&B. 16mm.

28, Sábado, 14:00h

Fim de Verão (Kohayagawa-Ke No Aki, 1961)
No pós-guerra, patriarca de uma família em crise financeira revive uma antiga paixão. Enquanto isso, ele tenta casar sua segunda filha, bem como sua nora. Filme que representa a derrocada da família tradicional japonesa e do próprio indivíduo que, confrontado com uma realidade em transformação, tem como única certeza a existência da morte. 103 min. Cor. 16mm.

29, Domingo, 14:00h

A rotina Tem Seu Encanto (Sanma no Aji, 1962)
Último filme de Ozu. Um viúvo de idade avançada preocupa-se em arranjar o casamento de sua filha. Militar, ex-combatente na Segunda Guerra, ele sente com seus amigos fuzileiros o peso dos anos, de uma história que assola o Japão até mesmo em suas relações mais íntimas. 113 min. Cor. 16mm.

16:00h  -  Palestra Sobre Yasujiro Ozu, com Luiz Soares Jr.

Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (Espanha, 1980), de Pedro Almodóvar

Por Mariana Lins

A experiência cinematográfica ganha novos nuances nas mãos de Pedro Almodóvar, um diretor que prima pela ousadia e consegue levar à grande tela os desejos mais reprimidos e, ao mesmo tempo, corriqueiros do homem moderno. Em seu segundo longa, Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (1980) que o Cineclube Dissenso exibe no próximo sábado (26/11), às 14h, no Cinema da Fundação, o espanhol reúne no roteiro todos os elementos que o envolviam e influenciavam na época.

Recém-saída da ditadura franquista, a Espanha vivia o ápice da efervescência cultural no que ficou marcado como a movida madrileña. Naquele momento, artistas de todas as vertentes exprimiam, por meio de suas obras, a liberdade surrupiada pelos longos anos de totalitarismo. Almodóvar estava exatamente no olho do furacão, realizando curtas e um longa em Super 8 e criando histórias mirabolantes, influenciado pelos quadrinhos e por toda a cultura pop que, aos poucos, penetrava o mundo underground da capital espanhola.

Encorajado pela atriz Carmen Maura, amiga e principal entusiasta de seu trabalho, que viria a ser musa de seus próximos filmes, ele abandona o Super 8 e filma Pepi, Luci, Bom… em 16 mm. O orçamento mais do que limitado faz com que a película leve um ano e meio para ficar pronta, já que as câmeras emprestadas só eram liberadas à noite e nos finais de semana. Mesmo com os percalços, o longa foi o passaporte que Almodóvar precisava para conquistar espaço no meio cinematográfico espanhol.

O filme se passa no subúrbio de Madri, mais precisamente em um conjunto residencial popular onde vivem as jovens Pepi (Carmen Maura), Luci (Eva Silva) e Bom (Alaska). Pepi vive sozinha, bancada pelos pais, criando artimanhas para descolar uma grana aqui e ali. Certo dia, o vizinho policial resolve fazer diligências na casa dela e acaba encontrando uma plantação de maconha em pequenos vasos. A moça seduz o investigador, para aliviar sua barra com a polícia, mas avisa que o sexo só poderá ser anal, já que estava negociando sua virgindade por dinheiro.

Pepi é violentada pelo policial e passa tê-lo como inimigo número um, o que faz com que ela e a amiga Bom passem a maior parte do tempo planejando como se vingar do homem. Coincidentemente, elas ficam amigas de Luci, esposa pudica e sadomasoquista do policial, com quem vivem o período mais maluco de suas vidas. Juntas, elas se drogam, frequentam festas, inferninhos e experimentam de tudo no submundo madrileño.

Almodóvar já delineia, a partir deste filme de início de carreira, traços que o acompanharão pelo resto de sua filmografia, como as cores fortes, as personagens pitorescas e o forte papel da trilha sonora na película. Três décadas depois, Pepi, Luci, Bom é considerado o item mais cult (e raro) da filmografia do diretor espanhol.

Após a sessão, debate na sala Edmundo Moraes.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Pepi Luci Bom e outras garotas de montão (Espanha, 1980), de Pedro Almodóvar
Sábado, 26 de novembro de 2011
Cinema da Fundação, às 14h
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

Lições da Escuridão (França/Reino Unido/Alemanha, 1992), de Werner Herzog

Por Ranieri Brandão

“Aonde se inscrevem estas imagens?” Em 1992, a câmera de Werner Herzog sobrevoava as planícies desérticas do Kuwait pós-Guerra do Golfo, queimadas pelo fogo, banhadas pelo petróleo, e por muito tempo mantidas por uma hipnotizante ausência de figuras humanas. No primeiro momento de exposição, temos que nos perguntar exatamente sobre qual a natureza dessas imagens e se aquilo que a voz off conta por sobre elas corresponde a uma ficção científica improvável (mas possível, possibilitada pelos contornos fantásticos e selvagens das matérias captadas) ou à documentação de algo que, de tão absurdo, só poderia se dar à câmera e ao cinema como objeto ficcional. O que Lições da Escuridão – que o Cineclube Dissenso exibe nesse sábado (19/11) no Cinema da Fundação, excepcionalmente às 15h –  parece tocar é a estrutura fundamental do cinema de Herzog em particular e do cinema como um todo: o dar às imagens na tela uma outra vida que, paralela àquilo que tais imagens representam por serem fruto da captura de coisas perfeitamente filmáveis, é então revista de forma alienígena, ressignificada, re(pro)posta e reapresentada.

Quando a câmera de Herzog plana sobre o cenário devastado, aparentemente abandonado e morto, sua visão e a consequente voz off impõem àquele mundo a linguagem espetacular que o faz ser representado como parte de um planeta desconhecido, como um passo da humanidade em direção à colonização espacial (e não faltam imagens de homens trabalhando, imagens que parecem atestar esse domínio, esse trabalho da loucura em espaços desconhecidos). É preciso, então, proceder à nomeação, à criação da História e cultura desse mundo, seu início (os primeiros contatos que se estabelecem com os “seres” que habitam tal mundo) e seu fim (a história de uma guerra, os restos de ferramentas e estruturas arquitetônicas). “Dar histórias”, esse procedimento infantil, muitas vezes é renomear coisas e espaços como crianças renomeiam e dão novas funções a seus brinquedos, é percorrer o mesmo caminho a partir de um outro olhar. O que a Guerra do Golfo proporcionou, o trauma e a profunda cicatriz naquele espaço irreconhecível que se desligou da geologia terrestre para ser um planeta particular dentro do nosso, para Herzog não foi outra coisa senão a impossibilidade de encontrar um ponto de vista definitivo para se posicionar e tratar aquelas imagens. Daí, a transitoriedade entre o documentário como ficção, e a ficção como um modo de enxergar e mediar a verdade daquilo que se documenta e se retém.

E daí também os efeitos fatais da experiência: como se aquele mundo estivesse encurralado por dois espelhos, pode-se ter uma ideia dos discursos originais provenientes das imagens originais sem a voz off que as transtornam (mas que as mantém “sãs”, contando ainda as mesmas histórias de tragédia e de inferno), porque Herzog costura verdades documentais (uma mulher que “tinha alguma coisa para nos dizer [mesmo tendo perdido a voz]”; a mulher que teve o filho pequeno agredido por soldados e que também perdeu a voz – a fala, esse fator tão importante neste cinema) com as verdades daquilo que ele insiste em transformar em ficção e em planície de outro planeta.

Afinal, a “lição” de Lições da Escuridão parece ser a do disfarce, o infinito jogo de uma verdade que perpassa aquele espaço e que não morre, pois a verdade “de ficção” que Herzog deposita sobre esse lugar isolado pelo fogo e o desespero coloca em xeque todo o sistema de representação, o que parece ser algo extremamente de acordo com aquilo que o espaço filmado se tornou. Porque afinal parece ser muito difícil estabelecer se é mesmo o óleo que se disfarça de água, ou se a água é quem é disfarçada, pela voz do narrador, de óleo que se disfarça de água. Problemas da ficção e do Real.

A sessão contará com a presença de Ranieri Brandão, crítico de cinema e editor do site Filmologia, que participará de um debate com o público, após o filme, na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Lições da Escuridão (França/Reino Unido/Alemanha, 1992), de Werner Herzog
Sábado, 19 de novembro de 2011
Cinema da Fundação, 15h (em horário excepcional)
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

IV Janela de Cinema do Recife (Especial Kubrick)

Um Canto de Amor (França, 1950) + A Consequência (Alemanha, 1977), de Wolfgang Petersen

Por Rodrigo Almeida

Quando estamos inseridos no meio e presenciamos alguns cinéfilos defenderem a ferro e fogo suas paixões subterrâneas, nos vemos diante de um itinerário recorrente e notado pelo ex-Cahiers du Cinéma Antoine de Baecque, onde se ressaltam e valorizam artistas menosprezados ou absolutamente invisíveis, para então sermos apresentados ao mesmo nome uma dúzia de vezes, a cada encontro, até nos darmos conta de certo burburinho na crítica especializada. Logo as revistas se apoderam da criatura e suas crias, programações alternativas são montadas por debaixo dos panos em longínquos escaninhos até o próprio cineasta ser contactado ou reconhecido em um grande festival (leia-se Cannes) e ganhe o prêmio máximo e mais anacrônico do século: o de ser um grande e maravilhoso autor.

Foi pensando inicialmente nisso, buscando inclusive alfinetar seus próprios vícios curatoriais da busca do autor, que o Cineclube Dissenso montou uma sessão especial no próximo sábado, às 14h, no Cinema da Fundação com o curta Um Canto de Amor (França, 1950), única produção cinematográfica dirigida pelo escritor / dramaturgo Jean Genet, seguido do longa A Consequência (Alemanha, 1977), de Wolfgang Petersen. Se o primeiro poderia seguir tranquilamente o itinerário anterior, o de estarmos resgatando um emblema único e esquecido, o segunda artista é responsável por uma série de obras que certamente estão entre as proibidas nos campos elísios dos cinéfilos, tais quais Mar em Fúria, Tróia e Poseidon (a refilmagem). Portanto, aqui não cabe traçar uma trajetória ou juízo de valor seguindo uma lógica velha e tão precária.

No entanto, os filmes foram escolhidos também por se encararem nos olhos, com os reflexos inundados de desejo, por meio da impecável fotografia em preto e branco e, especialmente, pela dupla capacidade de romperem as fronteiras de uma prisão: as fantasias sexuais e as memórias do corpo são mobilizadas em instâncias de criação e transgressão. Há em ambas produções um espírito libertário que atravessa fendas nas paredes, fechaduras, transpõe guardas noturnas, cadeados, assume forma de fumaças passadas boca a boca, de falos eretos, peitos ossudos e suados, não tomando conhecimento das restrições da gaiola. Só que nas narrativas em questão, o perigo não ronda apenas a gaiola e as cicatrizes se acumulam num universo físico, material e mental fora dela.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Um Canto de Amor (França, 1950), de Jean Genet
A Consequência (Alemanha, 1977), de Wolfgang Petersen
Sábado, 17 de setembro de 2011
Cinema da Fundação, 14h
Rua Henrique Dias, Derby, 609
Entrada Gratuita

Silvia Prieto (Argentina, 1999), de Martín Rejtman

Por Fábio Ramalho

Nos três longas-metragens que podem ser apontados como centrais para a filmografia do cineasta argentino Martín Rejtman – Rapado (1992), Silvia Prieto (1999) e Los guantes mágicos (2003) – há em comum o interesse por sensibilidades que se delineiam a partir de certos recortes geracionais: a adolescência, a crise iminente dos trinta anos, a proximidade dos quarenta. Dentre eles, Silvia Prieto, que o Cineclube Dissenso exibe no próximo sábado (10), às 14h, no Cinema da Fundação, é não apenas o filme que demarca com maior radicalidade o momento em que desponta um novo cinema argentino nos anos noventa, mas também aquele que, articulando humor nonsense e uma maneira de olhar as banalidades cotidianas e os espaços da cidade – aqui, notadamente, a capital argentina –, traça um caminho muito peculiar dentre as vertentes realistas predominantes no cinema latino-americano contemporâneo. Como disse Gonzalo Aguilar, o cinema de Rejtman é aquele que dá corpo ao sentimento que assola personagens que, com o advento de certa idade, descobrem que são sempre “menos do que pensavam que iriam ser”. Daí a resolução inicial de mudar de vida – movimento que desencadeia o relato – e daí também o crescente despojamento empreendido pela Silvia Prieto interpretada por Rosario Bléfari.

A mobilidade dos personagens, no que diz respeito às formas possíveis de estabelecer aproximações, sugere algo como uma capacidade de aderir ao entorno e vincular a esse contato circunstancial as suas determinações pessoais, profissionais e amorosas – sempre estabelecidas em curto prazo, inconsistentes, mesmo quando implicam projetos que se pretendem de absoluta transformação. A instituição de tais dinâmicas encontra reforço na circulação constante de valores e objetos que em inúmeros momentos se sobrepõe como elemento organizador da experiência, determinando a direção e o ritmo dos acontecimentos, orientando o registro. E não apenas objetos, mas também as pessoas circulam, são intercambiáveis: os casais, os empregados (e seus uniformes), os moradores que dividem um quarto, os presos. Constituem-se pequenas ordens instáveis, sempre desfeitas pela instauração de uma nova ordem provisória, contingente.

O estabelecimento de tais circuitos atende, assim, a uma serialidade na qual, de um jeito ou de outro, todos os elementos do filme terminam por inserir-se. Tudo se desdobra, duplica-se e se multiplica em uma série de recorrências, retornos, reiterações que os personagens reforçam pela assimilação do cálculo e da quantificação como meios para organizar um mundo. Conta-se, no duplo sentido do termo – o da quantificação e o do relato – como se estes fossem sentidos indissociáveis e complementares. Há uma preocupação obsessiva com o cálculo como garantia de inteligibilidade – apego que alude, talvez, ao desejo de fixação de um sentido evanescente pela sua reordenação a partir de uma lógica muito própria; pelo requinte extravagante de eleger o detalhe como critério para apreensão da experiência.

Tais conexões e associações aleatórias expõem, também, o caráter convencionado que em maior ou menor grau sustenta todas as identidades. A exacerbação desse aspecto vem sobretudo pela questão do nome como um traço que é ao mesmo tempo marca pessoal e denominação arbitrária. De fato, se a afirmação de si pode se dar pelo nome como enunciação de um “eu sou…”, aqui ele perde o seu suposto traço distintivo pela constatação de que existem outras denominações idênticas. Aniquila-se, desse modo, a exclusividade que atestaria uma existência singular. O caráter ambivalente do nome se desdobra na reação de Silvia Prieto (Bléfari) à descoberta de que ela possui uma homônima (Mirtha Busnelli) vivendo em Buenos Aires. A reação a esse fato tem algo de despropositado, banal e irreverente, como todo o resto. Marca de um cinema que não se leva a sério: colocando em cena uma crise, presta-se ao cuidado de contornar qualquer tom de gravidade ou pretensão de transparência.

SERVIÇO
Cineclube Dissenso
Silvia Prieto (Argentina, 1999), de Martín Rejtman
Sábado, 10 de setembro de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby
Entrada Gratuita

Fantasma (Argentina, 2006), de Lisandro Alonso

Por Fernando Mendonça

O esvaziar da tela, o apagar da luz, mecânicas de uma encenação cega, ofuscada pela ausência sofrida por um tempo que não mais deseja, mas lateja, uma fina teia de matéria. Fazer um filme, para Lisandro Alonso, é lapidar um espaço-dimensão, torná-lo concreto, ainda que de maneira agonizante ou moribunda. Da crueza que se concentra nos poucos títulos que o tornaram um expoente do jovem cinema argentino, seu filme Fantasma, a ser exibido este sábado (03/09) pelo Cineclube Dissenso, no Cinema da Fundação, é dos que mais terrivelmente atestam uma fragilidade particular ao ente cinematográfico, seja pelo exorcismo narrativo, como pelo perecível estado do que é físico e consequentemente filmável.

Da sinopse, temos um homem solitário que, numa sala de cinema, assiste a si próprio na tela. Este homem é Argentino Vargas, cidadão argentino, presença protagonista da película antecessora de Alonso: Os Mortos (2004). Mesmo filme exibido no cinema de Fantasma, exatamente na sala do Teatro San Martín, único lugar onde Os Mortos fora realmente projetado quando de seu lançamento em Buenos Aires.

Se as fraquezas do espaço finalmente se revelam no cinema de Alonso, isso acontece porque o espaço de seu interesse volta-se justamente para um lugar de lugares: a sala de cinema. Já não cabem os jogos de ficcionalização recorridos em seus filmes anteriores se agora é o próprio olhar ficcional o ser narrado, despido, abandonado pela ética do pseudo-documental. Fantasma é sim uma farsa, mas também é registro de fatos. Labirinto de corpos impossíveis e estranhos, perversidade do movimento. Nele, Alonso reintegra todos os elementos de sua trajetória (Misael Saavedra, protagonista de A Liberdade – 2001, também atravessa o cinema de Fantasma) concluindo não só o que ficou considerado uma trilogia particular, mas encerrando um posicionamento diante da imagem, de sua exibição, do tempo que decorre entre uma e outra, e que permanece.

Para registro, Fantasma se assume enquanto eco de outro filme-monumento sobre a sala cinematográfica: Adeus, Dragon Inn (Tsai Ming-Liang, 2003), também exibido pelo Cineclube. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Fantasma (Argentina, 2006), de Lisandro Alonso
Sábado, 03 de setembro de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

Desert (1976) e Dog Star Man (1961-64), de Stan Brakhage

Haja luz. Parece ser esta a sentença dita por Stan Brakhage em cada um de seus quase 400 filmes. Pois dita com as mãos na película, como se um negativo fosse o barro criador da vida. Aproximando-se deste cinema enquanto ontologia das coisas, o Cineclube Dissenso exibe este sábado (20/08) aquela que talvez seja a obra de uma existência: Dog Star Man, concebido por Brakhage entre 1961-64, com fragmentos que combinados reuniriam a sua visão da origem do Universo. O curta Desert (1976), do mesmo diretor, abrirá a sessão, introduzindo parte do imaginário cósmico desenvolvido em sua carreira. Exibidos em alta-definição, os filmes inauguram uma nova possibilidade de projeção no Cinema da Fundação. Debate na sala Edmundo Morais.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
Desert (1976) e Dog Star Man (1961-64), de Stan Brakhage
Sábado, 20 de agosto de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

A Falta que Me Faz (Brasil, 2009), de Marília Rocha

Tradicionalmente, os documentários brasileiros são lançados com pouquíssimas cópias e têm grande dificuldade de alcançar o público, disputando espaço com produções estrangeiras, representadas por grandes distribuidoras mundiais e com alto investimento em mídia. Pensando nisso, o Cineclube Dissenso alia-se ao projeto que surgiu como uma parceria da Teia com a Lume Filmes, o Cine Mais Cultura e o Conselho Nacional de Cineclubes, para exibir este sábado (06/08), no Cinema da Fundação, o filme A Falta que me Faz (2009), produção nacional dirigida por Marília Rocha.

Durante um inverno, rodeadas pela Serra do Espinhaço, um grupo de meninas vive o fim da juventude. Um romantismo impossível deixa marcas em seus corpos e na paisagem a seu redor. Em meio a conversas, obrigações e prazeres cotidianos, cada uma delas encontra uma maneira particular de contornar a solidão e enfrentar as incertezas de um futuro próximo.

Esta exibição faz parte de uma atual trajetória experimentada pelo filme junto a uma rede nacional de cineclubes, que realizará sessões entre julho e setembro de 2011, registrando o retorno dos espectadores e contabilizando assim o público do filme no circuito não-comercial. A iniciativa é inovadora e pretende fazer com que os filmes cheguem ao público brasileiro, desde os grandes centros urbanos até o interior do país, atingindo uma parcela relevante do território brasileiro e valorizando uma experiência singular de cinema.

SERVIÇO

Cineclube Dissenso
A Falta que Me Faz (Brasil, 2009), de Marília Rocha
Sábado, 06 de agosto de 2011
14 horas
Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609, Derby

Este sábado, 30/7, mais um filme surpresa!

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